paralelos.org
» ARQUIVO

Destaques

-   Meu Deus-Tornado
por João Filho

-   Amor
por Nelson de Oliveira

-   Minicontos do desconforto (xi-xx)
por André Machado

-   O Baile
por Jorge Cardoso

-   O óbvio ululante e eu
por Márvio dos Anjos

-   Pro Beleléu
por André Sant'Anna

-   ET de Cozinha
por Indigo

-   Iemanjá, alcatrão e areia no Posto 6
por Augusto Sales

-   Graves e poros
por Cecilia Giannetti

» ARQUIVO ATUAL



A visita anual
por João Paulo Vaz

Os pacientes do pavilhão quatro se recolhem cedo. A administração desistiu de socializá-los; todas as tentativas esbarraram no desprezo preconceituoso fartamente alimentado pela aparência desagradável e pelo temperamento agressivo deles. Também não contam com a simpatia dos médicos e cientistas que gostariam de poder esquecer essa herança indesejável da virada do milênio.

São uns poucos homens acabados – menos de uma dúzia – a se arrastarem pelos corredores. Já não há mulheres entre eles. Das poucas que havia, nenhuma sobreviveu à primeira menstruação. Apenas um entre eles ainda anda com suas próprias pernas, apoiado numa bengala. Chama-se Adam Clay Jr.

Do diário de Adam Jr.

Passei a noite toda tossindo por causa da maldita pneumonia. A visão está cada vez pior, já mal consigo escrever. Mas ninguém se importa com isso. Gostariam que não existíssemos. Não agüento mais esse lugar. Não agüento mais essa vida. É como não existir.

O único cliente do Dr. Howard naquela manhã teve que esperar quase duas horas para ser atendido. Howard está desinteressado do consultório e dos poucos sobreviventes que o procuram com suas listas intermináveis de mazelas sem esperança. Pelo tormento de ouvir suas queixas, recebe uma verba social miserável que diminui a cada ano junto com o número de pacientes.

Sente-se profundamente injustiçado pela vida. Estudante brilhante, disputou com centenas de outros um lugar ao sol no que era, então, o campo mais prestigiado da medicina. Venceu, mas só para ver depois sua especialidade praticamente desaparecer em menos de duas décadas.

Adam, o paciente à sua frente, tem uma aparência desagradável. Não por causa dos sinais evidentes de velhice, mas porque há algo de estranhamente artificial no seu envelhecimento. Parece a imitação malfeita de uma peça antiga. Entre os cabelos brancos e ralos, há tufos castanhos e densos, espalhados arbitrariamente. E a pele do rosto, seca e gretada, não tem rugas. Adam entra no consultório reclamando da espera e, com uma ansiedade juvenil, queixa-se da catarata, do câncer na próstata e das pneumonias recorrentes; até Howard interrompê-lo, irritado.

– E o que você espera? Já está com 24 anos e sabe muito bem que o seu ritmo médio de envelhecimento celular é pelo menos o dobro do normal. Multiplicando sua idade por dois, temos 48 anos que, somados aos 40 de seu pai na época da clonagem, dão um total de 88 anos. Essa é sua idade real, biológica. Seu principal problema é não aceitar isso.

Do diário de Adam Jr.

Depois de me fazer esperar duas horas, o bosta do Howard veio outra vez com o discurso sobre a idade biológica. Se eu pudesse tinha arrebentado aquela cara de bebê sádico. Eu só vivi 24 anos! Essa é a minha idade real! Porque tenho que aceitar um corpo de 88?

Na primeira década do século 21, Adam Clay era um exemplo de homem bem sucedido. Empreendedor, individualista, criativo e ousado, era considerado um dos publicitários mais geniais de toda a costa oeste. Mas, dias antes de completar 40 anos, no ápice da carreira, foi sacudido pela primeira vez por uma crise existencial. Numa tarde tranqüila, no amplo escritório de Los Angeles, depois de um almoço de comemoração pela assinatura de mais um contrato milionário, Adam e seu sócio – Soares – conversavam amenidades sobre mulheres quando, sem aviso prévio, sem convite e sem a menor cerimônia, a Ignóbil Senhora lhes fez uma visita. Com um enfarte fulminante, a Morte colheu Soares no meio de uma risada.

Recostado em sua poltrona, Adam viu o sócio interromper o riso de repente como se tivesse engasgado, levar a mão ao peito e arregalar os olhos. O terror expresso nesse último olhar invadiu as noites seguintes de Adam. Soares era poucos meses mais velho que ele e tinha o mesmo estilo de vida – também era rico, solteiro, elegante e bem sucedido. Era o que Adam chamaria de "alma gêmea", se a palavra alma pertencesse ao seu vocabulário.

O medo da morte o assaltou. A crise dos 40 anos foi arrasadora. Adam – como Soares – tinha dedicado a vida à si mesmo. Perceber de repente a finitude do objeto de toda essa dedicação foi insuportável. Outros homens, em outras épocas, talvez tivessem pensado em ter um filho, para ele, porém, havia uma alternativa muito mais atraente: a YF, empresa de engenharia genética cuja marca ele mesmo havia criado.

O slogan tinha sido composto por Adam para a campanha de lançamento do programa de clonagem comercial: Never die, come to YF – You Forever. Seguindo seu próprio conselho, Adam procurou a YF.

