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Literatura arrastando a vida
por Sônia Oliveira Pinto

Literatura e realidade. É na linha tênue existente entre os dois mundos que vive o escritor e jornalista literário José Castello.

Autor de biografias de importantes escritores brasileiros, como a de Vinícius de Moraes, Castello agora surpreende ao se debruçar sobre o maior mito do futebol mundial, o rei Pelé. O perfil, Os Dez Corações do Rei (Ediouro), resume-se a contar a história do ídolo Pelé; não a de Edson Arantes do Nascimento.

Depois de passar pelas redações das principais revistas e jornais do país, Castello hoje se divide entre a crítica literária e a literatura. Em 2001, lançou seu primeiro romance, Fantasma (Record), que transforma o poeta Paulo Leminski em personagem literário – figura enigmática que conduz um arquiteto a descobrir uma misteriosa Curitiba. Aquela mesma cidade por onde vaga o ‘vampiro’ de Dalton Trevisan. Personagens apenas, que de repente se transformam em presenças marcantes na vida real. Mas, segundo Castello, “a literatura, quando se avizinha da arte, salta a frente e arrasta a vida a seu reboque”.

E essa vida, que está por trás da obra, sempre interessa a Castello. Para ele, cada escritor está, de alguma forma, presente na obra que faz. “Eu acho que todo escritor é um pouco um personagem, nem que seja o narrador oculto que está narrando aquela obra”.

Classificado por Wilson Bueno como “renitente caçador de essências”, Castello está sempre interessado no lado sombrio da literatura, onde se escondem os escritores, personagens de suas biografias e pequenos retratos sensíveis. Conseguiu enxergar a literatura onde ela não existia a olho nu. Retratou João Rath (jornalista “imerso nas tramas da imaginação”) e Bispo do Rosário (“declarado esquizofrênico”), que não eram escritores, porém neles encontrou “duas vias tortuosas, mas persistentes, rumo à plenitude da palavra”.

Essa palavra oculta está ligada à imaginação, ao sonho, à arte. Castello é expert no assunto. Para ele, “ninguém escreve bem sem aprender, antes disso, a sonhar bem".

Um dia, escreveu que seu interesse pela literatura “aumentou quando descobriu homens de carne e osso guardados dentro das narrativas e dos poemas”. E acrescentou uma citação de Emerson, dizendo que “Talento apenas não faz um escritor. Deve haver um homem por trás do livro.” Ao ler e ouvir José Castello, descobre-se um grande homem por trás da escrita e da fala, um homem que, além de talentoso, aprendeu, com excelência, a sonhar.

Ao Paralelos, o escritor falou sobre crítica literária, escritores que o interessam, novos autores, novos projetos, blogs, futebol e, sobretudo literatura, ela que é o nosso mote, a literatura, que, segundo nosso entrevistado “é um esconderijo de toda essa confusão do mundo, e também um ponto de reflexão”. “Literatura é liberdade”, resume.


Escrever sobre literatura e fazer literatura. Como é estar nos dois lados da moeda?
Isso é difícil. Vou dar exemplos bem óbvios. O Chico Buarque... lançou agora o Budapeste, seu terceiro romance. Está tendo até uma recepção legal, não de aparecer, porque ele é uma estrela e sempre aparece, mas de avaliação. Mas, ainda assim, se vê sempre o Chico como o compositor que se meteu a escrever; o Jô Soares... vendeu pra caramba o livro dele, é um best seller, mas fica sempre visto de banda como um cara de televisão, um showman que decidiu escrever também; Silviano Santiago é crítico literário, tem uma obra de ficção original, interessante, tem uma obra de poesia, mas é sempre visto como aquele crítico literário que também escreve. Então, é muito difícil, você fica com um estigma, parece que as pessoas custam a acreditar que você faz aquilo como uma coisa prioritária, parece que você faz aquilo como hobby.

