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Ele existe, eu existo
por Eliana Pougy

Eu vi quando ele saiu do quarto, com sua barba branca e sua roupa vermelha. Quarto de hospital, veja bem. Está certo que eu estava febril, entupida de remédios, mas sorri pra sua piscada, quando parou na porta. Na cama ao lado da minha, meu presente. Ele dormia, visivelmente feliz, roncando um pouco, como sempre. Roncando muito, na verdade. Mas juro que, dessa vez, eu não liguei.

Eu era menina, ainda, quando ele me esqueceu. Até parecia que ele me olhava, mas eu era transparente. Nunca uma palavra de abrigo, nunca um gesto que protegesse minha insegurança. Nunca. Fiquei ilhada no mundo, sem seu apoio. Ele odiava meu ar perdido, meus traços seguros no papel, minha forma de arte. Rasgava tudo com sua indiferença. Cada cor que eu usava era para os olhos dele, cada linha que eu riscava era para amarrá-lo. Mas nada disso adiantava. Eu não existia. Fiz de tudo na vida para que ele me reconhecesse. Mas, não adiantou.

Era dia de Natal, eu, mãe de três. Mãe de quatro, na verdade, porque tenho marido-filho que busca colo. Estava doente e não sabia. Cozinha de casa impregnada com cheiro de final de ano. De repente, febre alta, desmaio, ambulância. Todos ficariam sem mim, num dia de Natal. Primeira e única vez. Só ele poderia me acompanhar. Pela primeira vez, ele teria que cuidar de mim. Ele, que nunca se fantasiou, colocou seu sorriso mais terno e foi comigo ao hospital. E fomos, nós dois. Só nos dois.

Talvez tenha sido a chance de me ver desaparecer de verdade. Talvez tenha sido a chance de acertar os ponteiros ou, talvez, a febre alta e meus delírios o tenham deixado confuso. Mas ele me viu. Ele falou comigo e rimos juntos lembrando da minha infância. Ele agradeceu o fato de eu ser dele. Ele reconheceu que eu poderia ser gente. Que eu poderia chorar das nuvens do céu, que eu poderia rir das borboletas voando, que eu poderia ver coisas que ele não via. Ele me aceitou e, por um segundo, foi comigo pra onde não tem explicação. Transcendemos, ali, entre palavras e imagens.

É, pode ser que eu não tenha sido uma boa menina. Mas eu juro que ganhei meu pai de presente do Papai Noel.
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| comentários (3)

:: dezembro 19, 2003 10:20 AM


Eliana Pougy

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