De quatro elas oferecem os cabelos do queixo `a fiação. A roca puxa-lhes o rosto quase arrancando o osso maxilar. O tapete que cobre as paredes do corredor pode ser cerzido. Minhas tias barbadas têm utilidade na cadeia produtiva.
O longo corredor tem cheiro de sebo e jacarandá. Atrás de uma das mais grossas portas, ela fica trancada no escuro, por dias. Ouvem-se grunhidos de sua dor aguda, uma dor da ausência que o corpo precisa preencher e na ausência preenche pelo grito. Abro a porta, o escuro salta, empurro a tigela com mingau, ela come mostrando-me os ossos cobertos de alguma carne e, de sua voz rouca caem restos de mingau sobre os peitos já caídos. É possível que o sangue nas articulações venha dos ossos a perfurarem a pele.
É dezembro e faz um calor desgraçado. Os pés lembram que o tempo passa mas o tempo parece congelado nas dobras do pijama do meu avô. Ao fim do dia mais um risco no calendário, o natal se aproxima. Se me perguntam o que tenho, digo que os brônquios me insatisfazem com sua preguiça, ralentam o trabalho da caixa torácica, não me dilatam.
Em Minas é assim, as galinhas correm com a aorta `a mostra. A balançar as asas num corrida de vôo impossível, a galinha respinga sangue e libera um cheiro azedo de galinha molhada com medo. Logo ela estará dentro de uma bacia d’água quente sendo depenada pelas mesmas mãos que tocam meu corpo no quartinho dos fundos.
Minha avó se aproxima com o lanche e me alimenta em seu colo, donde sinto sua única teta pendurada ao sutiã. Do sofá de couro me atiro no tanque pra não pisar nas minhocas nem na garagem cheia de bosta de cachorro, não quero o cheiro de pequi nem o quartinho de nicotina. A galinha e o porco pedem pra sair mas ninguém deixa. Me afundo na banheira pra não repetir o número três com sotaque carioca e fazê-los rir. Meia noite e quinze estaremos na cama. E só os cachorros passeiam.
ANTÔNIA PELLEGRINO
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:: dezembro 19, 2003 09:53 AM