Então, você está dizendo que a sua prioridade é ser escritor?
É, mas aí entra muito a minha visão de literatura, os meus livros, todos eles praticamente, são livros muito híbridos; eu me interesso muito por essas fronteiras de gênero, que não são nem uma coisa nem outra, que você fica fugindo dos gêneros clássicos. Meu primeiro livro, por exemplo, é a biografia do Vinícius, O poeta da paixão. Já houve quem dissesse que é um romance envergonhado. Eu não menti ali, não escrevi valorizando a fantasia, a minha imaginação, nada disso, mas de fato o livro tem uma estrutura de um romance do século 19, um romance tradicional. E eu tenho um envolvimento ali pessoal no livro que, normalmente, os biógrafos não têm, isso eu reconheço. Eu me interesso muito pela literatura não realista, clássica, mas eu acho que a literatura tem um compromisso radical com a realidade. Acho que sempre há um elo muito forte com o real, e os escritores que me interessam mais são os que trabalham de alguma forma com isso, embora aparentemente não. Por exemplo, a Clarice. A Clarice não é uma escritora realista ou naturalista, jamais se poderá dizer isso, mas a literatura da Clarice está, o tempo todo, colocando em questão a realidade, o real, o que é o real, a existência. São esses os escritores que me interessam, mais do que tudo.

Os escritores sobre os quais você se dedica a escrever são sempre os que mais te interessam?
Sempre escrevi sobre escritores que me interessam. É claro que eu, no dia-a-dia, colaborando com o Prosa e Verso, com o Valor, com a Bravo, muitas vezes escrevo sobre escritores que não me interessam tanto, e que eu faço por encomenda, uma questão profissional, mas nos livros são sempre os que me interessam. E o meu romance, Fantasma (Record, 2000), que fica muito na fronteira da autobiografia, muita gente acha que é um livro confessional. Há gente até que, sem ler, imagina e começa a dizer que aquilo é uma biografia do Leminski.

Ele é um autor que te interessava?
Nem é um autor que eu gosto tanto, mas me interesso muito pela figura dele, a presença dele em Curitiba é muita estranha, porque é muito intensa. Ele foi mais ou menos que santificado depois de morto em Curitiba. Então, não é nem tanto a literatura dele que me interessa, é esse personagem que a própria sociedade retirou da figura dele. Ele virou uma espécie de morto-vivo na vida curitibana, talvez celebrado e comemorado com muito mais intensidade do que quando era vivo, que é um processo bem brasileiro, santificar a pessoa depois de morta. Essa fronteira sempre é o que me interessa.

O Fantasma foi idealizado, desde o princípio, com a figura do Paulo Leminski como ‘condutor’ do protagonista?
Eu tinha uma ficção rascunhada, mas muito precariamente, que era a história de um sujeito que perseguia um escritor, mas era só isso. Aí, determinado momento, você vê que foram as circunstâncias que me levaram para esse livro. Embora ele não seja um livro de encomenda, a Record me encomendou um livro sobre Curitiba, mas era um livro sobre a cidade e eu fiquei tentando fazer e não conseguia. E eu estava odiando o que estava fazendo, porque sempre saía ruim. Aí, nos intervalos, eu comecei a brincar, puxei lá um arquivo para brincar com essa história e naquele meu rascunho coloquei o Leminski como personagem e comecei a desenvolver a história do arquiteto obssecado pelo Leminiski, de tal forma essa história foi crescendo, que um dia resolvi ligar para a Luciana Villas-Boas, a editora, e dizer: “Não quero, não vou mais fazer um livro sobre Curitiba, que eu não sei fazer. Foi um erro ter aceito esse projeto. Mas eu estou fazendo uma coisa louca, que eu não sei se é um romance, que é uma história de obsessão pelo Leminski”. Aí ela se interessou e ele foi publicado fora da coleção. E foi assim que eu fiz o Fantasma, ainda sobre a pressão da realidade, lutando um pouco com a realidade.

