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Amor
por Nelson de Oliveira

— Pode ter sido alguma coisa que eu comi. Vontade de vomitar. A cabeça estalando de dor.

O segredo do casamento duradouro é arrumar logo um cachorro. E não levar tão a sério as queixas da patroa. Mulher reclama demais.

— Ai, não tô legal. Você vai ter que me levar ao pronto-socorro.
De um lado, a esposa. Do outro, o melhor amigo do homem. Não há nada como o afeto, a consideração, o respeito mútuo.
Mas um belo dia a velhice chega.

— Amor, tá doendo muito…

De repente — aonde foram todos os momentos felizes?!? —, seu cão já não é mais o mesmo. Tosse muito, principalmente à noite. Não tem energia nem apetite, não quer brincar, e respira — quando respira — com dificuldade.
Pobre Sivuca; as orelhas e os olhos caídos, o pêlo sem brilho algum.

Um dia a primavera deixa de vir e seu cãozinho, pau-pra-toda-obra, já não corre mais a seu lado. Nããão, isso neeeãããããão!

De que adianta gemer? Está no artigo sobre insuficiência cardíaca, na revista que você afanou do barbeiro. Quinze anos, eternos folguedos.

Sivuca já não dá mais a pata, nem faz festa quando você e sua mulher chegam da rua. O coração, cansado, não consegue bombear sangue adequadamente. O sistema canino, tentando compensar essa ineficácia, faz o órgão doente trabalhar dobrado.

— Amor… mui… to.

Ó velho amigo! Levá-lo aos locais cheios da mais pura luz, onde vocês passaram as melhores horas de suas vidas, não adianta nada. Sivuca não reage.

Vítima de catarata, o olfato debilitado — pobre amigo! pobre, pobre, pobre amigo! o melhor poodle que jamais pisou a face da Terra —, já não consegue mais achar o jornal que você estende na área de serviço. Evacua na casa toda.

— Aaamo…

Um belo dia você acorda sozinho, como uma ilha, cheio de silêncio por todos os lados. Abre a geladeira e nada acontece, afinal Sivuca já não está mais entre nós. Telefona para os amigos, mas ninguém se importa. Quem se importa? Quem?!?


NELSON DE OLIVEIRA



| comentários (12)

:: fevereiro 1, 2004 11:33 PM


NELSON de Oliveira nasceu em 1966, em Guaíra, SP. Escritor e mestre em Letras pela USP, publicou Naquela época tínhamos um gato (contos, 1998), Subsolo infinito (romance, 2000), O filho do Crucificado (contos, 2001, também lançado no México), A maldição do macho (romance, 2002, publicado também em Portugal) e Verdades provisórias (ensaios, 2003), entre outros. Em 2001 organizou a antologia Geração 90: manuscritos de computador e em 2003, Geração 90: os transgressores, com os melhores prosadores brasileiros surgidos no final do século XX. Ainda em 2003 editou com Marcelino Freire o número único da revista PS:SP. Dos prêmios que recebeu destacam-se o Casa de las Américas (1995), o da Fundação Cultural da Bahia (1996) e duas vezes o da APCA (2001 e 2003).

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