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Os olhos penetrantes
por Paula Foschia

Por Paula Foschia


- Marcelo, a gente precisa conversar.

Perigo. Perigo. Quando Fernanda começava o diálogo com a famosa frase e o famoso tom, estava por vir alguma bomba.

- Fala, Fê ¾ ele quase gemeu de medo e uma pontinha de preguiça. Já não tinha mais paciência para discutir a relação.
- Olha, eu não sei direito como te dizer isso... É que eu conheci um cara.
- Como é que é? Você conheceu um cara?
- Isso. E a gente se apaixonou à primeira vista.
- Mas como? Quem é esse cara?
- Eu não sei quem é o cara.
- Como assim não sabe, Fernanda? Como assim não sabe? Você não disse que vocês se apaixonaram?
- Isso.
- E você não sabe quem é o cara?
- É, não sei.
- Mas onde foi que você conheceu esse pulha, então?
- Eu não sei que lugar era aquele...
- Ah não, Fernanda, você só pode estar brincando comigo! Você se apaixona por um cara que não sabe quem é, e não se lembra nem onde foi? Você por acaso estava bêbada?
- Não, claro que não! Você sabe que eu nem sou de beber muito.

Marcelo não sabia mais o que perguntar. Estavam juntos a mais de cinco anos e ele nunca esperara uma notícia daquelas de Fernanda, que tinha sido sempre tão fiel. Ela respirou fundo:

- Foi um sonho...
- Ah não, Fernanda! ¾ Ele interrompeu. ¾ Pelo amor de Deus me poupe dos detalhes.
- Não, você não está entendendo. Foi um sonho mesmo. Essa noite. Eu estava numa roda de amigos e me apresentaram a ele.
- Ele quem?
- Eu não sei, Marcelo! Só sei que olhei para ele e tchuns.
- Hein?
- É, eu olhei para ele e senti uma coisa no estômago. Então eu vi nos olhos dele que ele estava sentindo a mesma coisa. Uns olhos negros, Marcelo, uma coisa muito louca. Como se a gente tivesse sido feito um para o outro, desde sempre. Justamente quando eu ia perguntar o nome dele, você me acordou para ir à praia.

Ele ficou aliviado:

- Ah, Fernanda! Era isso, então? Você teve um sonho? E eu aqui, desesperado!
- Mas Marcelo!, eu estou te falando que não foi um sonho comum, foi um sonho muito especial.
- Sonho é sonho, amor, não é realidade.
- Aaaaah, mas eu resolvi te contar o meu sonho porque eu sei, Marcelo, eu sei que eu ainda vou encontrar aquele homem. E no dia em que isso acontecer, eu sou capaz de fazer uma loucura.
- Mas Fê, a gente não esbarra por aí com gente desconhecida com quem a gente sonha. Isso é maluquice da sua cabecinha.
- Bom, eu achei que tinha que te contar, afinal a gente tem um pacto, lembra?
- Claro que lembro: nunca cornear. Se rolar uma paixão paralela, primeiro a gente conta, termina tudo e só depois fica com a nova pessoa.
- Então, Marcelo! Foi por isso que eu resolvi te contar do sonho. Porque quero te dar o direito de terminar comigo antes que qualquer coisa aconteça.
- Imagina se eu vou terminar com você por causa de um sonho! Meu amor, sonho não conta. Eu não tenho ciúmes do que acontece com você enquanto você está dormindo.

“Mas o problema é que eu sei que ainda vou encontrar aquele homem”, ela repetiu de si para si. Tinha visto aquilo nos olhos negros dele.

- É o destino. ¾ Ela achou melhor encerrar o assunto. Tinha dado a ele a chance de terminar tudo e, se ele preferia esperar e sofrer no futuro, era problema dele. Por enquanto, ela ainda o amava.

Cinco anos. Cinco anos juntos e ela vinha com aquela história de sonho e paixão à primeira vista e olhos negros e direito de terminar com ela. Cinco anos. Ora, um sonho era um sonho, pensou Marcelo, e se ela estava precisando de uma aventura, antes fosse num sonho mesmo, com um cara que ela nunca tinha visto mais gordo e que nem existia.

Se bem que aquele “é o destino” dela, antes de girar nos tornozelos e entrar no banho, tinha sido profético demais. Por causa daquela frase, Marcelo resolveu apurar melhor o assunto à noite, enquanto assistiam ao Fantástico.

- Fê, posso fazer uma pergunta?
- Claro.
- Sobre o tal carinha do sonho. Como ele era?
- Ué, Marcelo, por que você quer saber isso?
- Nada não, só para saber, mesmo.
- Ele era bem moreno, com cabelos escuros e lisos, feito de índio, assim, meio compridos ¾ ela levou as mãos até os ombros. ¾ E olhos negros muito penetrantes.

Marcelo não estava gostando nada daquela história. Na hora, fingiu um certo desinteresse no assunto e não fez mais perguntas. Mas resolveu ficar de olho.