Por que você escolheu a cidade de Curitiba para viver?
Os últimos três anos que morei no Rio tive uma casa alugada em Teresópolis, com os amigos, e eu passava muitos fins de semana, feriado, férias lá nessa casa. Ali já tinha um esboço de um projeto meu, que também era desses amigos, de morar fora do Rio. Naquela época, imaginava que seria interessante morar na montanha, porque era perto, viria aqui quando precisasse, mas com essa casa lá, eu comecei a descobrir como esse sonho era precário, porque lá é tudo muito precário. Você quer uma livraria não tem, você fica dependendo da distância. Aí resolvi simplesmente que eu tinha que ir para uma cidade média, primeiro pensei em Florianópolis, depois eu tinha vários amigos em Curitiba e acabei optando por Curitiba, uma cidade média que não fosse esse massacre que é a vida no Rio ou em São Paulo, mas que fosse uma cidade moderna, que funcionasse, ao contrário das cidades serranas. E eu acho que encontrei uma solução, não sei se ideal, porque ideal não existe.

E há quanto tempo você está vivendo nessa cidade ‘quase’ ideal?
Há dez anos. A cidade é muito esquisita, muito introvertida, de pessoas muito desconfiadas, muito formais, muito com pé atrás em relação a você, mas também é uma cidade muito misteriosa. É muito também aquela cidade que o Dalton Trevisan descobre na literatura dele, e é uma cidade parecida com aquela, não aquela do Dalton, mas parecida com aquela, a que eu descobri, comecei a entender que o Dalton tinha muita razão. Então, comecei a entender melhor a literatura dele. E foi a partir daí que eu comecei a brincar com isso nesse livro, que não caiu muito bem lá, não teve muito boa recepção, até teve ataques aqui e ali de críticos que não gostaram, mas teve sobretudo um certo desprezo pelo livro lá, e esse desprezo me veio confirmar que eu tinha tocado em algumas feridas da cidade que eram meio intocáveis. E que tinha passado um pouco como desagradável, já que eu era um sujeito de fora; eu sou um estrangeiro lá. O livro desperta uma reação assim: ou você gosta ou você odeia. Amigos me chegaram e disseram: “Não consegui avançar na leitura do seu livro, achei muito chato, me perdi”, numa boa. Mas no entanto, amigos ou desconhecidos, muitos já chegaram com o livro todo rabiscado, fatiado, recortado, anotado, que leram duzentas vezes. Eu sinto que nas pessoas em que ele bateu, bateu de uma forma forte, que é isso que um escritor quer, qualquer escritor.

Se a cidade a ser retratada no livro fosse o Rio de Janeiro, que escritor poderia conduzir o arquiteto na descoberta de uma cidade distante dos cartões postais?
Eu penso talvez na Ana Cristina Cesar, porque ocupou um espaço, em muitas coisas semelhantes ao que o Leminski ocupou lá. Era também uma poeta marginal, era uma figura misteriosa, também escrevia ensaios, também era uma pessoa erudita, não só fazia literatura como refletia sobre a literatura.

Estou trabalhando já no meu segundo romance, que se passa aqui no Rio. É um romance que, em 2004, eu vou me dedicar a trabalhar de forma mais intensa. Ele se passa no Rio, mas não é sobre o Rio. É interessante porque estou escrevendo lá, mas com toda a minha memória daqui. O romance se passa fundamentalmente em Copacabana, mas tem coisas em Botafogo, Largo do Machado, Centro da cidade, e está saindo um Rio diferente, que eu mesmo não conhecia direito. Você busca numa cidade aquilo que te interessa ver. Então, estou trabalhando com esse Rio à distância, ainda está cru, mas está ficando bem legal, porque é um pouco o Rio que não é bem o Rio, é como se tivesse descobrindo um Rio submerso. É um romance que tem um Rio meio falso, com coisas falsas, que não existem, que vem da minha cabeça.

