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Traçando Carlos
por Simone Paterman


Ombros Altos, de Carlos Sussekind


Coleção Rocinante
Uma apresentação epistolar do autor de “Ombros Altos”


Data: Sun, 25 Jan 2004 11:33:33 -0300 (ART)
De: "Simone Paterman"
Assunto: Strawberry Fields
Para: Carlos Sussekind


“Let me take you down ‘cause
I’m going to Strawberry Fields
Nothing is real/ and nothing to get hungabout/
Strawberry Fields Forever”

Carlos,

Por favor, repasse as cartas abaixo para Paula, Barão e Francisco, pois não sei o endereço para que possa enviá-las.

O senhor vai entender onde estão os campos de morango quando não agüentar de curiosidade e ler todas as cartas.

Um beijo,
Simone


Data: Sun, 25 Jan 2004 10:36:12 -0300 (ART)
De: "Simone Paterman"
Assunto: Carta a quem um dia chamou-se Paula
Para: Carlos Sussekind

Paula,

Sei que este não é o seu nome verdadeiro. Escrevo para o que imagino que possa ter-se conservado daquela Paula que serviu de inspiração para que Carlos Sussekind escrevesse, com tal pureza, tal poesia, o seu primeiro livro, Ombros Altos.

Quando ele disse que a senhora não era apenas uma personagem, e que pertencia ao mundo real, tive receio de perguntar como se chamava. Carlos, também, desconversou, pediu para que eu desligasse o gravador, comentou que a senhora não gostou de como ele a descrevera no livro, e que realmente terminara se casando com aquele, o elegante.

Pode ser que não tenha lido o livro com o devido cuidado, irada que estava com o fato de ter sido retratada como uma "grã-fina". Deve, principalmente, ter se chateado com o "amor descuidado" que ele sentia pela senhora, tão descuidado que o fez divulgar - ainda que de maneira restrita - tudo o que se passou naqueles dois anos de suspiros e de recato.

Um amor como aquele não se inventa: no máximo, se transcreve. Não há teoria na literatura que nos ensine o que é preciso para atingir o inefável que é o amor em seu estado puro. Carlos atingiu:

"Tantos anos passados sordidamente - e surge Paula, com seus vestidos estampados e suas saias ao léu e seus 'ora, ora' e seus ombros altos e seus olhares absurdos e seus pés e seu vestido preto e seus olhos brilhando e seu coque tombado pela metade sobre o pescoço e a ponte perto de sua casa e a gente querendo estar perto dela e ela não querendo e a gente pensando se ela não quer mesmo, e outra vida”.

Barão, um amigo que a senhora deve recordar, compreendeu como ninguém o seu pudor em aceitar o amor de Carlos. Para ele, é ingenuidade do amigo não saber que "o pudor de Paula não é só para durar até o dia em que escolher o 'bem amado', ela tem para demonstrar seus sentimentos de maneira ambígua, seu pudor é para sempre. O amor que ela tem para oferecer (e ela tem o que oferecer) não exclui o pudor - as duas coisas vão aumentando juntas, e Doutor (Carlos) tinha que entender isso bem e não entendeu".

Não sei ao certo porque escrevi esta carta. Tenho um desejo objetivo, claro, que é articular um contato entre a senhora, Carlos, e o barão, se ele de fato existir.(carta em anexo)

Mas existe também uma razão subjetiva. Talvez esteja escrevendo para dizer que compreendo seu pudor. Ou simplesmente por desejo de me transportar para esta outra juventude, em que a pureza do amor estava no ar a ponto de não ser vergonha para ninguém desejar publicá-la.

Não sei se o fato de ter se tornado politizada, além de rejeitar a juventude "grã-fina", a tenha feito desprezar o amor de Carlos. Talvez a senhora tenha passado a se dedicar a coisas mais práticas, cortando o coque que pendia para o lado e deixando de lado os vestidos estampados.

Comecei a rimar: hora de nos despedirmos. Espero ter a chance de conhecê-la em breve.

