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Cinzas
por Péricles Peri

para Daltônico

A praça, um pulmão urbano como na cartilha ambiental segundo as novas diretrizes pedagógicas, árvores, vento, espaço aberto, benesses para a vista e a alma humanas, cansadas de pó e de fumaça. Fuma teu último cigarro, é o dia derradeiro, último do ano. Um cigarro profundamente aspirado, no meio do pulmão urbano deserto. Nas artérias de cimento, piche e coloridos tijolos portugueses que o circundam, a correnteza é vasta e se veste hoje de branco.

Tu não portas branco, sentado no banco da praça. Nem as pombas são brancas como a paz celestial. No cercado que te protege, nenhum símbolo óbvio de celebração universal. Nem brancas nem negras, as pombas como imóveis peças de tabuleiro, em jogada que não te animas a começar. O jogador não és tu. De tua parte, segue apenas o ímpeto de produzir cinza, como as pombas pontos cinzas são. O tom que permite interpenetração, conjugação de opostos em massa mal definível, tom da contradição, do nebuloso e duvidoso existir, como se pode duvidar que existam pombas assim, tão cinzas e tão imóveis, obtusas aves que não correspondem aos ideais que se confere aos animais alados. Não voam, ao seu lado, à frente, no chão, na sombra da grande árvore ou no débil sol que se insinua através do céu nublado, cinza, peões cinzas, sequer a ciscar. E súbito um grande pato incoerente vem despertar-te do torpor. A brasa também será cinza mas enquanto vive é laranja, vive e se consome, queima por si só e te lembra do tempo, da aparência que as malditas pombas pretendiam obnubilar. Embaralhavam o óbvio que aos providenciais olhos daltônicos escapava.

O pato veio restituir a ordem das coisas, as cores e nomes, a gente branca a fluir nas margens, a cor da brasa (de bico de pato) e a dor do dedo queimado. É de bom tom de cinza não acreditar-lhe absoluto. Assim as pombas paradas deixam de negar-se, como não fossem simultâneas a nada, e coexistem novamente com o tempo que se acaba em mais um ano, farelo que se esvai na ampulheta, e onde existe? O tempo, o tempo na cabeça dos passantes (fora da praça, do pulmão e da cabeça), o tempo feito na simultaneidade de milhões, bilhões de cabeças, o tempo contado junto como se fosse um. Em cada semblante a certeza da meia-noite, da zero hora, renovação cravada em calendário e tão fielmente perseguida que se desencadeia de fato, e não pelo poder do relógio ou da ampulheta, mas na procissão de ritos e atos, crença ingênua na condensação de um só momento universal, o tempo que corre e também pára, pois só parando pode engolir a todos e defenestrá-los num outro ano, limpinho, zerado, todos prontos para um começar de novo. Mas começa-se o começado?, zera-se o tempo inumerável?, vive-se a vida num todo imutável?, a contagem tem que ser regressiva, tem que ser progressiva?, para quê a contagem, afinal? Tua cabeça teima em não pulsar neste pulso (não este pulso de sangue aqui do braço, mas o pulsar coletivo que alinha simultaneidades).

Quantas fotografias é possível produzir de modo a comprovar cientificamente a existência da simultaneidade? Com o cérebro? Umas cem, duzentas? A velha charrete conduz avó e neta afundando em sulcos a terra fofa de Marabá, o moleque trepa rápido na estátua central para inscrever em giz sua conquista, maior que o herói medieval ali representado, um raio vara a noite em Taiwan e amedronta o gato perdido na mata, trens prontos a zarpar, aviões no ar, multidões aformigadas nas praças vistas de cima, pestanas que não resistem e se deixam desabar, um fósforo que risca e ilumina algum ponto da gigantesca praça, à procura de um relógio, da hora zero que se aproxima, o tempo íntimo, os glóbulos brancos, a dança cósmica, o grito sufocado do primeiro orgasmo, a libertação e o pavor, por trás daquela persiana que nada revela. Ano novo no funil do tempo em cujo furo passa a Terra inteira, aos teus olhos daltônicos.

Vida incandescente ou as milhares de mortes prosaicas deste instante, o tiro e o incêndio, a água, a queda, o ar que falta, a chaga que obstrui o próximo momento. A cara da morte cinza, da morte que não é luto, mas adubo, húmus, pó de volta ao pó. A celebrada renovação só é vida porque há morte. Só há vida porque há morte.

As cinzas mortuárias jazem no chão como homenagem, e o pó da praça as absorve e redefine, para alegria das formigas. Já não há brasa nem é preciso. Levanta-te e anda. A correnteza te espera.
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| comentários (2)

:: dezembro 19, 2003 10:16 AM


Péricles Peri

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