Álcool. Preto e branco. Presente pra mim mesmo: um porradão de 25 lá do Azul. E uma muca. O whisky foi nacional mesmo que a grana não deu. Hohoho, cá estamos, a porra do Natal. Quanto ódio ainda cabe dentro de mim? E quanta fome? Um calombo muito saltado logo ao pé de cada orelha: o maxilar trancado. Só não sei se é ódio ou se é o branco. Tem também a mão quebrada. Ridícula de tão inchada, mas não dói – e isso eu sei que é o pó. Digo, não doer. O que a quebrou foi a falta de um você, um interlocutor qualquer. Pra falar, pra ouvir. Pra socar, em vez da parede, a casa toda. Pra existir, me fazer existir, saber disso; me dar pelo menos uma prova de que eu existo. Só uma… Não falo nem de estar vivo – isso já é outra história –, mas de responder à porra da pergunta a que o espelho não responde mais. Até porque eu soquei o filhodaputa, quebrei todo – foi o primeiro. Hé, engraçado que, num primeiro momento, eu achei que tivesse socando eu mesmo; aí teria sido suficiente: eu, de fora, me espancando até ter certeza de que eu tava mesmo ali, de verdade, suando e sangrando minha presença nessa bosta de cidade fedorenta. No entanto, foi só cair o primeiro pedaço, faltar o primeiro estilhaço à minha cara refletida, que a ilusão acabou. Ahhhhh! Cada gole é melhor. Fica mais próximo do importado que eu queria comprar. Esse ano, não fui só eu que me dei um presente: o mundo caprichou também. Passou o ano inteiro montando o troço dentro de mim, peça por peça, até construir: uma certeza: eu não existo. Coube a mim, hoje, apenas terminar de decantar aquilo que eu não posso nem chamar de surpresa – pois que a cada novo bloco, o resultado já se insinuava, se esgueirava pelas (muitas) brechas do meu raciocínio. Eu que não quis ver. Procurava algo aos pedaços, em pernas femininas, bocetas, bunda-e-peito. Às vezes pagos. Tentativa de esvair-me em porra e ainda outros pedaços; de nucas desnudas, tornozelos, num relance, um banco de ônibus, na rua. Aqui e ali, um olhar. Um cheiro. Mas, nada: isso só me dava mais dúvida, os lábios grossos mordidos, fendas na carne rubra, gosto de ferrugem. Mais fome, mais ainda; inclusive me impressiona; como tamanha fome pode não existir? Talvez já tenha me consumido todo. Não sobra mais nada de mim: o espelho mentia. Ou era eu que não enxergava o que ele me mostrava. Merda de nariz. Já começou a escorrer. As drogas acabaram, o dinheiro também. Vamos, eu e a minha meia-garrafa-de-whisky-barato, corredor do prédio, escada, rua. Mais outro gole – pra tentar embaçar a impressão de que isso aqui fora é ainda pior. Mais vazio. Só eu, a cidade vazia e as luzinhas escrotas espalhadas a torto e a direito por tudo quanto é canto. Tudo pisca, acende e apaga em milhares de cores descompassadas, só pra me lembrar de que eu não tô aqui, eu não existo. Queria que houvesse algo pra acontecer, um troço qualquer. Uma bela duma cagada na cabeça, direto de uma das renas do trenó, qual um passarinho. Aquela do nariz vemelho. Hé, nada. Aqui fora é triste pra caralho. Não agüento, não consegui dar um passo. A rua toda pisca mais umas vezes e, merda, o que isso?, tô chorando. Pelo menos não tem ninguém pra ver. Voltar. Preciso. Se continua assim, os dentes vão se esfarelar: cada piscada do mundo me aperta mais o maxilar. E o peito. Esse é o último, e vai ser dos grandes: aaaaaaahhr, acabou. Jogo a garrafa vazia pra algum lugar e ela vai urrar sua dor em cacos contra o asfalto. Maior esporro. Mas ninguém ouve. Já deu; volto. Escada, corredor do prédio, casa. Bato a porta. Agora a luz não acende. hehehehe. Me sento no sofá. Uma coisa de que sempre me lembro, aquele cachorrinho. Eu era criança, na rua; filhote, bobo, veio fazendo festa, pedir carinho, comida, sei lá que diabos. Nunca descobri porque eu chutei o bicho até matar. Não foi maldade, foi pra saber. Mas acaba que eu não sei porra nenhuma. Tanta gente por aí que sabe, que diz. Tanta coisa bonita, forte. Eu… não sei. Também não tá mais dando pra pensar. Dividir os parágrafos, as coisas e as lembranças no escuro sem lâmpada. Nisso, parece – não sei – que a porta abre um pouco. Um palmo, se tanto. Parece que algo entra. O que é aquilo que vem lá? Só quando ele tá perto de mim, reconheço o cachorrinho. Vem com o mesmo sorriso idiota, o mesmo abanar de rabo, feliz. Dessa vez eu não chuto. [Talvez por isso,] Ele começa calmamente a me morder. Primeiro os pés, então tornozelos. Aí entendo, quase-horrorizado, que ele não me morde: me devora. Aquela boquinha, dentes finos, quem diria?, consome sem descanço meu cansaço: sangue, carne, tritura osso, arrebenta tendão e rasga pele. Sem barulho algum, mas com paciência e método. Não há raiva no bicho – a cara de idiota ainda é a mesma –, só afinco de máquina. Começa a doer um pouco agora. Deve ser o efeito da droga passando. E o bicho continua progredindo.
E eu não faço ele parar.
Que coma até onde quiser. //
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:: dezembro 19, 2003 10:05 AM