Como é a sua relação com os novos escritores? Há uma troca de idéias? Dos novos escritores, quem mereceria hoje destaque como autor de qualidade?
Troco e-mails com eles. Eu fiz algumas matérias sobre essa Geração 90, para Bravo, pro Valor Econômico, matérias grandes, e tenho tentado escrever sobre eles. Estou muito interessado em acompanhar a produção dessa geração, que não está com espaço suficiente, mas que está fazendo coisas muito surpreendentes, às vezes não boas, às vezes ruins, outras vezes boas. Ainda não vi nada de excepcional até agora, mas tem coisas muito interessantes. O romance do Joca Terron, por exemplo, Não há nada lá, eu acho um romance muito interessante; um cara de Porto Alegre, Daniel Pellizzari, que me pareceu muito interessante também; a Clara Averbuck é uma figura muito interessante, embora eu ache uma literatura tentando reviver a geração beat. Acho que tem um engano ali no caminho literário, mas tem, ao mesmo tempo, um calor, uma coisa muito interessante.

Agora, nessa geração também existe aquela parte que está indo por um caminho perigoso, que é o pessoal que está escrevendo com a cabeça na televisão ou no cinema, escrevendo como se estivesse fazendo roteiro de cinema, que é uma literatura de má qualidade. É uma espécie de novo realismo urbano, mas é um realismo muito superficial, em que as coisas aparecem de forma muito chapadas, muito só aparência. Por exemplo, eu critiquei recentemente o último livro do Marçal Aquino. Eu gostei do livro dele e não gostei. É até bem feito, mas tem um engano ali; parece um roteiro de cinema, parece que ele tá escrevendo para ser filmado. Mas, de qualquer forma, também não quero ser tão duro nem injusto; é uma geração que está surgindo, e é claro que quando a gente começa é um jogo de acerto e erro; a gente começa em cima de exercício de imitação mesmo, a influência é muito forte sempre num escritor. No início ela é avassaladora.

Você destacaria mais algum nome?
Como falei, gosto da literatura do Terron, o Luiz Ruffato também eu gosto muito. Um cara que é muito perturbador é o Marcelo Mirisola. Acabei de resenhar o último livro dele, o Bangalô. É um livro muito difícil de ler, o livro é repulsivo, o narrador é uma figura asquerosa, a maneira de ele ver o mundo te dá nojo, toda hora dá vontade de parar de ler. Mas não se pode negar que é um livro muito bom. A literatura não pode ser avaliada somente pelas reações que você tem como sentimento. O livro é muito bom, bem escrito, bem sacado. Todos os personagens do Mirisola são assim, parece que nesse ele se supera. É um cara que eu tenho muito respeito. Mas são vários outros escritores. Sinto que não é um livro em particular que me chamou a atenção. Valorizo muito a questão da independência; isso está me deixando muito satisfeito; isso me dá muita alegria, ver as pessoas acreditando no seu projeto pessoal, seguir o seu caminho. Isso eu acho preciosíssimo; é daí que vão surgir coisas excelentes.

Apesar da recusa da maioria dos novos escritores em se permitir enquadrar dentro de rótulos, você acredita que essa definição por grupos ou gerações é possível?
Isso é uma coisa interessante na geração nova, que tem de tudo; e eu acho isso muito saudável. Eles têm razão: essa própria definição “geração” é uma definição artificial que você faz, é como uma rede que você joga e tenta pegar algum peixe. É um artifício perigoso, porque você pode pegar coisas complemente diferentes e se sentir levado a igualar coisas que não têm nenhuma semelhança. Esses rótulos são sempre perigosos. Você fala da Geração 90 pra ter uma maneira de agarrar, mas, na verdade, você está igualando coisas muito diferentes. Pode até ser uma geração em termos de idade, se bem que também não é; mas não é um movimento, não tem esse ar de movimento, não é um grupo que está afinado. “Geração” é uma denominação muito precária, ruim, mas a única existente para você poder agrupar. É um artifício que se usa para falar dessa geração novíssima que está produzindo.

Você disse recentemente que, nesse momento, a literatura brasileira dá um grande salto, não só de qualidade, mas, sobretudo, de atrevimento. Esse salto de qualidade é resultado da literatura dos novos escritores?
Penso, sobretudo pelo seguinte, o que mais me interessa e me agrada nesses escritores novos em geral é o espírito de independência e a liberdade interior que eles estão se dando. Ninguém está preocupado, em geral, em fazer livro para agradar ou seguir tal movimento ou qual escola. Essa idéia da ruptura, da obrigação da ruptura, que sempre norteou a literatura no século XX, você ter que ser de vanguarda. Isso não é uma coisa que oprime essa geração. Não tem esse espírito de escola, de todos terem que ser parecidos. Estão todos juntos, mas cada um vai pelo seu caminho, isso eu acho muito rico.

