11.
A raiva foi subindo pescoço acima até turvar sua visão. Ficou tudo vermelho. Chutou um balde e ele se fez em dezenas de cacos de plástico. Pegou o relógio enguiçado e esmigalhou-o sob o pé. Gritou. Finalmente, tonto, caiu sentado no chão, ofegante. A pausa fê-lo recuperar a razão. Tomou um banho frio, bem demorado, vestiu-se, pegou a guitarra e foi para o bar. Confraternizou com os companheiros, bebeu várias taças de brandy e, quando o show começou, transmitiu toda a sua raiva para a guitarra. Qual não foi sua supresa quando ela soltou-se de sua mão, arrancou-se da alça e começou a espancar sua cara impiedosamente, agitando-se no ar como um inseto gigante e descontrolado. No fim, ela levitou por alguns segundos e explodiu, vaporizando-se em pleno ar.
O público aplaudiu durante meia hora. De pé.
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12.
Ele falava entusiasmadamente com ela quando a flagrou com aquele olhar maroto que antecede uma travessura. Ela o interrompeu uma fração de segundo depois dando-lhe um beijo de leve na boca e abraçando-o com genuína ternura. Ele não soube como reagir; teve ânsias de deitá-la no chão do bar lotado e possuí-la ali mesmo. Mas conteve-se. Sabia que ela confiava nele, e aqueles selinhos não eram incomuns entre eles.
Ela o olhou falando rápido como uma metralhadora, como de hábito, e sua alma tremeu. Pensou "que diabos, por que ele não me beija?". Logo começou a sorrir com os olhos e decidiu tomar a iniciativa. Queria calá-lo com um amasso poderoso, mas conteve-se. Saiu um beijo de amiga e um abraço de irmã. Ficou puta consigo mesma ao perceber que o deixara sem ação.
Foi o mais perto que chegaram de um romance.
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13
Ele abriu o freezer. Já fazia seis meses que pusera lá o coração. Achava que estava pronto para outra, agora que a esquecera. Tirou o pote e o depositou na pia. Enfiou o coração de volta na caixa torácica. Só então percebeu que ele não sabia mais bater.
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14
Acabara de acender um cigarro e dava uma preguiçosa tragada, quando ela começou a chorar e tomou sua mão, apertando-a docemente. Sentiu que a angústia que transbordava de seus olhos, lindos e desamparados, escapava por entre os dedos dela e penetrava em seus vasos capilares, o que causou nele uma tremedeira seguida de um tufão de sentimentos a princípio desconexos.
Antes que ela o dissesse, ele entendeu imediatamente a extrema solidão e a nostalgia invencível da inocência que queimavam no cérebro de sua companheira de mesa. Tudo aquilo que estava impresso nos olhos dela e que até ali não soubera aquilatar. Então os tremores aumentaram, pois era exatamente assim que ele se sentia há muito tempo. Seu peito -- protegido há anos por extensa carapaça de aço -- de súbito amoleceu, e ele a amou, ou descobriu que a amava, longa e sofregamente, desde o primeiro instante em que lera seu nome, em letras miúdas, após um parágrafo carregado de dor, mostrado por um amigo comum.
Mas como dizer-lhe? Ele estava velho e desiludido; mais um ponto no seu rejeitômetro e morreria ali mesmo. Ela continuava a chorar -- tão sozinha, em todos os sentidos -- e ele tremia com a força da emoção teleportada, mas também com medo de se levantar, abraçá-la e beijar sua boca, inundando-a com a única coisa que poderia lhe dar: um novo desejo. Um rastilho finíssimo de esperança.
Só parou de tremer quando percebeu algo quente descendo por sua face esquerda. Era um lágrima. Sentiu-se beatificado com o pranto copioso que afinal expulsava de seus próprios olhos, após o que lhe parecia o triássico, o jurássico e o cretáceo juntos, e deu um longo suspiro de alívio. Perdeu a noção do tempo e quando olhou para a cadeira à sua frente, em meio à neblina, ela não estava mais lá.
Estava a seu lado.
Delicadamente, ela pôs os braços em volta de seu pescoço.
E beijou-o na boca.
