Entre outras coisas novas pra te contar tem a natação. Tem minha vizinha e eu brinco de arrastar ela. Tem a bicicleta e os quatro cachorros quentes que comi hoje. Tem o sol quente e o barulho do vento nas folhas das árvores. Ane disse que cartas não possuem valor estético. Ela continua uma chata. Aposto que você vai achar deleite estético com tudo que tenho que te contar e não vai achar que faço propaganda de salsicha só porque escrevi dos cachorros quentes que comi. Foi Ane que disse e ela continua uma chata, mas você sabe que não sou dona de nenhuma fábrica de salsichas. Tem dois adolescentes desaparecidos. Mamãe escondeu o jornal porque estava muito sangrento.
Ela me levou no cinema. Era grátis, uma mostra. Ela brigou na porta e gritava que quem decidia se a filha dela ia assistir um Bergman ou não era ela e só ela. Depois foi me arrastando pela mão pela rua e dizendo que você ia achar um absurdo e que se você estivesse junto a gente teria entrado. Ane reclamou da citação, o nome do diretor do filme, já eu acho fundamental para caracterizar mamãe que só fala dessa gente do cinema. Ela está dizendo que a carta é para seu pai sua idiota então pra que caracterizar sua mãe. Não sei.
Talvez porque eles se separaram e papai queira relembrar algumas coisas divertidas dela. Ane tem um namorado e eles vão a muitas festas. Quando ele dorme aqui eu vou pra sala. É uma casa pequena. Mamãe ainda chora de saudades. Ela não namora. Pelas costas chama todo mundo de ignorante. Diz que você odiaria os amigos artistas de Ane que são todos caretas. Eu tenho um amigo. Nós desenhamos, ele melhor que eu. Martin mordeu a mão dele no primeiro dia, mas agora são super amigos. Ele acredita em seres de outros planetas e reza muito. Me sinto estranha do lado dele porque em casa você e Ane são ateus, mamãe acredita em Deus, mas ninguém freqüenta a igreja. Por causa dele conheci o padre que agora vive atrás de mim e de mamãe perguntando de batismo e tal. Penso que você acharia essa rua pequena. Meu amigo se chama Antonio. Fui bem recebida na escola, mas gostei de Antonio porque era o único que no recreio não jogava futebol. Ele imita um touro pra mim. Reclama que eu não imito nada e ficava me provocando por causa disso, mas eu o convenci que aturar meu cachorro Martin era o suficiente para uma menina do meu tamanho. A rua é pequena, mas a cidade é grande. Tão longe de você que está em outro país. Ane faz ioga e comprou roupa parecida com a das amigas. Ela continua gritando com todos ao seu redor quando se irrita. Penso no seu olhar marrom e quando caminho pra escola imagino que você está em algum carro parado olhando pra mim.
Antonio desenha monstros e acredita que eles existem, mas nós os desenhamos, colorimos e Antonio acredita que assim estaremos com menos medo se um dia eles aparecerem em nosso caminho. Desenhei uma vitória- régia. Primeiro era um rio, mas Antonio me pediu em casamento e fiz a flor pra não afundar. Ele acredita em tantas coisas. Mamãe ainda chora. O namorado de Ane é cineasta e eles pretendem viajar bastante. Ele fez um curta que eu e mamãe achamos péssimo. Se eu casar com Antonio você vem assistir, não vem? Calma, ainda tem tempo pra eu crescer e Antonio, veja só, quer ser cientista. Teve um dia que Martin fugiu. Foi logo no começo. Mamãe ainda estava muito triste e Ane nervosa então sai na rua sozinha atrás dele. Gritava e gritava e nada.
Sentei na calçada e você sabe como eu choro, silêncio, só as lágrimas descendo no rosto. Na minha cabeça quando eu fechava os olhos escutava você dizendo meu nome, tão calmo e suave e sussurrei o nome de Martin mais uma vez. Ele veio e foi aí que eu soube que seria uma dubladora. //
DANI SIGAUD
» LEIA tembém os outros textos do especial "A arte de desengavetar escritos - II"
| comentários (6)
:: fevereiro 15, 2004 05:51 PM