Como é possível conciliar literatura de qualidade com as regras do mercado?
É difícil, mas eu acho que, com o passar do tempo, alguns nomes, os melhores, vão começar a se firmar como assinatura, como nomes, e aí vão surgir grandes escritores, sem dúvida. Acho que é um processo de depuração, como tudo; tem autores que publicam muito numa época e não dão certo, outros começam muito discretos e lá na frente estouram. Você vê, o Saramago começou a escrever pra valer aos 54 anos e estourou com mais de sessenta. Não tem idade, não tem momento, pra cada um é um ritmo, pra cada um é um tempo, a questão é cada um descobrir o seu tempo. O importante é que eu acho que nessa geração existe bastante essa liberdade, do escritor se permitir ser o que é, encontrar sua voz, não ficar preocupado em agradar a x ou y, agradar crítica literária, agradar universidade, seguir tal cânone, ser vanguardista. Tanto, que os livros são muito diferentes uns dos outros.

O surgimento dos blogs trouxe a possibilidade de vários escritores colocarem seus textos em uma vitrine ampliada. Diante da enorme quantidade desses “diários” virtuais, como você filtra a qualidade literária dessa produção?
Não leio tantos blogs. Leio de vez em quando. Em geral, tendo a não gostar dos blogs, porque eu acho que eles tendem ou à mentira deslavada, ou à confissão mais egocêntrica (sua viagem pessoal, descrevendo seu mal humor, que não me interessa). Agora, não sou contra, acho que é uma manifestação da escrita como qualquer outra, acho que é importante que tenha. Se as pessoas estão sentindo necessidade de escrever e de avançar nisso, acho ótimo, mas eu acho que é mais uma maneira de divulgar a literatura. Eu não vejo os blogs como formadores de estilo ou de uma tendência, de estar surgindo uma geração blog, acho que não. É um veículo como outro qualquer, legítimo, a internet está cada vez mais presente na vida de todo mundo.

Entrevistei o João Filho por e-mail, que é do interior da Bahia, eu achei uma figura fabulosa esse cara, e ele está escrevendo, publicando em blog, imagina a solidão desse cara, imagina como é um ato de coragem, pra ele, fazer o que está fazendo, o que as pessoas não devem achar dele por estar fazendo o que está fazendo, o tanto que tem de risco, de empenho pessoal dele. Ele está levando em frente um projeto nas condições que ele pode, e eu acho que são de gestos e atitudes como essa que nasce uma geração literária, que nascem os grandes escritores. Para fazer uma literatura importante, você tem que empenhar um pouco seu sangue, sua alma, exige um envolvimento radical, e tem que começar dessa maneira. Não adianta ficar dizendo “não tenho condições de escrever”. Você tem que tentar fazer nas condições que tem.

Em São Paulo e no Rio Grande do Sul há uma efervescência literária mais perceptível, com os paulistas criando a PS:SP, por exemplo, e os gaúchos a Livros do Mal. Você conseguiria enxergar uma identidade na literatura produzida no Rio?
Aqui no Rio é mais difícil encontrar uma identidade literária. Aqui as coisas ficam mais dispersas. Tem um problema no Rio que eu mesmo senti; saí daqui um pouco pra me afastar disso. Eu adoro o Rio, sou apaixonado pelo Rio, mas é uma cidade muito pra fora, uma cidade solar, tudo é externo. Não é à toa que é a cidade das mulheres bonitas, dos rapazes malhados, das vistas turísticas; é uma cidade mágica. A própria temperatura da cidade, o temperamento, tudo te leva pra fora. As pessoas chegam na tua casa sem avisar, o calor te faz querer sair. Falta aqui uma atmosfera de mais concentração; você se dispersa mais facilmente no Rio. Depois que mudei para Curitiba, senti isso claramente, lá é mais fácil você se concentrar num projeto, bom ou ruim, do que aqui. São Paulo também é uma cidade menos feérica, menos pra fora. Curitiba, nesse ponto, é uma cidade de escritor, uma cidade muito introspectiva, tudo te leva a ficar em casa, porque faz frio, porque ninguém sai, porque só vai na casa dos outros marcando com muita antecedência. Então, você fica em casa.