Atenciosamente,
Simone


Data: Sat, 24 Jan 2004 12:49:38 -0300 (ART)
De: "Simone Paterman"
Assunto: Carta sentimental de uma desconhecida
Para: Carlos Sussekind

Prezado barão,

Se escrevo ao senhor, é porque atesto a sua existência, apesar das poucas evidências e do absoluto silêncio de Carlos Sussekind sobre o assunto. Deve se lembrar dele: moraram juntos durante dois anos e o senhor o chamava de Doutor. Ele o apelidou de barão, inspirado no barão Frankestein. Disputavam então a mesma pequena.

Não pense que a alcunha tivesse caráter pejorativo. Carlos parece inclusive não ter lhe guardado rancor, já que afirma, em carta para o amigo Galocha,

"O barão Frankestein não é um sujeito feio, como você (Galocha) - sempre tão mal informado - há de estar pensando agora. Quem era feio, na lenda, era o monstro que pegou o nome de Frankestein. Nos filmes que tenho visto, o barão é até bem apessoado, só que de vez em quando passa um brilho sinistro em seus olhos. (...) Não somente a noiva gosta dele até o susto, como também ele passa o filme recebendo abraços cheios de temperamento da criada”.

Li seu comentário, acertado, de que Doutor "vai querer publicar o que deixou escrito e a sua 'sede de torturas' deve ser tão grande que minhas observações serão um regozijo para ele e fará publicá-las também".

De fato, Carlos, naquele mesmo ano, com dinheiro de seu próprio bolso (donde se insere sua 'sede de torturas'), bancou uma edição de 300 exemplares do texto, intitulado Ombros Altos.

O livro, como não foi distribuído devidamente, terminou mofando em algumas prateleiras de escolas públicas (quando não censurado pelas bibliotecárias), e teria sido esquecido para sempre se não fosse a camaradagem de seu primo, editor, de relançá-lo em tiragem recorde de 600 exemplares.

Ombros Altos foi parar nas minhas mãos por pura coincidência, já que nunca havia ouvido falar no nome de Carlos Sussekind. Digo isso para amortecer qualquer constrangimento que o senhor possa sentir por ter sua intimidade revelada pelo amigo(-da-onça?): muito pouca gente teve acesso a ela.

Se, como Paula sugeriu, o senhor tem realmente um "parentesco espiritual" como o personagem, não deve ter sido agradável ver divulgado o apelido mary-shelleyano.

Escrevo para que saiba que os outros personagens do livro sofreram um destino ainda pior. Paula não perdoou Carlos pela descrição acintosa de sua vida na juventude, demasiadamente fútil para a mulher politizada e inteligente que conquistara o seu coração e o de seu amigo. Como supunha, a exemplo das outras vezes, o "pudor" de Paula falou mais alto. Escreverei para ela uma carta sobre o assunto para tentar apaziguar suas mágoas.

Mais grave foi o caso de Galocha. Não sei se o conheceu: Carlos dividiu um conjugado com ele a fim de que se dedicassem à literatura, tarefa obviamente mal sucedida. Segundo a descrição de Doutor,

"Galocha traduzia no seu porte disposições muito diversas. Era comprido e tinha mãos só para os gestos que fossem discretos, ensaboar, apanhar coisas, cumprimentar. Fora disso o mais que fazia era passar a ponta dos dedos numa superfície lisa ou então acenar para um gato. Quando lia ou comia em silêncio deixava pender a cabeça para o lado no maior desconsolo. Por causa da sua melancolia inventei para ele esse nome de Galocha, que lhe dava prazer em ouvir”.

Depois de ter o conhecido, Carlos passou a reparar nas pequenas (terminologia adotada por Galocha) de maneira menos canalha (adjetivo de Carlos).

Então ela apareceu. Em conversa com Olga, uma amiga, Carlos revela:

“Mudou minha maneira de sentir, depois que passei a sair com Paula. Isso eu digo que ela não pode adivinhar. Você sabe quem ela me faz lembrar? Uma menina que eu empurrava no balanço, no colégio, eu tinha sete anos. Usava um vestidinho azul com flores brancas e tinha tranças. No recreio eu empurrava ela no balanço, balançavam as tranças. Eu estava preparado para me casar então. Depois fui incapaz de saber querer uma mulher. Saber estar perto. Sinceramente”.

