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O bispo
por Mariel F. dos Reis


O Bispo, de Anton Tchekhov



Anton Tchekhov, autor prejudicado por traduções descuidadas, ganhou pela Coleção Rocinante, da editora 7 Letras, a publicaão de uma novela chamada O bispo. A tradução bem cuidada pelo escritor premiado e tradutor Rubens Figueiredo conta com uma novidade: a tradução direta do russo, língua original de Tchekhov. É que há pouco tempo autores como Tolstói, Turqueniev, Dostoiewsky e Tchekhov eram traduzidos do francês ou do inglês, o que em muito prejudicava os autores, sendo impossível determinar nestes trabalhos o que de fato havia do autor e o que havia das artimanhas do tradutor. Sendo ainda mais difícil por se tratar da tradução de uma tradução.

Especializados, tradutores como Rubens Figueiredo contribuem para esclarecer o equívoco que autores como Tchekhov sofreram ao longo do tempo e das sucessivas traduções sofridas sem jamais cogitar-se o cotejamento com o texto original, na língua materna dos autores em questão.

O bispo, trabalho longo de um Tchekhov no final de carreira, é uma obra que merece nossa atencão durante a leitura. O enredo aparentemente simples, de uma mãe que retorna para rever um filho tornado eclesiástico é algo pouco para os que esperam aventuras e mistérios. Porém, para os conhecedores deste autor, sabem que Tchekhov privilegiará o drama dessas criaturas, que a ação se passará num plano mais psicológico do que físico e que cada um deles será escavado até que revelem o que de essencial podem ter para dividir com a assembléia de homens que o mundo deu o nome de humanidade.

O bispo Pietr, emocionado por rever a mãe, experimenta sensações da vida anterior ao monastério. À experimentação dessa vida segue um estranho mal-estar, progressivo, cuidado por um outro padre com ungüento e lavagens. Este, um homem ranzinza, de poucas palavras, desconfiado do homem e seus progressos. Sempre de poucas palavras, ávaro por não dividir com ninguém a sua essência, é ele o interlocutar principal da mãe de Pietr e da neta que ela traz consigo. A visita que se quer algo rotineiro de uma saudade se revela diferente desta matéria: a necessidade que a leva até ali, ao filho tornado bispo. O mal-estar acaba por transformar-se em doença e Pietr morre. As outras vidas seguem desamparadas.

Tchekhov com uma economia característica e com a arguta capacidade de observação capta a tragédia desses personagens. Não sendo somente um dos grandes autores da Rússia, mas um dos formuladores do também conto moderno, a leitura dessa novela ou desse conto longo já valeria a pena.



| comentários (1)

:: março 7, 2004 01:42 AM


Mariel F. dos Reis é carioca e além de diversas outras empreitadas também escreve, tendo seus trabalhos publicados pela Revista Ficções da 7 Letras, e em outros veículos literários como os jornais Panorama da Palavra, Rio Letras, Milênio, Rascunho, dentre outros. Mariel está preparando seu primeiro livro de contos "Linha de Recuo e outras estórias”. Linha de recuo é seu primeiro conto publicado na Internet.

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