Mas não é também um temperamento muito frio? Você não sente falta do Rio?
Sim, tem sempre o lado frio. É muito difícil fazer amigos lá, nada como meus amigos cariocas, meus amigos paulistas. Lá fiz muito poucos amigos, com dificuldade. As pessoas são muito reservadas, muito suscetíveis, cheias de pé atrás. Agora, tem o outro lado, das vantagens. O mundo não é perfeito em lugar nenhum, você tem vantagens e desvantagens em qualquer lugar.

Voltando um pouco àquela sua afirmação de ter como prioridade a escrita, você gostaria de viver somente da literatura?
De escrever, sempre nesse meu caminho meio fronteiriço. Entreguei um livro de crônicas, que está saindo, entreguei um livro sobre o Pelé (Os Dez Corações do Rei), pra Ediouro, que sairá em janeiro pela coleção Avenida Paulista, que é um projeto que eu quis fazer para me divertir. É uma coleção que vai ser dedicada a grandes personagens da vida de São Paulo. Começa a sair neste final de ano pela Ediouro. Aí, me ofereceram Antonio Candido, Lygia Fagundes Telles, Mário de Andrade, mas era um tempo curto, não estava muito interessado, não ia fazer, estava achando que era uma coisa muito atropelada. E de repente, vi na lista o nome do Pelé, e resolvi perguntar “e o Pelé?”, “ah não tem ninguém interessado”. E eu gosto muito de futebol. Quer saber de uma coisa, eu vou fazer o Pelé; pô, ninguém querer escrever sobre o Pelé no país do futebol!

Você joga futebol?
Não, não jogo, mas adoro ver futebol. Só que eu achei que ia ser muito mais fácil do que foi, porque eu sou torcedor, tenho aquele olhar de torcedor, mas não tenho boa memória, tenho péssima memória, e o jornalismo esportivo que eu fiz, era de esporte amador; então, na hora de começar a trabalhar é que eu vi que eu não sabia as coisas elementares – a escalação do Santos quando foi Campeão do Mundo em 62, a seleção brasileira de 58, etc. Não sabia nada. Mas eu tenho um envolvimento sentimental muito grande com o futebol, de paixão, de torcedor.

O que você acha das adaptações de obras literárias para o cinema?
Quando você vai ver uma adaptação, tem que ter claro que você vai ver uma outra coisa, você vê um filme que foi inspirado naquele livro. Se você vê assim, eu acho que você não se decepciona. Se o filme é bom é bom, se é ruim é ruim. O filme As Horas, por exemplo, baseado no romance do Michael Cunninghan, e em cima também da Virginia Woolf, do Mrs. Dalloway, eu fui ver nessa perspectiva, e eu gostei muito do filme, achei o filme maravilhoso. Claro que não é bem uma adaptação do romance do Cunninghan; também aquela mulher não chega a ser bem a Virginia, mas é muito bem feito. E é um diálogo com a obra da Virginia e com a obra do Cunnighan, que por sua vez já fazia seu diálogo com a Virgínia; muito bem feito.

Aquela história da Clarice dizer que você escrevia com medo ainda te atormenta?
Não, não é que me atormenta, ela não me atormenta mais, mas já me atormentou porque me impedia de escrever, ou tornava extremamente tortuoso o processo da escrita, porque eu podia escrever com muito mais rapidez, liberdade, fluência, mas eu escrevia truncado por causa do medo.

