Estava apertando parafuso na parede. Medindo a estante. A mulher trabalhando, a máscara de zorro do garoto pendurada no abajur. Um sol fraco. Eu apertando parafuso, a chave de fenda cai. O telephone, rizin, rizin.
- Tenho uma notícia horrível. Aqui é a polícia. Fica!
- Polícia?
- O sr. tem que ser forte.
Não consegui mais falar. Sentei no sofá com o gancho. O telefone espatifado. Abri a boca e dois blocos de ar caíam azedos rodopiando. Não gritei, não chorei, não gritei. Eu estava paralisado. Duas horas se passaram e então me levantei do chão onde arrastava a cara. Não podia ser, um furo surgiu no meio da minha testa. Um furo?
Como? Não existe deus. Mas não precisavam me provar assim. O que que eu faço?
Eu só pensava em uma coisa. Como eu ia falar para a minha mulher? Como iríamos na casa do vizinho?
O carro estaciona. Minha mulher sai gritando. Eu a agarro. Seguramos um no outro como quem está se afogando em areia de sangue. Seguramos um no outro e batemos cabeça. Eu vou tomar banho, ela abre a porta e sai. Na casa do vizinho, o anjo da morte. Nosso filho estava no mesmo ônibus, e não só ele como as outras crianças que iam para o zoológico naquela manhã sofreram o impacto de toneladas quando o motorista se distraíu e se chocou contra um muro de pedra. Todos morreram.
Saí do banho e me arrumei. Eu, homem, tinha que cuidar das partes práticas. Enterro, velório, reconhecimento do corpo ou do que restou dele. Telefonar para os meus pais e esperar que algum deles também morra de tristeza ou ataque. Ver o deus da minha mãe ser culpado pelo acontecido, ver a fé inabalável dela procurar o mesmo deus e dizer para mim que não entendemos os seus planos. E eu dizendo enraivado: ” Seus planos nã-nã-nã-o-nã, não, o se-e eu-u neto está mo-o-orto!”
Foi assim que tudo aconteceu. Entrei em casa, peguei os brinquedos, os livros, as fotografias. Contra a vontade da minha mulher, atirei tudo fora, algumas coisas eu dei. Queria esquecer ele e, mesmo não podendo, eu tinha o direito de fazer tudo. Decidimos vender a casa. O quanto antes saíssemos dali seria melhor. Eu não aguentava mais olhar para a cara da minha mulher. Me dava repulsa. Ela não conseguia mais me ouvir andando pela casa, ela me disse que sentia nojo.
Depois de duas semanas, nos divorciamos. Ela resolveu morar com o amante de muitos anos. Afinal, cada cadáver desenterra um outro.
Eu decidi sabotar o meu resto de vida e tentar prazer. Comecei a me drogar com agulha e líquido, conhecer prostíbulos, me tatuei com caveiras e espadas, mulheres muito melhores, homens, uma vez uma criança, na outra, mais um pico na veia. Fiz até sexo com o oral.
- Livre, enfim livre por toda a merda do sempre!!
Mas, quando aquelas mãozinhas começaram a empurrar a minha cara, e a me entregar os óculos, dizendo: “Paizinho, estou com sede”
- AHIRRA! – dei um pulo no escuro, me sento na beirada da cama, zonzão.
Putz, foi um pesadelo, nó de garganta.
Olho para o menino, tão pequeno, tão indefeso, e o agarro sem dizer nada, mas digo: “Tive um sonho horrível, filho.” E rapidamente deixo que nossas peles se encostem.
Me levanto, o seguro no colo. Ainda bebendo água vejo a minha mulher dormindo, de boca aberta. Blargh, moscas devem viver dentro daquele lugar. Não vai ser o destino que me libertará dessa vida covarde, pensei.
Liguei os bichos na TV. O menino distraído, e eu… Aliviado, sonhando com o fim dele dez anos mais tarde, decidi que não será ele o escolhido.
Entro no quarto e com uma pequena faca. Acabo com aquela diaba asatanizada, desconjuroencredun, do Satã.
A polícia chega: riem sempre da desgraça.
Enquanto eu e o menino brincamos de vagar por dentro do corpo. //
JORGE CARDOSO
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:: fevereiro 1, 2004 06:20 PM