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Domingo
por André Giusti

Domingo é o primeiro romance do escritor carioca Francisco Slade. Com ele a 7Letras abre o ano da coleção Rocinante, o grande xodó da editora do Jardim Botânico. A Rocinante, no geral, busca revelar autores contemporâneos. No caso do autor de Domingo, a palavra contemporâneo pode ser aplicada com todas as letras e em negrito. Francisco Slade tem 26 anos. Será que pode haver algo mais contemporâneo do que ter 26 anos nessa quase metade da primeira década do século? Isso não significa que o autor entupa sua literatura de personagens que vivem passando e-mails, batendo papos em chats ou visitando blogs (se bem que o próprio Slade mantenha um). Para falar a verdade, não lembro do personagem principal de Domingo ter falado uma única vez ao celular. Isso é um diferencial porque trata-se de um escritor filho de uma geração que talvez não lembre de ter ido a um cinema que não ficasse num shopping.

Domingo tem a violência urbana como pano de fundo, o que – já que estávamos falando disso – por si só já faz com que a história também seja contemporânea. Mesmo que em momento algum o romance esteja situado, quem é conterrâneo de Slade ou conhece a cidade, identifica o Rio de Janeiro nos bairros de Santa Teresa e Glória, cenários belos e decadentes, perfeitos para duas ou três cenas de brutalidade crua protagonizadas pelo personagem principal de Domingo, mais um matador que aporta na literatura de nossos tempos trazendo sua frieza e suas complexidades, carregando também seus visíveis elementos de Rubem Fonseca, desde a década de 80 uma assombração quase que de praxe quando o assunto é escritor iniciante cujo romance ou conto se passa em uma grande cidade.

Domingo apresenta um vocabulário apuradíssimo. Francisco Slade parece ser um daqueles autores que não jogam na tela a primeira palavra que vem à cabeça. Não, talvez fique pensando, abra o dicionário e fique ali escarafunchando para saber se o significado daquela palavra casa direitinho com o sentido que quer dar ao texto. Aí sim, digita a escolhida no meio de frases bem construídas. Para alguns pode parecer pernóstico, mas se a falta de uso de certas palavras não comprometer a leitura (e no caso não compromete) é uma forma criteriosa de explorar as inúmeras possibilidades da riqueza da nossa língua. O texto lapidado também reserva boas imagens: prestem atenção na descrição da fileira de postes de luz que ilumina uma tórrida e vulgar cena de sexo na página 70.

Escolhendo bem palavras, trabalhando boas imagens, Francisco Slade constrói uma ação que envolve bastante o leitor especialmente nas 30 primeiras páginas, quando o matador manda uns dois pra cucuia como quem joga fora uma guimba de cigarro. Depois vai reclamar com o chefe de ter que trabalhar aos domingos.

Após ter matado mais que a PM do Rio, o personagem entra numa baita crise de existência, de consciência, ou qualquer crise do tipo. O leitor precisa ter muita compreensão com nosso amigo que, coitado, na busca do verdadeiro eu acaba matando outro homem de porrada. Com tudo isso o matador apresenta densidade psicológica, ideal para aqueles leitores que gostam de personagens que mergulham dentro de si sem conseguirem encontrar o rumo certo. Para os que não têm muita paciência nesses casos, um aviso: vale a pena esperar porque o livro guarda um desfecho bastante digno.


ANDRÉ Giusti nasceu no Rio de Janeiro no emblemático maio de 1968. Como jornalista já trabalhou em várias emissoras de TV e rádio no Rio e em
Brasília. Publicou três livros de poesia nas décadas de 80 e 90, mas há
quase 10 anos abandonou o gênero para se dedicar inteiramente à prosa.
Começou a escrever contos em 91 e em 96 publicou seu primeiro livro, Voando Pela Noite (Até de Manhã) pela editora 7Letras. O livro foi indicado ao prêmio Jabuti em 97. Ficou 7 anos sem publicar, escrevendo os contos que formam A Solidão do Livro Emprestado, lançado em outubro de 2003 também pela 7Letras. Atualmente mora em Brasília. É casado e pai de uma menina de 5 meses.



| comentários (4)

:: março 7, 2004 02:45 AM



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