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15
Ao ver, muitos anos mais tarde, a espada na mão do carrasco, enquanto subia os degraus do cadafalso, ela lembrou-se de sua última fuga em terras escocesas, quando o mar lhe dera a opção de seguir para a Inglaterra ou a França. A primeira representava o desconhecido, a aventura, o perigo; a segunda, a segurança da família e de seus seguidores. Embarcou ainda incerta, mas atraída pela incógnita inglesa; no meio da travessia fraquejou e pediu que o barqueiro a levasse para a costa francesa. Foi então que soprou um vento suave que empurrou, com mãos frias mas gentis, o barco para a Inglaterra.
Resignou-se e saltou, com toda a sua altura e beleza, numa humilde vila de pescadores. Aliviada por ter deixado a Escócia e suas intrigas, não percebeu quando o jovem barqueiro, vestindo uma túnica, se despediu. Um dos lordes que a acompanhavam, porém, agradeceu ao rapaz e deu-lhe algumas moedas de ouro, dizendo:
-- Mestre Caronte, ser-lhe-emos eternamente gratos.
O barqueiro apenas sorriu e fez-se ao mar, logo sumindo na manhã nevoenta.
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16
"Você não deve se envolver com uma mulher misteriosa de olhos negros", disse a cartomante. E ele, sempre supersticioso, assentiu. Ao deixar a tenda, tropeçou nela. Miúda, sorriso franco e olhos verdes. Gostaram-se de cara. Saíram dali para o primeiro drinque. Acabaram fazendo amor no elevador, a caminho do apartamento dela.
Ele sentia o peito explodir de felicidade e prazer. Sentou-se no sofá, pensando em como aquilo era refrescante, diferente de tudo que já vivenciara. Então ela voltou lá de dentro.
E seus olhos eram agora negros como azeviche.
Ele soltou um grito e fugiu espavorido, deixando mudo na boca da companheira o comentário sobre as lentes de contato.
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17
Ficou olhando para o revólver em cima da cama. O palácio estava silencioso.
Entendeu que, cedo ou tarde, os militares tomariam o poder. Só podia adiar o inevitável. Que fosse tarde, ora diabos.
Mas estava com medo. Merda, pensou, por que fui nascer numa época em que só existem presidentes? Se fosse imperador, teria um escravo que não hesitaria em ajudá-lo a se matar. Aí lembrou-se de Nero. "Covardão, precisou que alguém lhe empurrasse o punhal garganta adentro..."
Não, sua decisão seria solitária.
Deu a última tragada no charuto. Ia sentir falta disso. Pegou a arma, apontou-a para o peito, como o amigo lhe ensinara.
Então teve uma visão. Afrodite surgiu diante de si, em todo o seu esplendor. Instou com ele que poupasse a própria vida, mostrou-lhe imagens de um futuro brilhante à frente, após aquela crise de pouca monta se comparada com as que viriam no fim do século.
Ele titubeou. Pensou alguns instantes. Foi o suficiente para se lembrar do pouco de mitologia que aprendera. Afrodite, aquela beldade à sua frente, havia sido amante de Ares. O deus da guerra. Um milico safado!
Olhou para a deusa e viu que seus lábios, perfeitos, tremiam. Os olhos se moviam rapidamente. Ela suspirou e ele viu uma nova deidade se formando perto da escrivaninha. Usava um elmo e portava uma lança.
Atirou no próprio peito, não sem antes sorrir. Morreu gargalhando ante a inépcia olímpica.
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18
Jurou que era a última vez que ouvia aquele disco. A capa já estava até meio comida pelas traças, o vinil com alguns tec-tecs que ele conhecia de cor no meio das músicas. Deitou a agulha sobre a bolacha e jogou-se no sofá. O show começou, pegou embalo e logo ele batucava e cantarolava junto com a banda. Abriu a garrafa de conhaque e bebeu pelo gargalo. Chovia.
Quando pôs para tocar o último lado do segundo Lp, quase chorou. Não ia mais ouvir as piadas do cantor entre as músicas, nem aquele solo improvisado do guitarrista com uma canção de ninar no meio. Mas era preciso. O disco ia acabar furando.