Galocha não soube das pretensões do amigo, pois afirmava que "no verdadeiro amor não se fala dela para ninguém". Como acreditava que seu amor era verdadeiro, Carlos não quis falar de seu amor a Galocha, o que o reservou de muitos dos seus choramingos.

Ele não disputava com Carlos a mesma pequena, o que o poupou em muitos sentidos. Porém, eis que, nesta última edição, de 2003, foi incluída uma carta em que Galocha se derramava em confissões pelo amor que sentia por uma mulher casada.

Tudo bem que a moça, dona de pensão em São Paulo, tem possibilidades remotas de ter o livro em mãos. Mas, com esta história, Carlos mais uma vez demonstrou ser insensível em relação à intimidade de seus amigos. Deve admitir que, de todos eles, foi o senhor quem recebeu melhor tratamento.

Talvez por Paula também não ter escolhido o senhor para casar, tendo preterido ambos por um terceiro (aquele, o elegante), Carlos o reservou de muitos constrangimentos, dizendo a todos que o senhor foi o único personagem "completamente inventado".

Triste é saber que não se trata de um lapso do autor, mas de sua própria vontade. Carlos não se incomoda nada em dizer que sua ficção é toda baseada em sua própria vida, e na de seus pares, e menos ainda em revelar os prejudicados nesta empresa, que segundo seu analista, sofrem uma espécie de vampirismo: na falta de idéias originais, o autor tira proveito de anedotas domésticas.

Esta falha de caráter do autor é largamente conhecida, já que não faz vergonha nenhuma a ele afirmá-la a quem quer que seja. Dedica-se hoje a transcrever as 30 mil páginas do diário de seu pai. Seu círculo de amigos o apóia, resignado, provavelmente por acreditar que, sob os relatos do pai, existe uma fonte inesgotável de registros históricos espontâneos.

Carlos não está interessado em história, mas nas estórias. Não sei o que seu pai diria da ampla divulgação de momentos como o dia em que, em pleno centro da cidade, foi vítima de uma caganeira, tendo sido salvo por militares graças a uma condecoração de honra que levava sempre consigo.

E quem lê, para eximir-se da cumplicidade, diz ter interesse na importância histórica das banalidades...

É claro que, intimamente, a excentricidade de Carlos Sussekind não me incomoda, até mesmo porque ainda não fui vítima de sua indiscrição. Pelo contrário: sou sua admiradora, e gostaria de presenciar um encontro do escritor com seus personagens.

Se não se importar, gostaria que partisse do senhor a iniciativa de marcar um encontro com Carlos. Como vai ser ele mesmo quem vai repassar ao senhor, se a carta chegar em suas mãos, será porque Carlos concorda com a idéia. E, melhor ainda, será porque, como estou apostando, o senhor existe de fato.

Carlos Sussekind não podia imaginar, quando aceitou a entrevista, que sob a máscara de jovem com pretensões literárias estaria uma eficiente jornalista investigativa.

Em anexo, poderá conferir outros detalhes da pesquisa.

Atenciosamente,
Simone

Data: Fri, 24 Jan 2004 04:03:17 -0300 (ART)
De: "Simone Paterman"
Assunto: Carta a Francisco Daudt
Para: Carlos Sussekind

Caro Francisco Daudt,

Escrevo com a esperança de que Carlos Sussekind consiga encaminhar esta carta ao senhor. Sei que nosso amigo não estacionou na máquina de escrever (confesso que quase tomei esta atitude na última quinta-feira, quando o trabalho de uma madrugada inteira foi tragado no sumidouro de meu HD), mas checar e encaminhar um e-mail deve ser uma tarefa complicada para ele, haja vista que até hoje não obtive resposta para minha gentil cartinha (no final do anexo).

