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Minto que minto
por Flávio Izhaki


O Mentiroso, de Tony Monti


Tony Monti mentiu. Ao nomear sua coletânea de contos com o título de O Mentiroso, e, além disso, fazer uma pequena introdução ao livro dizendo que “o mentiroso” era ele, o jovem escritor paulista despistou os leitores. Mas antes encantou os jurados do Prêmio Nascente, da USP, (que já teve vencedores como Fernando Bonassi e Juliano Garcia Pessanha), e foi laureado como o melhor texto do concurso em 2002.

O artifício de amarrar os nove contos com o selo da mentira, entretanto, é só uma artimanha, que recorre a alusão de que todo ficcionista é um mentiroso por natureza, ao narrar uma história que nunca aconteceu.

Esqueçamos o título então, para nos atermos à qualidade dos contos do livro. O ser humano e seus pequenos segredos e fraquezas é o que interessa ao autor, e isso não é pouco, visto que temas como caos urbano, violência e sexualidade são personagens principais na maioria dos livros da ficção brasileira contemporânea.

Monti não se propõe a ser inventivo nos temas dos contos: mendigos, prostitutas, assassinos e palhaços são motes recorrentes de contos e mais contos. O que o autor propõe é menos uma criatividade de temas, mais de abordagens.

O Mentiroso é um livro humanista, com pitadas claras de um existencialismo tão presente a qualquer indagação jovial de um autor que escreva sobre a vida. Quando Monti conta a história de um mendigo, alguém que em algum ponto escapou ao controle da sociedade organizada e foi enxotado para as ruas, o autor cria um hobby para este morador das marquises: ir ao cinema. Mas não por uma devoção mitificada à sétima arte, e sim pelo conforto da poltrona macia e do ar condicionado. Conforto básico. Uma condição e contradição humana, mesmo para os que quase nada têm.

Neste primeiro conto, Pão e Circo, que trata de um mendigo, o ponto mais alto da narrativa é uma personagem que não fala, quase não tem sexo, mas existe com uma força que permeia toda a história. É com sua morte, silenciosa, secreta, que o narrador-protagonista encontra força para tentar voltar a uma outra vida, terminando com a seguinte passagem:

“Voltei lentamente escorando-me onde podia. Tossia e não sentia meu corpo. Concentrava-me em respirar. Quando cheguei em casa, já de noite, mais dois potes de sopa me esperavam. E no dia seguinte também, e é assim há seis dias. Daí tirei alguma força e comecei a pensar desde que senti a cabeça acordada. Penso para mim, pensamento que ninguém escuta. Sinto-me vivo.”

A maioria dos contos é em primeira pessoa. Questionamentos muitos e algumas poucas respostas de narradores solitários, que deixam viver, sem se preocupar em tirarem conclusões filosóficas, mas que vão trabalhando-as em gestos para o entendimento ou não do leitor. É o tal do ser humano individualizado de que tanto falam as ciências humanas contemporâneas. Aquele que vive nas grandes cidades, cercado de gente, mas se sente sempre sozinho, mesmo quando está deitado, dividindo a cama com alguém. Solidão compartilhada.

Neste espírito é mais fácil entender o lirismo bruto do segundo conto, Jogo Amistoso, onde o autor se dá mais liberdade de linguagem, trabalhando com dois narradores, que dialogam em silêncio, às vezes até na mesma frase, num joguinho mental entre uma prostituta e um cliente, que se estudam e se atraem, sem trocarem palavras, até fecharem o preço de um programa em apenas uma linha: “Cinqüenta reais? Cinqüenta reais. Negócio fechado.”

O terceiro conto, Sob o Sol, é um resumo de todo o livro. Um narrador-personagem solitário, secreto, mudo, que vive em seu mundo. Quando decide sair de casa você percebe que ele tem um objetivo traçado (dessa vez não contarei o final do conto), embora o leitor ainda não saiba que tem a ver com a ex-namorada, a quem ele deixou por um motivo que só pode ser entendido com uma questão existencialista:

“Deixei-a apesar de ainda gostar dela, deixe-a porque ela não compreendia que o mundo era um pouco pior. Ela ria e eu sentia que a amava. Mas quando eu pensava, percebia que ela ria sem motivo, ria por não perceber algumas coisas. Triste. [...] Queria, sinceramente, que existisse um deus. Não, queria uma alma imortal. Mesmo que não existisse, queria acreditar. E ia dizer que sei que essas coisas não existem, mas não, não sei, sei que não acredito, o que dá no mesmo.”

Existencialismo puro. Uma releitura de Sartre e seu Erostrate, um dos contos do livro O Muro, o primeiro do francês.

Nos cinco contos de narrativas breves, o autor trabalha mais o caráter impressionista de seus textos. São passagens ou pensamentos do eu-narrador-protagonista, desfilados de modo seco e conciso, às vezes até descritivos, sempre com alguma ironia (pequenas mentiras?).

Fica latente, ao terminar de ler O Mentiroso, que, mesmo tão jovem, Tony Monti já possui bom domínio narrativo, principalmente nos contos mais longos, o que nos sugere que, apesar da maioria das narrativas deste livro serem curtas, o escritor tem fôlego e habilidade para, no futuro próximo, arriscar-se no campo de uma literatura longa – novela ou romance.


Flávio Izhaki



| comentários (3)

:: março 7, 2004 02:40 AM


Flávio Izhaki é jornalista, 24 anos, e também pode ser encontrado no bohemias.blogspot.com

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