Chegou o momento. "If you wanna a little bit of rocknroll, shout it out loud", gritou o vocalista. Era a senha para o encore final. A música rolou uma vez mais. Fim. O volume dos aplausos foi diminuindo. E... de repente aumentou de novo! Houve um segundo bis. E um terceiro. Nada disso estava no disco. Até agora.
Ele se sentou no sofá, olhou para a vitrola. Que porra era aquela? A agulha flutuava acima do vinil. A banda parecia estar ali, a turba ensandecida vociferando à sua volta. Deve ser o conhaque, pensou. De repente, do nada eles estavam ali. Um show na sala do conjugado. Caralho.
Ele se juntou à banda até o décimo-quinto bis, quando por fim diluiu-se no ar e foi sugado pelo disco negro e reluzente. E viveu ali, na ponta da agulha, o resto de seus dias, no meio daquela multidão, assistindo àquele show até o dia em que seu filho, transido de saudade, quebrou a bolacha sem jamais saber que estava mandando seu pai para o limbo.
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19
Na entrada da roda-gigante, a moça perguntou: cabine balouçante ou não? Ele escolheu a primeira opção, parecia mais emocionante. Quando a trajetória da roda chegava perto do ápice, a cabine deslizava por barras de ferro estrategicamente dispostas dentro da estrutura, balançando às vezes suavemente, às vezes com violência.
Olhando a paisagem iluminada de cima, exposto ao vento primaveril e ao sol moribundo, recordou sua infância, em que costumava balançar-se sozinho na cama, cantarolando para pegar no sono. Eram momentos em que perdia contato com o mundo externo e se encontrava de bom grado com sua alma, embora não pudesse enxergá-la nem entender seu sorriso complacente.
Aconteceu a mesma coisa ali: não mais que de repente as luzes do parque sumiram e foram substituídas pelo reflexo da lua minguante no lago artificial, acompanhada de uma bela entourage de estrelas que piscavam para ele, desinibidas. Deixou-se levar e a paisagem mudou de novo. Sua alma, bem mais velha do que ele, surgiu num galeão voador e estendeu-lhe a mão. Como recusar o pedido da capitã que o comandara nas piores borrascas da existência?
Tomou-lhe a mão.
-- Não havia um homem nesta cabine? -- perguntou a moça à colega quando a roda parou.
Àquela altura ele já estava no aclive inicial de uma nova montanha-russa, num parque diferente, num mundo diferente. E sua alma era jovem de novo.
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20
Era outono, a melhor estação para se estar no Rio de Janeiro. Ele acordou com um raio de sol batendo em seu camisolão ensebado. Num dia como aquele, cavalgaria por quilômetros e quilômetros sem se cansar, aspirando o ar livre de umidade e recebendo na farda os generosos raios de um sol temperado, jamais furioso como entre janeiro e março.
"Bom, hoje não vai ser possível cavalgar", pensou. "Mas darei uma caminhada pelo centro da cidade."
Antecipava o prazer da jornada a pé quando entrou o barbeiro. Em sua mente, imaginou-se prestes a ir a um sarau, vestindo gala. Para isso, era preciso livrar-se daquele penteado demodê. Riu consigo mesmo enquanto o outro pegava a bacia e a navalha. O barbeiro não quis conversar naquela manhã. Estava com uma cara triste. Ele respeitou seu silêncio. Mesmo assim, o ágil profissional pareceu ler sua mente e raspou-lhe barba e cabeleira sem pestanejar.
Sentiu-se renovado. Banhou-se e vestiu-se de branco. Sorriu. ao sair para o sol. Os homens o aguardavam. Postou-se diante deles e deu o primeiro passo.
Percebeu que ficara famoso. As ruas estavam cheias. Todos queriam vê-lo. Mas ninguém acenava. Ninguém apreciava as carícias solares como ele. Bem, fazer o quê? Seguiu adiante, admirando a beleza carioca.
Eles não sabiam, mas ele logo seria um homem livre, como sempre sonhara, desde os tempos de menino.
Muitos anos depois, nas tavernas da capital, onde se celebrava a proclamação da independência, os mais velhos lembraram o enigmático sorriso do alferes Joaquim José naquela manhã de abril de 1792.
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ANDRÉ MACHADO
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:: fevereiro 1, 2004 11:20 PM