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O óbvio ululante e eu
por Márvio dos Anjos

« Sou um menino que vê o amor pelo buraco
da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci
menino, hei de morrer menino. E o buraco
da fechadura é, realmente, a minha ótica
de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo
pornográfico. »

~ Nelson Rodrigues


O Anjo Pornográfico"O Anjo Pornográfico" é um livro de 1992. De lá pra cá muito já se falou dele, e não há nenhum elogio ainda inédito para o texto de Ruy Castro neste ou nos outros livros que escreveu. O atraso é todo meu, que só fui lê-lo recentemente. Tentei recomendar aos amigos, e todos já o tinham lido. Devo ter passado esses 12 anos numa cripta, enquanto o mundo lia "O Anjo Pornográfico" e só eu não tinha aberto os olhos para esta maravilhosa biografia de Nelson Rodrigues.

Ia de um lado a outro da cidade tentando recomendar "O Anjo Pornográfico" a alguém, para que pelo menos uma alma sentisse o mesmo que senti. A frustração era constante: era como se eu tivesse descoberto a grande banda que foram os Beatles, ou como se eu dissesse que Machado de Assis é um gênio. E daí? Nenhuma novidade nisso.

Lembrei-me então daquilo que fez Nelson Rodrigues criar a expressão "óbvio ululante". Referia-se ao dia em que, segundo Nelson, seu amigo jornalista Otto Lara Rezende descobriu o Pão de Açúcar. Otto já conhecia a Praia de Botafogo de cabo a rabo de tanto que já andara por ali, mas um dia se deu conta daquele marco arquitetônico de Deus. "Só os profetas enxergam o óbvio", completava Nelson, dando a entender que a percepção das obviedades é, muitas vezes, privilégio para raros. Mais ainda: o ser humano buscaria, em toda a sua vida, essa sensação extraordinária: a da descoberta do que já faz total sentido há muito tempo.

O lado bom de viver num país sem memória -- se é que existe lado bom -- é a eterna possibilidade de nos darmos conta repentinamente de algo que, em qualquer lugar do mundo, seria nítido, visível, canônico. Nesse enorme terreno baldio chamado Brasil, grandes homens e obras são despejados à espera de um resgate que muitas vezes não se dá. É assim que podemos nos deparar com obras interessantíssimas que jamais chegarão à escola -- mas que completarão nossas vidas, de certa forma.

Isso me vem à cabeça porque, em boa parte, "O Anjo Pornográfico" é um livro sobre a história do jornalismo brasileiro. O pai de Nelson, Mário, havia sido repórter e dono de jornais de grande repercussão do início do século no Rio, "A Manhã" e "Crítica". Nelson Rodrigues viu muito de sua vida se passar em outros jornais, como "O Globo" e "Jornal do Brasil". Seu irmão, Mário Filho, foi o homem que inventou o cronismo esportivo brasileiro como o conhecemos, sendo inclusive um ás na promoção de competições esportivas. Ora bolas, cruzei a faculdade de jornalismo na UFRJ e não, esse anjo não bateu asas por ali.

Por outro lado, se tivesse sido recomendado por algum professor para que fosse lido com prazo determinado, enfoque específico e obrigação venal (há algo mais venal do que se obrigar a ler uma obra a contragosto para conseguir ser aprovado?), talvez tivesse lido poucas páginas. Ou nem o tivesse aberto; o estigma da chancela acadêmica desagrada qualquer estudante.

E o Pão de Açúcar que descobri no "Anjo" de Ruy Castro foi deslumbrante, talvez descoberto na hora certa. A visão de um homem apaixonado por suas convicções, dono de um olhar ao mesmo tempo crítico e humano e constantemente vitimado por tragédias -- como se tivesse que expurgar pecados por toda uma família -- faz de Nelson um personagem impressionante; um atrativo perigoso para toda a sua obra, já que existe o risco de olhá-la com mais compaixão pela dimensão dramática de sua vida -- o que sua produção com certeza dispensa.

Doze anos depois, "O Anjo Pornográfico" é um livro que ainda ensina muito sobre os óbvios ululantes da vida. Sem dúvida, requisito indispensável para que uma biografia seja digna de Nelson Rodrigues. Ou, mais ainda, para que qualquer obra no mundo possa ser chamada de imprescindível. //


O ANJO PORNOGRÁFICO (1992). De Ruy Castro. Editora Companhia das Letras, 420 págs, R$ 60 (em média).


MÁRVIO DOS ANJOS



| comentários (5)

:: janeiro 27, 2004 02:44 PM


MÁRVIO do Anjos jornalista e poeta. Carioca trabalhando em São Paulo, mantém o blog A Nobre Farsa

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