Andava por Santa Tereza, um pequeno arraial incrustado na capital. Lá, vê-se hábitos antigos, mas também novos costumes. Tem seu lado provinciano e alguns lampejos de cosmopolitismo, como a cidade. Sempre foi assim, desde Drummond, Nava, Renault, dos Anjos que, na década de 20, viviam em uma Belo Horizonte provinciana e levavam uma vida projetando uma metrópole modernista. Tinham mais olhos para os bondes do que para as carroças, mesmo que estas fossem superior em número. Hoje não mudou muito. Continuamos tentando ver um pouco além.
Em Santa Tereza, esse espírito dúbio vive em paz, como as crianças que brincam em sua praça. Ia a uma festa, mas como manda a receita, paramos antes em um bar. Depois, rumo à festa, reparo nesse mesmo paradoxo entre passado e presente. Nas placas do açougue Medalhão, nos botecos copo sujo que mudam sempre de nome mas nunca de cara, no forró que aglomera jovens há mais de dez anos na mesma esquina e nos malandros encostados nos carros, que apenas observam o movimento, à espreita.
A festa foi no futuro extinto Sobradão da Seresta, que já terá fechado suas portas quando o leitor seguir estas palavras. Não faz muito tempo, foi ainda neste fevereiro de 2004. Era uma despedida, de uma amiga, não do lugar. De lá, fui remetido a outra cidade. Enquanto olhava sem ver a vista da praça e o relógio que marcava pouco depois de uma hora da manhã, ouvia o clássico do brega “Sorria, Sorria”, de Reginaldo Rossi.
A música me fez ir até Tiradentes e seus traços barrocos. Lá, onde o arraial impera ainda e resiste. Fui mais especificamente ao Bar da Léa, puteiro conhecido, que sempre invadíamos em época da Mostra de Cinema. Nos primeiros festivais, ficava na divisa entre o centro e a entrada da cidade, numa rua de passagem obrigatória. A canção do Reginaldo era também obrigatória, tocava todas as noites. Tornou-se uma celebração, um hábito, uma memória daquelas bem localizadas, que criam uma imagem correspondente, como um cheiro.
O bar mudou de endereço um tempo depois, mas mantinha a mesma seleção musical. Lembro do disco do Reginaldo estalando na vitrola, gasto. Uma das vezes que fui até lá, no primeiro dia da mostra, o bar ainda estava com seu funcionamento de sempre: prostitutas decadentes, homens de mãos calejadas e traços rudes. O balcão, a cachaça. Não tivemos coragem de entrar, tal era pura a realidade de decadência à nossa frente. Sentamos na calçada do outro lado da rua e assistíamos, pela moldura do pórtico, àquela cena como uma televisão que repetisse um filme ruim. Era de uma poesia um pouco assustadora. Uma das meninas, cuja canela era osso só, dançava com vários homens ao som de baladas estrangeiras. A outra, de cabelo desgrenhado, caia de bêbada e era motivo de escárnio de alguns.
No dia seguinte, os estrangeiros da capital já transformavam o lugar em um ponto de encontro e não se via nada que deixasse entrever a cena da véspera. Voltava a ser a imagem do pitoresco puteiro do interior, sem as moças, porém. A cena se repetiu ao longo de alguns anos. E a Léa sempre com a mesma presteza de matrona respeitada e ciente de seu dever para com as meninas e com os clientes.
Soube depois que o Bar da Léa havia fechado e senti pesar e nostalgia. Tinha, afinal, constituído certa memória ali. Um amigo me disse, no entanto, que era mentira. Falou apenas que ela tinha se escondido mais na periferia da pequena cidade e continuava a trabalhar como sempre o fizera, antes de cinema, de mostra, de turistas atrás do pitoresco. Resolveu dedicar-se ao trabalho que sempre fez, sem os oba-obas de ocasião. Diante do meu sorriso pensativo, meu amigo disse: “Enquanto houver Tiradentes ou gente, o Bar da Léa vai existir. Mesmo que seja só um entreposto, se tiver uns tropeiros que passam de vez em quando, ela vai estar lá”.
Pablo Pires é jornalista e co-editor da revista “Graffiti 76% Quadrinhos”
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:: fevereiro 29, 2004 12:15 PM