
Fora um trabalho árduo, quanto a isso não há dúvidas. Coisa de uma geração inteira, sem contar os preparativos. Planos intrincados. Não havia a possibilidade de deixar sequer poeira sobre aqueles dias de. Envolveram-se, pelo que disse um homem da maçonaria numa esquina, até mesmo evangélicos e políticos. O serviço, o fardo, demandara muitos pares de mãos, hábeis em dar cabo desse tipo de. Os objetivos, tratados com precisão matemática nas epístolas prévias (todas incineradas antes mesmo do início da operação), estavam tatuados no tampo de suas memórias. E somente lá. Foi o necessário para que tudo saísse como deveria ter saído. Ou seja: ninguém na cidade notaria a ausência após a execução do engenhoso projeto. Engenhoso e grandioso, o maior que essas ruas já viram – como expressou um homem, de formação militar, talvez integrante da enorme equipe. Após um dos encarregados pelas principais instruções ter verificado, ficou claro que qualquer ato consumado durante as madrugadas são um gesto potencialmente suspeito. Mesmo que não haja ninguém à espreita. Por isso, a opção pelos momentos mais tumultuados do dia – e havia muitos deles. Ao meio dia, horário em que foi resolvida pelo menos a parte mais importante do plano. Eis que, após aquele mês inteiro de trabalho ininterrupto, o Conselho avaliou – até hoje se discute se tal conclusão equivocada não precipitara o que veio depois – que, de fato, a engenhosidade do plano superara em muito seus objetivos. Um dos relatórios – que também foi destruído – dava conta de que os métodos empregados, apesar de relacionados à violação física e até mesmo psicológica, foram “um mal necessário”. O lugar para onde foram mandados (...) povoaram a memória das gerações anteriores, mas que deixariam as futuras em paz, principalmente as crianças brancas, jamais foi mencionado. Talvez fossem vários, distantes. Ou não, um porão ali mesmo, abafado, úmido. De fato, como planejado, não sentiu-se ausência da numerosa (...). Desapareceram no tempo. Chegou-se a cogitar uma forma de exportar e implementar tal prática, com os mesmos requintes de precisão e cálculo, em terras distantes que sofriam do mesmo mal. Foi à época em que começou-se a articular essas outras intervenções que detectaram o “fator inesperado”. Alguns fingiram não perceber, alegando outras razões obscuras para o decréscimo. Havia até inocentes (religiosos, como ficou claro) masturbando-se com a idéia de que era uma espécie de vingança inevitável. Não era. Mas o pavor acabou com a dissimulação quando o grupo, o próprio Conselho e os mais ilustres membros do plano (talvez até mesmo seu criador) passaram a figurar na lista de desaparecidos não autorizados. Num certo dia, em que restavam apenas alguns convictos e as ruas já andavam silenciosas, chegou-se a exigir em voz alta: “Que se apresente aquele que deu origem ao plano!”. A cidade, ainda à espera da resposta, atravessa neste exato momento um trecho escuro, sem estrelas no céu, de sua noite, a mais fria do ano.
Vitor Hugo Munaier, 24, jornalista e dono de estabelecimento em que se comercializa bebidas alcoólicas na histórica Sabará.
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:: fevereiro 29, 2004 01:45 PM