A clonagem marcou o clímax do sucesso e o início do declínio de Adam Clay.
A auto-imagem, momentaneamente mais inflada ainda pelo filho exatamente igual aos seus retratos de bebê, foi duramente atingida pelas primeiras complicações no crescimento do menino. Adam Clay Jr. era inquieto e agressivo, vivia doente e tinha um desenvolvimento estranho, desarmonioso. Em alguns aspectos amadurecia depressa demais, em outros devagar demais, como se faltasse coordenação entre os diversos processos de crescimento.

À medida que as crianças clonadas cresciam, seus problemas iam ficando cada vez mais evidentes. Na adolescência, as alterações hormonais – precoces e desequilibradas – coincidiam com o início de uma degeneração física acentuada. A explosão do desejo sexual acabava de vez com o equilíbrio já quase impossível entre mente infantil e corpo adulto. Os adolescentes ficavam intratáveis e tinham que ser internados em clínicas especializadas. As meninas não sobreviviam à menarca e só uma pequena parte dos meninos chegava à idade adulta. A geração de Adam Jr. foi a última. Pouco depois, a tecnologia de clonagem abandonada.

O filho programado para eternizar o sucesso de Adam Clay veio a ser seu primeiro grande fracasso. Outros viriam. O mercado bilionário da publicidade desapareceu junto com o capitalismo e o deixou arruinado e desempregado.

Do diário de Adam Jr.

Meu pai vem aqui amanhã. Detesto essa visita anual. Ele também. Só vem porque a clínica exige. Fica o tempo mínimo e vai logo embora. Foge assustado. Tem horror de me ver. Me acha uma cópia malfeita dele. E na verdade sou isso mesmo: uma cópia malfeita.

A visita anual é uma descida ao inferno.

Olhando o filho, Adam se depara com todos os seus fracassos. E o envelhecimento precoce do clone é uma espécie de filme de horror sobre seu próprio futuro, um anúncio grotesco do fim.

No olhar do pai, por sua vez, Adam Jr. só encontra aversão e hostilidade a custo controladas.

Os olhos se evitam. Cada contato é uma tortura mútua. Se o olhar do filho joga no pai tudo o que ele não quer ver, o do pai recusa ao filho o menor traço de um reconhecimento que, apesar de tudo, nunca deixou de ser desejado.

Adam Jr. bate irritado a bengala no chão.

– Não quero mais ficar aqui – diz encarando o pai, que vira o rosto para a janela.
– Já falamos sobre isso. Você sabe que é impossível.
– Impossível é continuar aqui. Quero sair daqui! Não agüento mais isso!

O pai não responde. Apenas olha o relógio. O filho continua:

– Estou ficando cego e não querem operar minha catarata. Ficam enrolando com essa história de imunidade baixa. Na verdade só estão esperando a gente morrer. E eu provavelmente vou ser o último. Sou o mais moço de todos. O único que ainda consegue andar sozinho. Mas quase não consigo mais ler nem escrever, e ninguém se importa. Você não se importa!
– Eu não tenho culpa da sua catarata.
– Tem sim! Da catarata e de tudo mais. Não fui eu que pedi, foi você que mandou me fazerem assim. Copiando você, porque se acha o máximo. E na verdade é um bosta! Não quero ser cópia de um bosta! Não quero ser cópia de ninguém! Eu quero uma vida minha!

Quinze minutos. É o quanto Adam Clay tem que agüentar aquela penitência anual em troca da miserável pensão que pais e mães desses monstros recebem como indenização. Nem imaginaria, 24 anos atrás, passar um dia por tamanha humilhação. Assim que o tempo mínimo de visita se completa, ele levanta e toma o rumo da saída.

Adam Jr. segue o pai. É como se ver por trás. A mesma cabeça um pouco grande demais para os ombros, as mesmas orelhas meio avermelhadas e um pouco largas, o mesmo balançar do pescoço para frente e para trás ao andar. Mas os cabelos são bastos e têm um belo tom prateado, os ombros são mais retos e as pernas mais firmes.

A injustiça de ser rejeitado por um pai 24 anos mais moço é como uma chicotada no rosto. Em algum lugar misterioso do seu corpo decrépito, no núcleo mesmo do jovem aprisionado nele, a fúria explode e transborda pelo braço que se levanta. A bengala desce na nuca do pai com uma força desproporcional à musculatura frágil e à ossatura descalcificada que a empunham. No embalo do repique, sobe e torna a descer. O pai se curva. Adam Jr. nunca se sentiu tão real. A terceira bengalada cai no meio das costas. Na violência, encontra finalmente a alegria selvagem de ser. O pai cai de joelhos. Não será mais clone o que não tem matriz. A pancada seguinte é no topo da cabeça. O sangue espirra e a bengala volta a subir.

JOÃO Paulo Vaz nasceu em 1949, é engenheiro eletrônico (IME) e mestre em informática (PUC-RJ), com pós-graduação latu-sensu em filosofia contemporânea (PUC-RJ). Começou a escrever ficção em 2000. Sete estações é seu primeiro livro e está preparando outro, também de contos, para publicação em 2004.



| comentários (3)

:: março 7, 2004 02:20 AM



Home Literatura & afins Crème de la Crème Feira Livre Modo de usar Cadastro Busca Contato