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Graves e poros
por Cecilia Giannetti

Aquecimento, exercício: mãos, exercício, línguas, exercício, órgãos, exercício. Aceleram os batimentos cardíacos, estou viva enquanto pratico. Quando acaba o exercício, lavo o corpo dele do meu e me visto. Algum homem, aquele que calça os sapatos sentado na beira da cama, foi exercício. Longo, demorado, segurando o momento em movimentos circulares à base de coxas retesadas.

Não me preocupa o que Guilherme pensa enquanto dirige, porquê vai escolher determinada música, o que vai dizer às pessoas quando falar de mim. Não procuro nele sinais de outro tipo de interesse quando se despede me beijando a testa. Lembro se quiser mas não busco seu rosto na memória enquanto trabalho, ou mexo arroz na panela ou passo perfume.

Um homem sabe que o riso leva a Deus, que Deus fala com o homem através da comédia e não da miséria, a que nos tornamos indiferentes por sua persistência. Um homem não tem medo do seu nome na boca de uma mulher. Um homem me abraça inteira num aperto de mão.

Um idiota oferece um beijo na testa acima de qualquer suspeita. Um homem pode ser idiota mas o idiota jamais chegará a homem - e nunca desconfiará disso. Continuará oferecendo seu beijo insosso.

Comendo restos e acabou. As engrenagens do corpo roucas, o estômago oco, as coisas que impelem à mútua devoração. Roçando multidões na rua, tocando em minúsculos pontos de vários corpos, roendo o que já está puído, traças de pele, instigados pelo ronco da engrenagem, lambendo secreções lubrificantes que espermizam as dobradiças do corpo e impedem a ferrugem.

Com Rodrigo é diferente. Vou atrás dele à noite, limpa e esquecida do outro. Imagino que o salto alto dê o alarme na tábua de madeira corrida, ou é o perfume que chega antes, ou os dois de mãos dadas. Quando entro ele já tem a cabeça virada pra porta mas não se levanta. Fica sentado em frente ao computador, bate com a ponta da caneta como um relógio preciso em cima de um dicionário. Não diz nada, não desvia os olhos de mim, prolonga o silêncio como o outro segurava o gozo. Engraçado.

Tá rindo de quê?
De mim.

Quando escuto pelo telefone “você vem hoje”, não é uma exigência. É pergunta mas não é dúvida, eu vou. Gosto dos meus dias do jeito que são, da alegria de não me justificar, de não ter que grunhir pela manhã em reconhecimento a voz do dono. Ninguém ciente dos meus horários impossíveis, sem olhares de expectativa lançados do sofá. Rodrigo é diferente.

Hormônios ou o quê, não sei o que faz desprender dele esse cheiro; os poros mais abertos, ou a barba de dois dias. Chego perto e beijo o rosto dele de olhos abertos, quero investigar o desenho dos pêlos crescendo, algumas curvas e pedaços inteiros em que não nascem e de repente um redemoinho. A camisa abotoada guarda a temperatura dele, vejo tudo muito próximo e me afasto pra não perder o foco. Um tumulto nos olhos.

Da primeira vez que toquei com as mãos os ossos dos quadris dele imaginei que empurrava aberta uma janela e o sol me lambia por dentro. Não era dia. Enxerguei uma vaga impressão de luz riscar o quarto, e de repente a claridade estourando e machucando os olhos. Minhas pupilas ganharam fantasmas acompanhando seus movimentos no escuro, discos de luz esverdeados assombrando minha visão. Ele entendeu. Ele cobriu meus olhos com as mãos pra eu dormir, ele cobre o bocal do telefone e fala baixo e grave quando me chama.

Agora entendo o que faltava ao homem na cama. Um comando na voz, uma modulação especial, um timbre que Rodrigo alcança involuntariamente, um grave, um surdo na garganta que me deita no peito de um gigante. Sento na poltrona velha, duas molas ameaçam rasgar o couro. Como não me irritar com as coisas dele, a voz, o trabalho, a poltrona podre, os livros em caixas de papelão? O timbre da voz é pra mim e é secreto. Ele tem certeza que eu apareço. Um jeito de falar arrastando as últimas sílabas pelo terreno masculino e áspero das cordas vocais.

Ele diz que o tempo desarruma tudo que acontece, que eu preciso estar atenta para não ser enganada. O tempo é uma puta que cede a cantadas de artistas falidos, obsessores da alma. Todos têm um germe de arte, é uma doença que fabrica tintas para recriarmos cenas, pessoas, fatos na tela da memória. Alguns pintam quadros escuros com bílis, outros fazem jardins de endorfina – todos sucumbem à estilização. Estilhaçamos os acontecimentos como se fossem um quadro pintado com grãos de poeira multicoloridos, sopramos e deixamos uma névoa fina pairando e a tela novamente vazia, esperando a mistura de cores assentar e formar um novo desenho.