Hoje você escreve totalmente sem medo?
Totalmente não existe, mas eu luto sempre, essa história vai sempre ficar na minha cabeça como um alerta de que eu tenho sempre que me dar o máximo de liberdade. Se eu não me der, ninguém vai me dar. Sempre procuro ver onde é que estou me emperrando, onde estou me repetindo, onde estou copiando a mim mesmo, onde eu estou indo pouco quando eu poderia avançar mais. Eu sempre procuro avaliar as coisas por aí, me livrando. Quanto mais você enfatiza isso, mais você se opõe a esse Wilson Martins interno; que tem sempre aquele sujeito ali dentro dizendo “isso não”, “isso não tá na moda”, “isso vão odiar”, “isso vão dizer que é repetição”. Sempre tem essa voz. O negócio é desprezar o mais que possível essa voz, o que não quer dizer não ser meticuloso, não ser rigoroso, não reescrever quinhentas vezes. Isso eu sempre faço, mas mesmo esse processo de rigor, de depuração da linguagem, de cortes, de lapidação, mesmo esse processo tem que ser feito com liberdade, como uma coisa de prazer e não como uma coisa de alguém te vigiando, dizendo isso pode, isso não pode.

Dentre tantos autores lidos, qual você escolheria como o mais recorrente ou importante na sua vida?
Olha, eu acho que tem três autores, não sei se são os autores da minha vida, mas são autores a quem eu sempre volto, com quem eu sempre me sinto em débito, tendo que ler mais e aprender mais; me parece que são fontes inesgotáveis pra mim, que é o Kafka, a Clarice e o Pessoa. Esses três talvez sejam os três autores que eu mais gosto, juntando gosto pessoal, juntando perspectiva da minha própria história pessoal, o tempo que tive ligado a cada um deles. Não que eu esteja afirmando que são os melhores; talvez foram ou até são os mais importantes pra mim. Agora, eu gosto muito também da literatura argentina, que sempre foi muito importante pra mim. Eu gosto do Bioy Casares, do Sabato, do Roberto Arlt, do Cortázar; desde garoto que eu leio eles. Na rua Senador Dantas, tinha, não sei se ainda tem, uma livraria espanhola, eu descobri isso na adolescência, eu ia lá, juntava meu dinheiro, minha mesada e ia comprar livros em espanhol e ler esses caras, sem ter aprendido nunca espanhol; aprendi lendo. É uma literatura muito importante pra mim.

Na sua opinião, qual a importância da Academia Brasileira de Letras para a literatura?
Eu não sou contra a Academia, não. Confesso que nunca tive nenhuma atracão por ela, que sempre me pareceu uma coisa meio burocrática, meio um clube de amigos, mas eu tenho a impressão de que isso tá mudando, pra melhor; tem entrado umas pessoas surpreendentes na Academia. Entrou o Scliar, começaram entrar as mulheres, entrou o Paulo Coelho, que é uma coisa surpreendente.

O que você acha disso, do Paulo Coelho entrar na ABL?
Por que não? Se o Roberto Marinho pode ser imortal, porque o Paulo Coelho não pode? Se o Pitanguy pode ser imortal... São caras que não têm obras literárias. Eu não gosto da literatura do Paulo Coelho, acho uma literatura primária, agora, eu tenho um enorme respeito por ele, porque o cara conseguir o que ele conseguiu, tantas pessoas apaixonadas pela escrita dele, em tantas partes do mundo ele é reverenciado; ele chega no Irã, pára o Irã, chega no Japão, pára o Japão, ele vai à Bósnia, pára a Bósnia, na França, que eles são tão rigorosos...todo mundo lê Paulo Coelho. Quer dizer, alguma coisa tem de valor, ele conseguiu tocar em algum ponto, em alguns pontos sensíveis, com enorme habilidade, e depois é um cara que consegue isso, quer dizer, consegue ser traduzido, vender, ser reconhecido em tantas partes do mundo, só merece você tirar o chapéu pra ele. Acho que quem não tira é muito por inveja, por despeito, ele que escreve aquela porcaria consegue e eu que escrevo minha obra genial não consigo, isso é besteira. Além do que, ele é um cara muito simpático, como pessoa, é um sujeito muito simpático, muito afetuoso. Mas eu não gosto da literatura dele, acho a literatura dele simples, beirando o simplório, ela não me diz nada, muito pouco; teve livro que gostei mais, um que gostei menos, dos que li, mas não me diz nada praticamente; porém, existem tantos grandes autores que também não me dizem nada, autores consagrados e considerados geniais, que também não me dizem nada, da mesma forma.

