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A mão
por Ariela Boaventura

Pelo rabo do olho esquerdo vi algo se esgueirar por trás do meu ombro, entre a janela do ônibus e o encosto do banco onde eu estava sentado. Era branco e cheio de pernas, gordas como tocos de velas, que esperneavam desajeitadas ao tentar não escorregar do encosto do banco. Eu observava o mais discretamente possível, qualquer movimento o afugentaria. Não tive medo, apesar de saber que poderia de repente agarrar um dos meus ombros, pegar-se ali feito piche, ranho ou qualquer coisa grudenta. Para disfarçar, desviei o olhar para a paisagem que passava apressada pela janela. Então, por um brevíssimo momento de distração, aquilo tocou meu ombro. Senti que era quente e vivaz. Foi muito suavemente, quase imperceptível, um raspão. Mas foi o bastante para fazer meu corpo estremecer de maneira que a coisa branca e pernuda saiu correndo assustada.

Ariela Boaventura



| comentários (1)

:: março 7, 2004 02:08 AM


ARIELA Boaventura

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