Poderia ter conseguido seu endereço na editora, assim como consegui o do Carlos (é claro que veio errado, e eu precisei de um constrangedor contato telefônico para pedir o novo, para que redigisse o e-mail que propunha... um contato telefônico), mas hoje é sexta-feira, e fiquei de entregar o material para a revista no domingo. Nem consigo cogitar a hipótese de que a editora possa abrir em um sábado. Escrevo então assim mesmo, e contaremos com a habilidade de nosso amigo.

Ouvi seu nome pela primeira vez no domingo passado, quando entrevistei Carlos. Como é de hábito, ensaiei falar mal da psicanálise (ganho os amigos e os inimigos certos de imediato, quando saio com essa).

Apesar de, na parceria no livro, o senhor ter-se utilizado de artifícios sádicos - como todo analista, e disso eu sei sem nunca ter feito análise – zombando de suas peculiaridades psíquicas, o autor parece não lhe guardar rancor.

Disse que, nas sessões de terapia que fizeram durante quatro anos, se conversava mais sobre as histórias que se passavam em sua cabeça do que sobre o que poderia ter acontecido no seu dia. Mesmo porque, para o escritor, estes dois planos da realidade se equivalem, quando não se sobrepõem.

Pensei em quantas vezes distintos profissionais tentaram amenizar os sofrimentos de Carlos amortecendo seu (enorme) potencial criativo. Se os métodos científicos não tivessem falhado, Carlos seria hoje, em sua "normalidade bovina", um chato.

A conversa foi divertidíssima. Hoje, com insônia, li umas boas cem páginas do livro que escreveram juntos e cheguei a engasgar de tanto rir. Que barato!

Mas estou escrevendo por motivos mais psicanalíticos que literários. Carlos foi diagnosticado como alguém que confunde ficção com realidade, o que hoje, no moderno vocabulário médico, se chama "transtorno bipolar" (isso li em "O Autor..." o senhor, então, deve ratificar).

Sabe, já fui diagnosticada com esta terminologia, mas, por sorte, todos ainda me crêem perfeitamente lúcida. Inclusive eu mesma.

Tudo bem que a sentença foi dada pelo meu endocrinologista, que aproveitou para receitar uns remedinhos. Em toda consulta, pego uma receita, mas nunca tomei as bolinhas - e o doutor diz que eu estou cada dia melhor!

Não faço muita confusão entre ficção e realidade, não. O que faço, claro, jamais confessaria a um endocrinologista, mas confesso ao senhor: às vezes, sonhos, romances e filmes se misturam à minha memória. Tenho, como Carlos, no relato de Ombros Altos, um repertório de sonhos muito realistas.

Reproduzo o trecho, que vale a pena ler (deu para notar que eu virei fã? O senhor sabe que eu sou a maior colecionadora de "Ombros Altos" que se tem notícia? Já li cada uma das edições, exceto a dos anos 60, que guardo para ler quando estiver correndo o risco de começar a me levar a sério).

Lá vai:

"Bom. Uma coisa que naquele tempo me fazia perder a cabeça de orgulho era alguém perguntar se eu havia tido algum novo sonho ou então para pedir para contar um dos antigos. (...) Os meus sonhos eram fora do comum, sinceramente. (...) Tinham enredo, às vezes até bem longo, e com muitos lances inesperados, eu podia contar do princípio ao fim sem correr o risco dos ouvintes ficarem distraídos pensando em alguma coisa. Meu ideal mesmo seria chegar a acumular um tal repertório que, ouvindo falar sobre qualquer assunto, pudesse interromper dizendo: isso me faz lembrar um sonho...”

Perguntei ao Carlos se ele ainda tinha esta relação com seus sonhos. Negou. Mas disse que ainda tem faro para as coincidências. Soube então do número 33. Ele me disse para que o procurasse da próxima vez que eu visse o número supracitado. Já o vi duas vezes: num anúncio do Shopping 33, de Copacabana, e na camisa de uma menina no ônibus. Como psicanalista, me responda: corro o risco de agravar a situação de nosso amigo se eu ligar sob este pretexto?

Segundo o que entendi, o principal motivo para que ele tivesse sido internado foi por haver presenciado uma seqüência de coincidências, que culminaram em uma sensação que o mundo era apenas um palco armado para que ele atuasse - instinto megalomaníaco que, sem dúvida, pode levar um maluco pacato a se tornar perigoso.

