
(Rio, 02 de dezembro de 2003 - Depois que terminei de escrever o “Corpo Presente” e lancei o livro em outubro passado, não escrevi mais ficção. As crônicas para o jornal surgem arrancadas a fórceps, entregues sempre em cima da hora, sem muita vontade de ser. Tento aqui despertar deste auto-imposto exílio, curo minha ressaca escrevendo um conto como quem bebe uma garrafa d’água depois de acordar de porre, enfastiado da vida. Faço isso duplamente motivado. Inspirar-me na arte do genial Clodin Clodan (Christiano Menezes) é motivo de alegria nessa noite quente. O artista pintou a tela sob efeito da mesma música que ouvirei escrevendo o conto (Phillip Glass). Clodin teve o requinte de me enviar a trilha sonora por email. Deixo claro que não escolhi a gravura de Clodin Clodan, não escolhi os Paralelos. Foram eles que me escolheram. E isso me enche de orgulho. Espero merecer sua confiança. São 22:23 e agora começo a escrever. Dou-me as horas que preciso até amanhã, o prazo que se impõe.)
Descoberta
Adormece caindo de lado, sem aviso. Ainda fico um tempo falando sozinho, mas é como se não falasse. Nada que vá importar. Coloco-me de joelhos ao lado da cama, com a ponta dos dedos tiro o cabelo que insiste em entrar na sua boca, passo a mão sobre a cabeça, brinco com as orelhas, a nuca, lentamente vou querendo provocar seu despertar, sei que agora pareço uma criança. Com ela dormindo, e a noite só, o pai que costumo ser está morto.
Finalmente desiste de mim com um gemido e dá as costas, cola as palmas das mãos, dobra os joelhos e se encolhe, pequena dentro daquele corpo.
Sento na cadeira, à meia luz. O carpete do quarto guarda o mofo que o ar-condicionado espalha pelo ambiente. Ela não gosta do cheiro, diz antes de dormir. Mas gosta dos espelhos, gosta de se ver, vira o pescoço pra se ver. Às vezes me esquece, hipnotizada pela própria imagem, fartura de peitos, coxa e rabo. Nas paredes e no teto, os espelhos se refletem. Vejo meu corpo como um obstáculo entre os reflexos perfeitos. Em pouco tempo, não estou mais lá.
A janela guarda uma dezena de metros até a rua. Imagino que a essa hora todo mundo já desistiu. Da droga, do pau duro, de estar vivo. Mas seguem tentando. Esqueço deles. Dou o primeiro passo no ar e sinto a linha do bonde sob o meu pé. Desequilibro, parece que vou cair, mas não, e já estou firme sobre os arcos. De dia, o alvoroço das crianças penduradas, correndo atrás do carro, gritando e rindo, loucas, e o bonde correndo pelo trilho, velho inchado, rangendo e soltando faísca. Agora, eu só, e ela dorme lá no quarto, o pai morto.
Subo na mureta, enfio os dedos entre os pequenos vãos da grade. Solto meu corpo contra os fios de metal, se contorcem me dando apoio. Os nós dentro de mim unem-se à estrutura metálica, vou deixando de ser. No quarto, os espelhos refletem-se. Ela dorme, sonha com cachorros transparentes, bebês transparentes, paredes transparentes. Despe o mundo.
Viro a cabeça até que a linha do chão se torne um traço vertical. Os postes deitam-se sobre o casario maltratado. Luzes dos sobrados se confundem com os faróis dos carros, sinais piscando se transformam num grande borrão rubro. É quando percebo. Chegam pelos trilhos, se esgueirando da minha vista torta. Aproximam-se, agora já sem pudor. Ganham minhas costas, esticam os braços pela sombra até o toque do meu corpo. Encontro o chão. Perco.
Sento na cadeira, à meia luz. Faço novamente algumas das coisas que fiz antes (e escrevi acima), como tirar seu cabelo da boca e sacudir o seu corpo de leve, para que acorde. Faço outras coisas que não sei como escrever. Vou fazendo e ela dorme daquele jeito dela. Nunca está ausente, nem bêbada, muito menos dormindo. É como se pudesse despertar a qualquer momento, amedrontada, rasgando os reflexos dos espelhos.
Depois que acorda e não me vê, assusta, telefona e chora. Faz xixi, sem tocar o corpo no vaso. Jorra. Vai pra casa sem saber o que pensar. Acompanho seus passos, anda aos soluços, desviando dos malandros. Sento ao seu lado no táxi. Tento tocar sua perna, mas o pai que costumo ser está morto. Já acompanho as sombras, falando sozinho. A partir de agora, prometo que lhe guardo o sono diariamente. Sem o fortuito do carpete e dos espelhos.
Morto, amanheci assim, numa sexta-feira. Foi quando veio o amor.
João Paulo Cuenca – 03.12.2003 (04:01 am)
Conto feito para ilustração de Clodin Clodan, ou seja, Christiano Menezes.
Dezembro de 2003.
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:: dezembro 11, 2003 10:11 AM