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Contos de um jovem poeta
por Max Mallmann


Histórias do Bom Deus, de Rainer Maria Rilke


Jovens autores. Narrativas breves. A contemporaneidade em conflituoso diálogo com a transcendência. Estas parecem ser as bases da simpática e bem cuidada Coleção Rocinante, lançada ano passado pela Editora 7Letras. Histórias do bom Deus, que chega ao leitor numa bela tradução de Pedro Süssekind, enquadra-se perfeitamente nos parâmetros da Coleção, embora o jovem Rainer Maria Rilke, que tinha escassos 24 anos quando escreveu os contos que integram o livro, seja pelo menos um século mais velho do que Clarah Averbuck ou Mara Coradello.

Rilke nasceu no dia 4 de dezembro de 1875, em Praga. Foi um menino solitário e pensativo, à beira da melancolia. Desde sempre ávido leitor, cedo também arriscou-se a escrever. Tinha 19 anos ao publicar Vida e canções (Leben und Lieder, 1894), seu primeiro livro de poemas. Aos 22, ele conheceu Lou Andreas-Salomé (1861—1937), também escritora e, seguramente, uma das mulheres mais fascinantes de sua época. Em 1899, Rilke viajou com ela para a Rússia. No meio da vastidão e da beleza da terra dos czares, o jovem poeta sentiu-se profundamente comovido pela singeleza quase mística do povo russo. O torvelinho emocional que Rilke experimentou nessa viagem resultou nos contos de Histórias do bom Deus (Gescichten vom lieben Gott, 1900), talvez uma das representações literárias mais agradáveis já feitas do sisudo Deus cristão. O Deus do jovem Rilke não é um patriarca vingativo; antes, parece mais um avô bonzinho que volta e meia se confunde na hora de controlar sua infindável Criação.

A prosa matizada de nuances poéticas de Rilke torna os relatos do livro mais próximos das fábulas do que de contos propriamente ditos. E cada uma dessas treze fábulas é narrada a um interlocutor, que pode ser uma vizinha preocupada, um amigo paraplégico ou um visitante de outras terras. Cada um desses personagens, por sua vez, deverá recontar o que ouviu para as crianças. Nesse jogo estabelecido por Rilke, também nós, leitores, sentimo-nos impelidos a, numa segunda leitura, apreciar com olhos de criança as histórias de Histórias do bom Deus.

Outra forte influência na vida de Rilke, além de Lou Andreas-Salomé, foi o escultor Auguste Rodin (1840-1917). Rilke o conheceu em Paris e trabalhou como seu secretário entre 1905 e 1906. Rodin intensificou em Rilke a tendência a assumir a criação artística como uma missão religiosa. É imbuído dessa visão sacerdotal do ato de escrever que, de 1903 a 1908, um Rilke ainda moço escreve ao ainda mais moço Franz Xaver Kappus as Cartas a um jovem poeta (Briefe an einen jungen Dichter).

Há um trecho logo na primeira das Cartas que já provocou insônia em gerações de candidatos a escritor — confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?" Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. (...) Basta como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo. Por essa época, Rilke começa a trabalhar também em seu texto em prosa mais importante, o romance de viés autobiográfico Os cadernos de Malte Laurids Brigge (Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge, publicado em 1910).

Durante os anos da I Guerra Mundial, Rilke viveu em Munique, de onde se mudou após o armistício para Sierre, na Suíça. Lá ele compôs os dois títulos fundamentais de sua obra poética: Elegias de Duíno (Duineser Elegien) e Sonetos a Orfeu (Sonette an Orpheus), ambos publicados em 1923, três anos antes da morte do poeta, que abandonou este mundo com apenas 51 anos. A força de seus versos e a riqueza de suas metáforas transformou Rilke em um dos maiores nomes da literatura do século XX.

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Max Mallmann, porto-alegrense nascido em 1968, estreou na literatura em 1989, com o romance Confissão do minotauro, vencedor de concurso do Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul. Em 1996 publicou, pela Editora Mercado Aberto, Mundo bizarro, que recebeu no ano seguinte o Prêmio Açorianos de melhor narrativa longa. Seu terceiro romance, Síndrome de quimera, lançado em 2000 pela Editora Rocco, esteve entre os dez finalistas do Prêmio Jabuti em 2001 e foi publicado em 2003 na França, pela Éditions Joëlle Losfeld, selo editorial pertencente à Éditions Gallimard. Seu romance mais recente, Zigurate — uma fábula babélica, foi publicado em 2003, também pela Rocco. Uma amostra desse novo trabalho pode ser vista no site http://www.zigurate.com. Casado com a escritora Adriana Lunardi, autora de Vésperas (Ed. Rocco, 2002), Max Mallmann vive desde 1999 no Rio de Janeiro e trabalha como roteirista da TV Globo.



| comentários (3)

:: março 7, 2004 02:02 AM



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