Algumas coisas são como são, meus enganos, placas de rua das esquinas que cercam o prédio; fragmentos. No futuro, as placas de rua serão placas de rua, os fantasmas serão fantasmas, e eu vou saber o nome de cada um deles porque eu tenho insônia e paciência pra anotar. Eu não confio em mim nem no tempo, especialmente na ação combinada dos dois: uma consciência que ricocheteia entre leveza infantil e culpa escrota, e o tempo, o passado do tempo. Nenhum dos dois pode me provar nada.

Tiro os sapatos, tiro o mamilo esquerdo da blusa roçando-lhe a ponta com a ponta dos dedos. Até que ele venha contrariado, e satisfeito de levantar, seguindo a carne rosa com os olhos fixos, um cão certo de é só abocanhar, é dele, do cão mais forte. Afasto Rodrigo antes que ele encoste, esticando os dois pés em seu estômago. Ele não ri, avança outra vez, outra vez minhas pernas se desdobram num impulso contra ele, que dá um passo pra trás. Na terceira investida, em vez de chutar, fecho as pernas em torno dele e trago o corpo pra mim. Levanta minha saia sem que eu tenha que fazer nada, afasta a calcinha e sinto a língua como ele inteiro, que vem em seguida, e é total agora, tenho que abrir mais.

O que possibilita os jogos no silêncio e no escuro é o timbre onipresente. Mesmo que não diga nada depois de começar, o grave escapa na respiração. O cheiro do outro também estava errado. Não era ruim mas não me prendia, não deixava mais que o exercício. O exercício além do exercício vive no timbre e no cheiro de Rodrigo.

Preciso fazer a barba. Tá toda arranhada de ontem.
É.

Ando procurando uma alternativa a Rodrigo, uma droga substitutiva que não me deixe tão alta mas evite abstinência total na falta de Rodrigo. Componentes parecidos.

O outro me deu um sexo totalmente falso, incapaz de alcançar as fronteiras do que concentramos nele – parecia uma peça delicada pronta a se escangalhar – tinha menos importância de fato do que a que concentramos na idéia do sexo. Como um deslocamento da vista, quando as órbitas trocam objetos de lugar no campo de visão. O outro me faz enxergar o sexo de maneira difusa - um ato que se deve recusar por ser irreal – não se pode agir em algo que não existe, ou é loucura. Esse deslocamento só acontece em impressões pensadas, refletidas. Nunca quando a engrenagem é posta pra funcionar de fato.

Quando é com Rodrigo, abrir as pernas o máximo que posso é questão de sobrevivência. Se eu não me abrir o máximo por cima dos ombros dele, meu ar vai ser cortado, meu sangue vai virar cinzas, e a vida dele também vai parar em cima de mim se ele parar; preciso prende-lo com toda a força entre as pernas ao mesmo tempo em que abraço seu pescoço com os pés e busco mais fundo onde o fundo está em mim.

A agonia do homem é cavar fora dele, enquanto a mulher cava ao mesmo tempo em que é cavada. Ela ajuda na sua escavação, o homem cava e ela precisa ir junto ao próprio fundo. Ele revela a anatomia interna que ela imagina ter, um pintor que reproduz paisagens sonhadas em segredo, aparelho de ultra-sonografia extremamente anatômico que não mostra a paisagem lunar feminina em uma tela de computador vigiada por médico. Mas provoca reações e mapeia regiões de sentidos, impossíveis de serem captadas por outra máquina.

Ele se inclina mais e minhas pernas descem até suas costas, o arco cada vez mais largo e o grave mais próximo. Ele me vira pela cintura para encarar as molas que rasgam a poltrona velha; ainda buscando, agora mais entregue, ele entra, só entra, como se não pudesse perder um milímetro sequer do contato. Tudo que sei dele pulsa e tem movimentos próprios em mim, o comando vibra no tom certo; no fundo, a única palavra que diz.

- Amo

Ele é um compartimento que guarda química de que eu preciso, como a gaveta de comprimidos do banheiro. Tenta me manter abraçada mas eu levanto. Não posso segurar esse urso toda vez que ele desabar.

- Amo

Tão acostumado a ouvir seus personagens dizendo que também diz com facilidade. Não existe objeto nesse verbo da maneira como ele soa na minha cabeça, não me reconheço na frase como às vezes não me reconheço no espelho. A frase é um espectro dançando no quarto, movido por fios que se estendem a partir das cordas vocais de Rodrigo – o espectro vibra em graves profundos e de repente se esfacela como uma borboleta morta, deixando pó no chão.


Conto feito para ilustração de Clodin Clodan, ou seja, Christiano Menezes.
Dezembro de 2003.





:: dezembro 11, 2003 10:12 AM


Cecília Giannetti é carioca, jornalista e integrante da banda Casino. Fã de Hunter Thompson e do jornalismo gonzo, Cecília colaborou com o NO., com a revista Play (ed. Conrad), além de ter textos publicados em várias iniciativas na Internet.
Blog: www.escrevescreve.blogger.com.br.

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