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Uma mulher sem medo
por Ariela Boaventura


As Mãos, de Manoel Ricardo de Lima


O amor, sentimento roto pela cultura de massa, pode-se dizer sem medo de errar, é raro. Amar e ser amado, então, é mais que acertar na loteria, porque dinheiro se gasta, amor não. Amor se ganha, se perde, aumenta, mata. Amor é raro, mas.

O amor é o tema central da novela As mãos (Editora 7 Letras, Coleção Rocinante, 2003). Ao deparar-se com as 47 páginas da novela de Manoel Ricardo de Lima, pode-se ser levado a pensar que será leitura de uma sentada, rapidinha. Engano. Devido à escrita em forma de prosa poética, prende a atenção, obriga o olhar a deter-se em cada palavra, cada vírgula. Enredo compactado, impõe seu próprio ritmo, como um ato de amor. A dor do narrador, sem nome, está presente em cada página; sua tristeza, porém, é equilibrada pelas lembranças que tem dEla, sua amada. Ela, sem nome também, é rememorada por seus silêncios, músicas, frases, seu corpo: suas mãos. Uma mulher sem medo, encantadora, suprema. Aberta para o mundo, Lá fora. Ele ainda a ouve, a cantar, a rir, em suas lembranças. As paredes do apartamento, tijolos amarelos, aparentes, testemunhas mudas, mas nem tanto: contam-lhe do que ali houve. Repletas de lembranças, dos risos dEla. Ela ocupava a sala, a casa toda, o corpo dele, todo: preenchimento. Grávido, então.

Sem ela, não dorme mais, nem acorda: morto. Solidão, saudade, dor, num poema, narrativa mínima: pínima. A leitura é enriquecida com deliciosas palavras-valise. “Aí, para mim, o primeiro balé: o do mover-se sem”. Lembra um trecho de Ulisses, de James Joyce, em que Stephan Dedalus propõe uma ópera vegetal e mineral: palhaço (palha + aço).

O que será dele, sem Ela? “Morto, saberia colocar silêncio nesta dor, na inscrição do túmulo entre vários e flores, como ela sempre quis, amarelas”, sugere, em resposta, ou quase. O que aconteceu com Ela? Foi-se, por que ou onde não se sabe. Desnecessário. Amor perdido, para sempre está, nada o fará voltar. Talvez ele, narrador, volte a ser apenas humano, e consiga, um dia, a voltar a viver com os outros, Lá fora. Embora, dali, dela, das paredes grávidas de passado, ou, talvez, encontre outra, amor novo, um dia, outra vez. “Perto não se fica a quem não se conhece as mãos”, mas.

Cometi um erro: As mãos não é uma narrativa, pois Manoel Ricardo de Lima não escreve, simplesmente. Talvez chore, talvez ore, entone um mantra para exorcizar sua amada de dentro de si, construa, melhor assim, uma homenagem a todas as histórias de amor, porque todas são semelhantes, só diferença de nomes, e, inexorável, um dia acabam, porque um morre ou vai embora.

Ariela Boaventura



| comentários (1)

:: março 7, 2004 02:40 AM


ARIELA Boaventura

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