O recente relançamento, em edição conjunta da Editora José Olympio com a Funalfa Edições, de Os Anos 40: a ficção e o real de uma época – livro que, em 1973, marcou o início da carreira literária da escritora juizforana Rachel Jardim – destaca uma vez mais a escrita memorialística produzida por vários outros autores de Juiz de Fora, cuja qualidade das criações nessa modalidade é amplamente reconhecida.
Considerar que, no livro em questão, Rachel Jardim recupera aspectos vividos num contexto em que a estrutura social juizforana era marcada por um patriarcado em que a voz feminina era silenciada pela presença hegemônica do homem como chefe da família revela a importância dessa autora no que se refere a questões ligadas ao discurso de gênero. Ainda hoje, verificamos que a escrita feminina ocupa um lugar marginal no quadro que começou a ser estabelecido na Literatura Ocidental, a partir do século XVIII, com o delineamento do cânone. Todavia, essa escrita da mulher – acompanhada de outras formas de discurso oriundas de setores ditos marginais, como por exemplo a literatura dos grupos étnicos desfavorecidos – tem apresentado um considerável grau de complexidade, exigindo da crítica modos de interpretação da produção literária gerada pelas denominadas minorias cognitivas que sejam diferentes daqueles centrados exclusivamente nos rígidos padrões setecentistas. Nesse contexto, torna-se importante a recuperação da obra de uma autora como Rachel Jardim, por ser, há muito, enunciadora de um discurso que já não pode mais passar despercebido aos sentidos da crítica.
É possível detectar, em Rachel Jardim, a elaboração de uma narrativa memorialística do sério, na qual a denúncia da visão conservadora do que deveria ser o padrão de comportamento feminino inscreve-se em inúmeros momentos, evidenciando a quebra de padrões familiares e a tentativa de transgressão das limitações impostas à mulher pelas normas sociais de sua época. A autora recorre ao passado, para construir a narrativa de sua própria história, reconstituindo o tempo de sua infância e de sua adolescência. Para tanto, recorre à descrição dos perfis dos entes de sua família e de outras pessoas de seu convívio (ou das quais teve conhecimento) e à lembrança de fatos, lugares, objetos e filmes por ela assistidos. Em inúmeras passagens de Os anos 40, pode-se perceber que Rachel Jardim visita e esquadrinha as cidades e as suas gentes, revelando-nos minuciosamente as sensações nela afloradas:
“Belo Horizonte era uma cidade estranha. Mentalidade totalmente provinciana, mas ali brotou Carlos Drummond de Andrade, toda a sua geração, e agora, nos anos 40, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Murilo Rubião, Otto Lara Rezende e tanta gente mais. Como é que isso acontecia? Andando pelas ruas, pela Praça da Liberdade, Avenida Afonso Pena, eu entendia por quê. Havia alguma coisa no ar, que umas pessoas captavam, outras não. Era algo quase físico – produto do ferro das montanhas, de uma qualidade especial de solo, da clorofila das árvores? Sei lá. Só sei que existia. Nessa cidade eu me sentia mais acesa, mais sensível do que nunca.”
(Jardim, 2003: 106)
Numa constante escavação, a autora faz uso das lembranças, das opiniões e de outros perfis que foram traçados por pessoas que fizeram e ainda continuam fazendo parte de sua vida. Recupera, num rememorar por vezes doloroso, acontecimentos, sensações, lugares e indivíduos que desvaneceram, porque mortos ou porque a autora, por uma razão ou outra, perdeu de vista.
“Ficava ali, quase pegado ao cinema Metro, na Avenida Copacabana. Havia o edifício Miraí e o edifício Arali. No Arali morava Fernando Sabino. No Miraí, onde nasceu Sebastião, seu segundo filho, Carlos Lacerda. No andar térreo morávamos nós. Papai alugou por causa do ponto. Gente engraçada essa que vem de Minas, com a preocupação de ficar em Copacabana, no meio do barulho e do tráfego. Não é só a procura do mar. Talvez seja porque, saindo da província, onde convivem permanentemente, tenham medo do isolamento, no Rio, onde não são conhecidos. Mas, enfim, mineiro a gente não explica muito.”
(Jardim, 2003: 116)
Na urdidura da memória, Rachel Jardim reconstrói a realidade de uma típica família de classe média dos anos 30 e 40, expondo-nos os valores dominantes da época, tais como a rigidez moral, a constante preocupação com a forma como a sociedade encararia os atos individuais e os modos como alguns personagens lidavam com esses valores. Num universo predominantemente masculino, a autora expõe sua convivência com o lado feminino da família, explorando a narrativa das vidas das primas, das tias e das amigas e refletindo sobre como as experiências delas, de certo modo, influenciaram sua própria formação.
Como é a autora quem manuseia o tecido da memória, percebe-se nele fios que ela não revela, ou seja, há aspectos de maior intimidade que deixam de ser expostos, denunciando, talvez, uma forma de autopreservação perante os moldes impostos pelo meio social em que a narrativa é concebida e inserida. Além disso, as atitudes e as idéias, tidas como avançadas (principalmente porque formalizadas e reveladas por uma mulher) para os padrões dos anos 30 e 40, época a que o texto remete, e mesmo para os anos 70, quando a obra foi escrita, são cuidadosamente tecidas pela autora.
Não se nota em Os Anos 40, a pretensão em se fazer uma narrativa histórica ou uma narrativa memorialística oficial, pontuadas de grandes acontecimentos e de feitos extraordinários próprios de uma caracterização épica. É certo que não se poderia fazê-lo, tendo em vista que essas não são características do discurso memorialístico, tecido a partir de esquecimentos, de fragmentos que se fazem buscar no vazio e situado marginalmente num entre-lugar entre o histórico e o ficcional. Percebe-se, nessa obra, a ocorrência de uma escrita desenvolvida com uma linguagem que é não só de afetos e de amores, mas ainda de dores e de melancolias, porque é também uma narrativa da perda daquilo que se tenta em vão recuperar tal como ocorrera no passado.
Finalmente, por se tratar de uma escrita memorialística feminina tecida a partir das experiências da autora no meio notadamente machista e conservador dos anos 30 e 40, deve-se ressaltar que é, outrossim, uma narrativa marcada pelos silêncios. Nessa escrita, determinados fios/signos deixam de ser utilizados, permitindo que – através da construção e da desconstrução, do tecer e do desfiar das memórias – Rachel Jardim, ainda que através de outros personagens, não só revele o seu próprio perfil, mas também o esconda, velando outros elementos que não seria conveniente evidenciar.
.OS ANOS 40: A FICÇÃO E O REAL DE UMA ÉPOCA.
. De Rachel Jardim
. 5.ª edição, José Olympio Editora – Funalfa Edições, 2003, 192 páginas.
Édimo de Almeida Pereira é mestrando em Letras – Teoria da Literatura, pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
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:: fevereiro 29, 2004 01:30 AM