A mão, queimada pelo cigarro, ardia.
No instante em que Magda apagou a luz, não se podia distinguir a brasa do cigarro. A mão avançou para o cinzeiro. Foi rápido. O escuro caía sobre a sala como um relâmpago às avessas. Magda não percebeu. Alguma coisa havia acontecido.
Aquela música não era um blue. Era quase blue. Pensaria nisso, depois, caminhando pela rua, poças e o molhado brilhando? Pensaria em Magda, que tocaria a mão queimada? Ela acabava de afastar um pouco a cortina.
Eu pensava em Inácio, no que Inácio dissera. Esquivar-se de uma situação, afastar-se para examiná-la. Não estava habituado a esse desdobramento, mas é possível quando nada acontece. Tento ver as coisas como se fossem um filme, dissera Inácio.
Não pronunciar o nome de Magda tornava mais simples a operação. Ela era posta do lado de lá, como um filme visto de muito perto, você quase dentro mas fora da cena. A música produzia um clima de expectativa, uma espera, uma iminência. Inácio considerava isso um truque, que naquele momento eu chamava urgência.
A consciência do corpo está no próprio corpo – provinha da dor na mão esquerda. Da mão que ela segurava.
A vista se acostuma e faz o escuro refluir. Distinguia o contorno do corpo. O pouco de luz que vinha de fora não entrava nas áreas mais densas, apenas frisava as bordas: da mulher, dos objetos, um fio de prata. Magda conduzia a mão queimada ao seio.
Tentei ver as coisas como num filme. A mão e a dor se volatilizaram. O silêncio da mulher, a serenidade de seus gestos, a passividade dos objetos cuidavam de afastar a sala. No mais distante de tudo, consegui me perguntar por que pensava em Inácio.
Magda apanhou o cigarro, levou-o à boca. Sem premeditar, sem escolher as palavras, eu falei. Aquilo não era bom para ela. Ela devolveu o cigarro para o cinzeiro, não por causa das minhas palavras, mas porque era assim.
Magda havia tirado a blusa. Tocando-a eu não me sentia próximo dela, mas de Inácio, e o que se consumava tinha nome: urgência.
Então eu a abracei e ela comentou que eu tinha falado igual a Inácio. Não sabia o quê e nem perguntei. Ela completou que ele, nos últimos tempos, também dizia que o cigarro não era bom para ela.
Em algum momento a música cessara sem que percebêssemos.
– Sei que é difícil, mas a gente pode.
– Não chega a ser difícil – eu disse.
Ela afundou a cabeça no meu colo e agora eu podia ouvir as vozes vindo da janela do vizinho. Uma conversa animada. Magda era ágil em seu desejo, o meu era contido. Afastei-me a pretexto de repetir a música, para apagar as vozes. O escuro havia se dissipado, os objetos eram familiares, e Magda se estendeu no sofá enquanto eu ainda estava de pé.
Da janela eu podia ver um grupo de pessoas em volta da mesa. Fechada a janela, a música e a vidraça mantinham as vozes à distância. Reconheci que estava inteiramente de fora. Ela voltara a falar. Primeiro de si mesma, de coisas que não chegavam a formar um sentido para mim. A voz era dela mas a imagem era a das pessoas do outro lado, onde havia luz farta, cores e desordem de gestos.
Deixei a janela, ela falava de Inácio. Olhei o relógio. A chuva tinha parado.
Procurando fazer com que o pensamento coincidisse com o gesto, avancei em direção a Magda, um passo, depois outro, outro, mais outro, ajoelhando-me ao lado do sofá, olhando os dentes claros que se ofereciam, o reflexo de luz nos olhos, olhando a boca iluminada que pronunciava meu nome, olhando o seio que ela me oferecia. O seio era como que uma promessa, para que eu ocupasse o lugar de Inácio.
Eu havia procurado Inácio, para conversar, como prometera a ela. Não seria fácil, eu sabia, e repetia, enquanto caminhava pelo beco de calçamento irregular, escorregadio. Lodo no muro. Portas fechadas. Diante da última porta, as gotas da chuva brilhavam em volta da luz. Rebatendo no prato que protegia a lâmpada sobre a porta, as gotas ganhavam a consistência de metal. A porta estava aberta.
Inácio bêbado. Isso não facilita as coisas?, me perguntei, assentando a sua frente. Inácio estava destinado a facilitar as coisas, e começou a se desculpar. Sua vida se tornou um acidente na minha vida, ele lamentou. Isso não tem importância, respondi. Vai passar, não vai durar muito. Ela me detesta e te adora, confessou, apertando o copo entre as mãos. Abaixou os olhos e deixou a cabeça tombar sobre a mesa, um gesto de desistência, que dificultaria os passos seguintes.
Coloquei a cadeira no outro canto da sala, de onde podia ver a chuva lá fora, as gotas formando o véu ao redor da lâmpada, e ter Inácio de costas. Recordei-lhe a nossa infância, falando baixo. Disse que não seriam os últimos acontecimentos que romperiam o fio da nossa amizade.
Precisava me ouvir melhor e fez grande esforço para erguer a cabeça. Apoiou a nuca no encosto da cadeira. Assim estava bom, parei de falar. E ele disse: é preciso se distanciar de uma situação para vê-la sob uma luz neutra. O álcool me ajuda a fazer isso. Tento ver tudo isso como se fosse um filme.
Dois homens na sala escura, iluminada em parte pela luz que vinha de fora. A luz alcançava o encosto da cadeira e parte do rosto do que falava. A chuva em volta da lâmpada, a sina dos desterrados. Uma mulher esperava um deles longe dali. O filme precisava terminar logo.
Então eu me levantei, tirei o fio do bolso e enlacei o pescoço de Inácio. A luz dava ao nylon um brilho de prata.
Sem a certeza de até onde pudesse ir, prossegui.
Toquei os seios de Magda; eram a consumação da promessa. Ainda era cedo. A música era também uma promessa de blue.
– Você é capaz de me amar? – perguntou, de olhos fechados.
Escolhi um dos sentidos de amar e respondi que sim.
Francisco de Morais Mendes é jornalista e nasceu em Belo Horizonte (MG),
em 1956. Publicou os livros de contos "Escreva, querida" (Mazza Edições, 1996) e "A razão selvagem" (Ciência do Acidente, 2003).
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:: fevereiro 29, 2004 03:10 AM