Prefiro fofocas, meu amor, à pátria
A saúde do brasileiro vai muito bem, obrigado. Os ricos pagam para morrer cheios de tubos. Os pobres morrem como Deus é servido. Mas meu assunto não é a saúde de hoje, e sim as doenças (e os remédios) do século 18. Naquela época, o barbeiro-cirurgião português Luís Gomes Ferreira “clinicou” mais de 20 anos no Brasil, principalmente em Ouro Preto e Sabará. Em 1735, publicou em Lisboa o livro “Erário Mineral”, uma compilação de doenças, remédios, exemplos de curas e relatos diversos sobre sua experiência médica. O livro, além de raríssimo, é de extrema importância, por mostrar como era a medicina nas Minas Gerais colonial. Gomes Ferreira pesquisou e utilizou muitas das plantas e dos minerais que hoje são reconhecidos como valiosos. Daí o grande interesse do seu livro, em que mistura ciência e superstição. Por causa disso, teve uma edição fac-similar em 1997, e uma nova edição está sendo preparada pela Fundação João Pinheiro. Não sendo médico, peço desculpas por transcrever algumas receitas – engraçadas ou estranhas – colhidas no dito “Erário”, que tive a sorte de ler. Modernizei a linguagem do original, para torná-la acessível a quem não está acostumado com textos antigos. Mas não mexi na pontuação, no vocabulário ou na saborosa sintaxe do autor. Acredito que todos, médicos, historiadores ou simples curiosos, lucrariam muito conhecendo o livro. Nem que seja apenas pela leitura de uma obra notável e curiosíssima. Por enquanto, lá vai o aperitivo.
PARA CURAR IMPOTÊNCIA
“Aqueles que, sendo moços robustos e muito potentes para com suas mancebas, casando-se, se acharam incapazes de consumar o matrimônio. Estes, que se defumem as suas partes vergonhosas com os dentes de uma caveira postos em brasas, e sem mais outra alguma diligência ficarão capazes dos atos conjugais, sem dúvida alguma.”
APARTANDO AMANCEBADOS
“Tomem o esterco do amancebado, metam-no nas solas dos sapatos da manceba, ou nas palmilhas deles; e o esterco da manceba o metam nas solas ou palmilhas dos sapatos do mancebo, que logo se aborrecerão de modo que não poderão ver um ao outro, e se apartarão, sem que ninguém os obrigue. É remédio de virtude oculta, como são muitos.”
PARA QUEM COME BARRO
“Deitai um punhado de terra de qualquer cova de defunto em uma vasilha de barro de boca estreita e, enchendo-a de água, desta água dareis a beber à pessoa que come barro, e o não comerá mais. Uma donzela houve, que comia tanto barro que nem conselho de confessores, nem de seus pais, nem o temor da morte foram nunca bastante para largar tal vício. E bebendo água com terra de sepultura, como acima fica referido, ficou com tal asco que nunca mais comeu barro.”
DEFUNTO DE BRUÇOS
“Um matador não sairá da presença do defunto, enquanto o defunto estiver de bruços. Eu assim o vi no arraial de cima junto à Vila do Carmo, que caindo o defunto de bruços com uma facada no coração, andava o matador perto do defunto, e à sua vista, como pasmado, ou peado, sem poder fugir. E tanto que um homem virou o defunto de costas, logo o matador fugiu.”
PARA NASCER CABELO
“É experiência certíssima que, rapada a cabeça à navalha quatro ou cinco vezes, e untada com sebo de homem esquartejado, ou com o seu óleo pelo tempo de um mês, faz nascer cabelo. E se untar a cabeça dois meses com o dito sebo, nascerá tanto que não se terá vontade de mais. Uma moça formosa e rica deixava de casar por ser calva, e untando a cabeça dois meses com o dito sebo, lhe nasceu tanto, que casou e viveu com muito gosto.”
PARA NÃO NASCER CABELO
“Esfregar a cabeça, ou qualquer outra parte, onde não quiserem que nasça cabelo, com o sangue de uma rã de ribeirão corrente, não nascerá, ou não tornará a nascer. Arrancar os cabelos, e untar aquela parte com o sangue de um morcego, não deixa nascer o cabelo por muitos anos. Quem esfregar a parte depois de tirados os cabelos com sangue de cágado, conseguirá o não tornarem a nascer. Esfregando a parte com esterco de gato, misturado com vinagre fortíssimo, várias vezes por dia, fará cair o cabelo.”
COMO TIRAR DENTES
“Toma-se um lagarto negro dos que andam nos rios, ou lagoas, que a meu parecer são aqueles que no Brasil se chamam jacarés. Tiradas as suas entranhas, seque-se o tal lagarto no forno, de tal modo que se faça em pó, no qual pó se porá o dedo indicador molhado, e depois se porá o tal dedo com os ditos pós em cima do dente, tocando também a gengiva em redor dele. E pondo-se outra vez o dedo com os pós em cima do dente, em pouco espaço de tempo pegando nele cairá logo.”
PICADA DE CASCAVEL“O melhor remédio para mordedura de cascavel, sobre todos quanto os autores têm descoberto, e a indústria dos homens tem penetrado até o dia de hoje, ainda que seja áspero, e horroroso de se tomar pela boca, é o esterco humano desfeito em qualquer líquido, e bebido na quantidade que a cada um lhe parecer.”
Para terminar, uma das muitas receitas “para que os bêbados aborreçam o vinho”: basta dar-lhes o vinho em que se deitou uma fatia de pão, que tenha estado durante duas horas no sovaco de um agonizante. É tiro e queda.
Legendas:
Esqueleto rezando:
Pobre rezando antes de ser internado
Esqueleto pensando:
Rico pensando na conta depois de curado
Sebastião Nunes é escritor, poeta, editor e artista gráfico. Como poeta, tem onze livros de poesia experimental editados. Como ficcionista, publicou, entre outros, "Somos Todos Assassinos" (Dubolso, 80, 81, 95, e uma edição comercial pela Editora Altana, de S. Paulo, 2000).
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:: fevereiro 29, 2004 01:31 AM