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Dezembro
por Caco Belmonte

Para o amigo André Czarnobai

Eu sei porque voltei. Foi por causa daquela tristeza sazonal, misto de solidão e nostalgia que sempre me bate em dezembro. Pensei muito antes daquele dia. Acreditei que a distância e o tempo não fariam tanta diferença na hora do reencontro. Julguei que o simples retorno fosse suficiente para reascender tudo aquilo que ficou para trás. Nenhuma mágoa, sentimento de culpa ou arrependimento. Apenas uma volta casual, como se tivesse ido na esquina comprar cigarros.

Nenhum tipo de contato, nem sequer um telefonema, durante todo aquele tempo. Na verdade teve uma única vez, ano passado, mas não cheguei a falar com ninguém. Apenas estacionei o carro numa rua perto do colégio da Bia e fiquei ali parado, escondido, esperando ela passar. Mas ela não veio. Depois liguei pra casa e atendeu uma voz desconhecida. O número havia sido trocado.

A Bia sempre foi muito parecida comigo, e nunca escondi que por causa disso era minha predileta. Das três filhas era de quem eu sentia mais saudade. Os carinhos da Vera também me faziam muita falta. Desejo do nosso sexo, lembranças da nossa amizade e da maneira corajosa como ela encarava o meu trabalho. Se não fosse ela talvez eu nunca tivesse chegado aonde cheguei.

Que merda, não dá pra fazer o tempo retroceder. Às vezes fico me perguntando um monte de coisas. Me questiono como seriam nossas vidas se tivesse dado continuidade a minha carreira de piloto comercial. Me interrogo, procurando respostas, e me sentindo um idiota porque resolvi dar ouvido aos conselhos do Cardoso.

Ganância, cobiça desmesurada. Puta que o pariu, tínhamos uma vida confortável. Carro do ano, viagens por conta da companhia, crianças matriculadas em colégio particular, casa na praia, seguros de vida e saúde. Mas eu achava pouco, nunca estava satisfeito e sempre queria mais, cada vez mais. Depois que resolvi comprar aquela ilhota em Santa Catarina os negócios começaram a desmoronar. Gastei dinheiro inexistente e precisei correr atrás do prejuízo. Confiei no Cardoso, acabei fodido.

Eu não queria ter atirado. Não pude evitar. Nunca imaginei que aqueles caras não fossem árabes. Impossível saber que eram da Federal. Um deles não morreu, ainda bem, e assim não me sinto tão culpado. Jamais tive pudor em fazer meus negócios; puxar o gatilho é que sempre me incomodou. A responsabilidade final é de quem puxa o gatilho. É como no futebol, quando o jogador chuta em gol e a bola toca no zagueiro antes de entrar. A súmula do juiz registra como autor do gol aquele que teve a intenção do chute. Por isso nunca me torturei. Russos, colombianos, brasileiros, gregos e outros facínoras internacionais. Jamais perguntei aonde seriam utilizados os armamentos que transportava.

É comprador ? Então não precisa ter nacionalidade, ideologia ou religião.
O Cardoso assumir os negócios, colocando outro em meu lugar, era uma conseqüência óbvia. O que eu não esperava, e essa foi a grande surpresa do meu retorno, era encontrar o Cardoso morando lá em casa. Naquele dia, quando enxerguei ele pilotando um dos meus carros, junto com a minha família, chegando na minha casa, me arrependi de ter voltado. Aquela foi a pior véspera de Natal de toda a minha vida. Antes tivesse ficado escondido lá no Uruguai, sobrevivendo do abigeato.

Três anos e quatro meses. Ainda lembro bem daquela noite. Saí de casa com a roupa do corpo, sem grana, apenas com o resto da gasolina que tinha no tanque do Omega. Foi o Cardoso quem me ajudou a fugir. Deu dinheiro, conseguiu um lugar pra eu me esconder nos primeiros dias e arrumou os documentos falsos que venho usando até hoje. Também era ele quem me dizia pra não voltar, que a barra estava pesada e talicoisa. Se não fosse o Cardoso talvez eu estivesse cumprindo pena em algum presídio de segurança máxima. E só por causa disso ainda não o matei.

CACO BELMONTE



| comentários (15)

:: dezembro 19, 2003 10:10 AM


CACO Belmonte é gaúcho e mantém o CACOS.

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