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Cusparada: 3112
por Jorge Rocha

I hurt myself today
to see if I still feel
I focus on the pain
the only thing that's real

Hurt - Nine Inch Nails [versão de Johnny Cash]

Uma cusparada. Foi o primeiro som que ouvi, tão logo acabei de nascer. Justo na passagem da meia noite. Meu batismo orgânico. Até hoje me pergunto quem foi o autor daquela escarrada que trago na memória como recuerdo ancestral. Nascido na margem esquerda do rio, num local onde nada, nada muda, fui condenado – por quem? , eu também me pergunto – a andar munido de um tamborzinho. Que uso para marcar minha passagem pela planície. Minha passagem pelo tempo e pelo espaço - hah, vão perdoando a verve de piadista, mas esta é inevitável, nestas condições.

Tá-tará-tará-tim-bum. E dá-lhe aleluia e auto-flagelação.
Hoje é dia de festa. Fico mais velho com o resto do mundo. Eu, todo de branco, marco o compasso da passagem cronológica por avenidas esquecidas da margem esquerda. Cantando um lamento negro cujo refrão recita onde estou me faltam asas e a solidão é sanguinária. Os mentirosos se espreguiçam nas poltronas e os dementes lançam pipocos para a lua – mesmo que ela não esteja lá. É nesse ambiente que surge a limusine branca que estanca na minha frente. Tamborzinho finaliza o que estava repicando. De lá de dentro, uma janela vai descendo e uma mulher de longos cabelos negros me encara. Cheirando a champanhe e maçãs frescas.

- Eu sou Saudade. E vim para cumprir expiação.

De imediato, ela sai do carro, empunhando uma pistola semi-automática, como se planasse acima dos desejos de restos mortais. O que primeiro me chama a atenção é que Saudade usa uma camiseta onde se vê estampado o cadáver encarquilhado de Che Guevara. Depois, ela aponta para um bolo de bosta entre nós dois. Acabei de lembrar que, justamente no dia do meu nascimento, arrombaram a minha casa e de lá levaram a privada. Olhos grudados nas fezes. Saudade, sem conseguir disfarçar o tremor nas mãos que seguram a pistola semi-automática, dá o comando: come.

Eu obedeço. Sem desgarrar do tamborzinho.

Estendo minhas mãos no chão e mancho a terra de vermelho vivo. Minhas mãos carregam chagas. De tanto marcar o compasso. A pistola semi-automática cai das mãos de Saudade como escamas nos olhos e é rechaçada no chão. Ela me estende a mão, como penitência, e eu confirmo a redenção.

- Eu sou o Santo.

os sinos badalam e eu convulsiono. apertando a santa mãozinha. desejando que suas unhas rasguem minha carne de segunda.

- Me dá o teu perdão.

- Ajoelha e chora, filha. Porque é chegada a hora de comemorar a passagem.

Fogos de artifício estouram na hora precisa, lembrando o brilho crispado da batalha no céu. Saudade se transubstancia em imagem sacra de mosaico e me beija a boca suja. Com volúpia, vontade e desejo. A língua toda lá dentro, fisgando minhas cáries e obturações. Penso em ampulhetas e a química corporal faz o resto. Eu choro através das marcas de estilete e aparelhos de barbear.

Para ela. Por toda a eternidade. Essas asas de moscas.

Tamborzinho volta a repicar. Mas ninguém ouve.
//

JORGE ROCHA



| comentários (7)

:: dezembro 31, 2003 08:50 PM


Jorge Rocha é jornalista e carioca de Campos dos Goytacazes. Mestrando em Cognição e Linguagem na Universidade Estadual do Norte Fluminense, trabalhou como repórter cultural nos jornais A Cidade e Folha da Manhã.

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