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Macarrão Instantâneo
por Ana Paula Mangeon

Eu olhava a fervura levantar na panela enquanto ele comia um pedaço de queijo curado com garfo e faca. Estava concentrado nos mosquitos que sobrevoavam um cacho de bananas que de tão pretas pareciam assadas e cheiravam forte. Cheiro de banana velha é bom, murmurou. Come então, ué? Eu disse cheiro, não gosto. Então tá, não come... Eu aceito sempre tudo, a última palavra é sempre dele e a vida é fácil assim nesse constante sim senhor. Ele sempre vai mesmo embora. Cadê a chave do carro. Na mesinha do telefone, na segunda gaveta, do lado das páginas amarelas de 99. Você tem sempre que ter essa precisão? É pra facilitar. Eu nunca digo sei lá, procura puto, mas às vezes queria. O telefone está tocando! É sempre para ele, mas sou eu que atendo. Pois não, vou chamar. Falo no ouvido quem é, não grito. E ele levanta mal humorado e diz que preciso dum telefone sem fio. A água a cem graus, o macarrão faz espuma. Apago o fogo. Escorro. Sento, misturo o tempero, como de colher pra poupar trabalhos, com os pés descalços cruzados sobre a cadeira. Ele volta arrumando a gravata, veste o paletó, encosta no umbral da porta da cozinha pequena. Esse troço tem um cheiro enjoado. Eu mastigo de boca aberta para provocar. Você é mesmo uma criatura muito fuleira! Levanto, me aproximo com olhar vira lata. Que foi? Cravo-lhe a mão miúda entre pernas, dou um beijo de galinha caipira. E aí ele entende o sabor que eu tenho e que gosta e então me saboreia como um gourmet que degusta a mais fina iguaria. Nessa hora eu sou seu caviar. Sobre a mesa ele é meu prato feito.

ANA Paula Mangeon tem 26 anos e foi nascida e criada em Niterói, Rio de Janeiro. Ex-publicitária por formação, atualmente hoteleira, eventualmente gira o mundo como camareira a bordo de um navio de cruzeiros. Ana Paula escreve por compulsão e mantém os blogs Macabeah, Versos Desconexos e Ana Toda Prosa.



| comentários (11)

:: março 7, 2004 12:56 AM



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