Quando o autor me contou do episódio de sua internação, eu disse a ele que a experiência, embora tenha sido um tédio só, pôde gerar histórias riquíssimas, tanto no mundo ficcional quanto na vida real, graças às suas mentiras (como as palestras fictícias que deu para sérios e compenetrados doutores no Pinel, que história engraçada! É real? Importa se for?).

Carlos ficou assustado com a sua cara impassível ao contar barbaridades aos doutores. Acho que isso aconteceu porque ele estava acreditando um pouco na própria mentira ao contá-la. Por nós (eu e ele, estou excluindo o senhor) temos esta tendência de misturar as coisas, nossas invenções coexistem em nossa memória. Mentir passa a ser quase como falar a verdade.

Para ser sincera, é por isso que não costumo mentir: sei que corro o risco de, um dia, não saber mais distinguir uma coisa da outra. Quando me ocorre um caso destes, recorro às minhas irmãs, que têm uma memória de elefante. Espero que um dia, elas não façam comigo o que Carlos fez com o diário de seu pai.

Por precaução, não escrevo diários. Mas escrevo cartas. Um dia, vou publicar algumas, e se quiser perder alguns amigos, publico também algumas de suas respostas. Para treinar, estou mandando abaixo uma porção de cartas que escrevi durante esta semana para que o senhor, como se divertiu com a loucura de Carlos, se divirta um pouco com a minha.

Como nunca nos vimos, e o senhor não está familiarizado com certas informações, explico:

A carta mais lisérgica de todas é a próxima, que escrevo a minha amiga Diana - falando nisso, não faço uso de drogas, doutor: eis uma vantagem econômica de já se ter nascido "transtornada" bipolar – cito Strawberry Fields, Lewis Carrol e sereias em um só fôlego.

O primeiro não tem muita importância: foi apenas uma coincidência, que resultou em três coisas: 1) tive inspiração para escrever; 2) Paguei 33 reais em um cd dos Beatles, uma péssima compra, na Saraiva do Rio Sul, por pura pressa de ouvi-lo no trabalho; 3) Ouvi-o no escritório, ocasião em que pude achar afinidades com outros espíritos livres, impelidos a usar gravata por fins práticos.

A coisa agravou-se quando ouvi minha própria voz cantando o refrão, no momento em que comecei a transcrever a entrevista com Carlos. Isso vai ser explicado depois.

A figura Lewis Carrol surgiu de uma peça bacaninha que vi na Fundição Progresso, que tem o Strawberry Fields na trilha e trata da confusão que continuamos a fazer, mesmo depois da infância, entre fantasia e realidade.

Já as sereias são um caso realmente sério. Há um ano me propus a escrever minha monografia de final de curso (faço Cinema, pode botar na ficha de internação), embora faltasse ainda mais de um ano para terminá-lo.

Não vou contar todo o raciocínio que me transportou de "Casa dos Artistas" para a Partênope de Camões, porque senão fica chato demais. Mas as sereias são seres bem mais fascinantes - não acho que tenho nenhum parentesco especial com elas, com exceção de, na cultura afro-brasileira, me saber descendente de Yemanjá - do que as outras opções de pesquisa que tinha pela frente.

Como as coincidências e os sonhos, que, quando começamos a prestar atenção demais, parecem se proliferar e adquirir sentido, o enredo ficcional vem invadindo minha realidade.

Acredito, porém, que com o tratamento salutar da boa literatura, uma terapia esteja fora de questão, a não ser para divertir o analista com minhas idéias.

Agora vou me ocupar de escrever para os personagens não-ficcionais de Ombros Altos, para me divertir um pouco. Todo este papo-cabeça (literalmente) me deixou esgotada. Volto para a minha polaridade lúcida, para relaxar um pouquinho.

Atenciosamente,
Simone Paterman



| comentários (3)

:: março 7, 2004 01:43 AM


SIMONE Paterman Brasil tem 24 anos, é pesquisadora e estudante de cinema na UFF.

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