Como por exemplo...
Como por exemplo... Vou dar um exemplo brasileiro, os poetas concretos, que são tão prestigiados e tão premiados, influenciam toda a poesia até hoje, e a poesia concreta não me diz nada, eu não tenho menor interesse por ela. Não é que seja contra, não tenho o menor interesse, acho aquilo uma brincadeira, intelectual, erudita, sofisticada, mas uma brincadeira, que não me interessa; se interessa a outras pessoas, ótimo, não tenho nada contra; sou a favor da liberdade de expressão completa, mas ela, a mim, pessoalmente, não diz nada; como Paulo Coelho também não me diz nada. Estou querendo dizer o quê? Que Paulo Coelho é igual à poesia concreta? Não, certamente é completamente diferente, estão em mundos diferentes, e até talvez antagônicos.

Você falou em “grandes autores”...
Eu reconheço, por exemplo, a grandeza da obra de Guimarães Rosa, mas não é um escritor que me deixe empolgado; eu reconheço muito a grandeza da poesia de Drummond, é um poeta extraordinário, tem algumas coisas do Drummond que me tocaram muito, mas, no geral, o Vinícius, o João Cabral e o Bandeira me tocam muito mais do que o Drummond. É problema do Drummond? Não, talvez problema meu. Óbvio que o Drummond é um grande poeta, com todo reconhecimento que ele tem, enfim, e porque tem muitas coisas que eu acho extraordinárias mesmo; agora, o fato de eu ter menos sintonia com ele, não diz nada a respeito dele, diz a meu respeito, possivelmente, se é que diz alguma coisa, da minha sensibilidade, ou das minhas limitações mesmo. É a mesma coisa que eu sinto em relação ao Paulo Coelho, agora o que eu acho odioso, primeiro essa tentativa de desqualificar o Paulo Coelho, “não, não é um escritor”, “não, não faz literatura”, o que ele faz então? Xadrez? Cozinha pra fora? É literatura sim, você pode dizer que é literatura ruim, que você não gosta, que te dá até repulsa, mas é literatura.

Voltando a falar sobre o que você espera da literatura para a sua vida...
Como eu estava falando, quanto mais esse mundo louco e veloz se radicaliza por um lado, eu acho que por outro cada vez ganha e vão ganhar mais valor aqueles espaços em que a particularidade pode se exprimir e ter lugar. Por que a psicanálise, por exemplo, teve tanta expansão? Porque num mundo cada vez mais acelerado, mais massificado, mais repetitivo, mais rápido, mais superficial, a psicanálise são aqueles cinqüenta minutos que você pára, só pra pensar em você, só pra tentar falar a verdade, lutar por isso pelo menos, e tem uma pessoa cinqüenta minutos te ouvindo, e tentando interferir, dialogar com você. Todos esses espaços – a psicanálise, a literatura, a pintura, mesmo a filosofia, enfim –, são espaços que, embora estejam em oposição a esse mundo que a gente vive, e justamente por isso, é que se tornam cada vez mais valiosos.

É por isso que eu acho que eles têm um grande futuro. Não porque correspondam ao mundo, mas porque eles não correspondem ao mundo, e abrem espaços para aquilo que está recalcado nesse mundo, que é a introspeção, a meditação, a capacidade de você se manifestar pessoalmente, com seu pensamento único e intransferível, a sua maneira de ver o mundo, a sua sensibilidade. Eu acho que, pra mim, na minha vida, a literatura é isso, ela é um lugar, não só em que eu me sinto muito bem, tanto como leitor, como escritor, como profissional; mas ela é, também, um esconderijo de toda essa confusão do mundo, e também um ponto de reflexão.



| comentários (13)

:: dezembro 2, 2003 04:06 PM


Sônia Oliveira Pinto é jornalista, carioca e tem 32 anos.

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