Passava um olhar de raio xis em qualquer lugar que frequentassem e só deixava Fernanda circular sozinha nas festas depois que tinha certeza de que o tal índio muito penetrante não estava por perto. Alguns meses se passaram e nada. Fernanda nunca mais tocou no assunto e, aparentemente, tinha até esquecido o sonho.

Mas Marcelo não esquecia. Não satisfeito em fiscalizar todos os eventos sociais do casal, um dia o namorado semi-traído acordou alguns minutos mais cedo e, em vez de fechar os olhos correndo e dormir mais um pouco antes que o despertador tocasse, ficou acordado, olhando para Fernanda, que dormia pesadamente abraçada a um urso cor-de-rosa. Queria ver se ela estava sonhando, mas ela não deu qualquer pista.

No dia seguinte, ele acordou ainda mais cedo. Dessa vez, de propósito. E ficou de olho novamente. Mas Fernanda tinha um sono muito tranqülo, se mexia muito pouco.

O ritual passou a se repetir diariamente, e cada dia Marcelo acordava mais cedo e olhava para Fernanda mais de perto, começava a perceber padrões no sono da namorada, como quando ela apertava o urso contra o peito e ajeitava a cabeça no travesseiro, ou quando se encolhia toda e puxava a coberta até os ombros.

Até que um dia, às cinco da manhã, Fernanda acordou de repente e encontrou Marcelo praticamente encostado no seu nariz, os olhos semi-cerrados e investigativos.

- Ai, Marcelo, que susto! Que horas são?
- São cinco da manhã.
- E o que você está fazendo acordado e olhando para a minha cara?

Marcelo poderia ter dito que tinha acordado por causa de um pesadelo e que estava ali, admirando a beleza dela. Mas não, que homem nunca é esperto de mentir na hora certa.

- Eu estava querendo ver.
- Querendo ver o que?
- Se você sonhava com o tal cara de novo.
- Que cara? ¾ Ela perguntou, ainda sonolenta.
- O cara do sonho, aquele por quem você se apaixonou, lembra?
- Meu Deus, Marcelo, isso tem tanto tempo! Eu nem lembrava mais!

E de fato já fazia meses que ela tinha sonhado com o homem dos olhos negros. Ele não acreditou quando ela disse que nem lembrava do sonho, mas resolveu deixar quieto e continuou sua rotina de fiscalização da vida social de Fernanda e, é claro, de sua rotina noturna, ainda mais perigosa. Foi pego em flagrante mais duas ou três vezes, mas Fernanda já nem se emocionava mais com o assunto. Quando acordava no meio da noite e dava de cara com Marcelo, olhos arregalados e atentos lhe encarando, fazia tsc tsc, virava para o lado e dormia de novo. Ele que perdesse suas horas de sono.

E ele perdia mesmo, como denunciavam suas olheiras. Não agüentava mais aquela tortura de saber que, mais cedo ou mais tarde, seria corneado. A história toda já vinha se arrastando há quase um ano quando, finalmente, Fernanda aplicou-lhe o já esperado golpe final:

- Marcelo, a gente precisa conversar.

Ele já sabia

- Eu já sei, Fê.
- Como assim, você já sabe?
- Você conheceu o cara.
- É, eu conheci um cara, estou apaixonada.
- Eu sei, eu sei.

Ela franziu as sobrancelhas. Mas prosseguiu.

- Marcelo, eu não cumpri o nosso pacto. Não deu. Eu conheci o cara e simplesmente rolou, não deu para controlar. Eu sei que a gente tinha combinado de terminar antes, e eu não queria ter chifrado você, mas eu juro que não deu.

Marcelo estava arrasado. Menos pela revelação, já tão previsível, mas mais pela sua via-crucis, que já durava quase um ano. Um ano de noites mal dormidas, um ano de festas, cinemas e boates que se traduziam em preocupação constante, um ano durante o qual aquela sensação de ser corneado, que deveria agora pegá-lo de jeito, tinha sido diluída em gotículas de desgosto e sofrimento.

- Tudo bem, Fernanda. Você não descumpriu o nosso pacto. Você me avisou, fui eu quem não quis terminar.
- Como assim, eu te avisei? Eu conheci o Rogério ontem, no trabalho!
- Então, o cara dos olhos penetrantes.
- Hein?
- O cara do sonho, Fernanda, você conheceu o cara do sonho!
- Claro que não! Meu Deus, aquilo foi só um sonho! E já tem tanto tempo que eu não acredito que você ainda se lembra disso, Marcelo!
- Quer dizer que você não conheceu o cara do sonho?

Ela bateu a porta e nunca mais quis olhar na cara dele. Só voltou para pegar suas coisas, já encaixotadas, num dia em que Marcelo deixou as chaves com o porteiro.

Marcelo sempre lembra de Fernanda com um sorrizinho de canto de boca, e o chifre nem dói tanto quando ele pensa que, um dia, Rogério também será trocado, pelo índio dos olhos penetrantes. Era o destino.



| comentários (2)

:: março 7, 2004 12:52 AM



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