 Antes do Riso, de Rodrigo García Loyer
|
Apesar da prosa barroca e sofisticada, Antes do riso afunda em imagens gastas
Não foram somente teóricos da literatura: muitos escritores que dedicaram parte de sua obra ao gênero chegaram a conceber conceitos próprios sobre o “conto”. Cortázar ressaltava haver nas narrativas breves um poder latente entre “fugacidade” e “permanência”, capaz de criar uma tensão que venceria o leitor “por nocaute”, e não “por pontos” (como ocorre nos romances). Machado de Assis, talvez o maior entre os nossos, alertava para a imensa complexidade que se esconde sob a tarefa aparentemente simples de elaborar em poucas páginas uma trama envolvente. Carnavalizando o debate, Mário de Andrade vaticinou: cabe ao próprio autor definir se o texto que criou deve ser considerado um conto ou não. Uma das mais precisas definições, contudo, veio do argentino Ricardo Piglia. Em suas “Teses sobre o conto”, ele enfatiza que a principal característica do gênero é narrar, paralelamente, duas histórias – uma aparente e a outra secreta. Este fio que se desenrola quase que silenciosamente em algum momento se revelaria, despertando “verdades secretas” que jazem sob a “capa” do texto propriamente dito.
Tantas voltas em torno de conceituações poderiam indicar um deslocado “nariz de cera”. A intenção do primeiro parágrafo desta resenha, entretanto, é tão-somente explicitar a diversidade de limites a que o gênero está sujeito. E indicar uma opção. Ao ler “Antes do riso”, coletânea de contos de Rodrigo García Loyer, tive por todo o tempo a meu lado a companhia espiritual de Piglia. Sim, porque malgrado a prosa sofisticada e elegante do jovem autor, e seu jeitão “barroco”, os nove textos que compõem a obra pecam por esmagar justamente a riqueza maior apontada pelo escritor argentino – o tal fio invisível.
As tramas vividas por personagens introspectivos, que enfrentam profundas mudanças internas e vêem-se às voltas com acertos pessoais e reminiscências, deixam patente demais aquilo que deveriam apenas sugerir. Infelizmente, servem muitas vezes apenas de pretexto para que García Loyer analise questões – pertinentes, diga-se – sobre solidão, amadurecimento e inadequação, seus principais temas. É o caso, por exemplo, de “Para entender o seu sorriso” – belo título, como o do livro aliás –, que retrata o reencontro entre a mulher já crescida e o padre que abençoara sua Primeira Comunhão. “Seus movimentos dentro da igreja emanavam algo assim como uma sabedoria e uma infinita certeza”, comenta ela, ao observá-lo anos mais tarde, numa das muitas alusões ao “amadurecimento” que ficam à beira do clichê.
O problema se repete em “S. O. S”, conto que narra as agruras sofridas por Isabela ao comandar, em pleno quadro de gravidez, um seqüestro político. Com referências veladas à história latino-americana, o autor, chileno de nascimento, tenta fazer com que o leitor acompanhe as modificações por que a personagem passa no processo de transformação da militante fria em futura mãe. “Agora estou vendo as coisas de maneira diferente. As prioridades mudaram”, assinala o narrador, valendo-se de outra imagem gasta.
É um traço evidente de “Antes do riso”, aliás, esse trafegar constante numa corda bamba entre a boa metáfora e o lugar-comum. O que por vezes ocorre dentro do mesmo conto – caso do próprio “S.O. S.”, que traz, ao lado de obviedades como a citada acima, assertivas ricas em lirismo, como a pronunciada pela mesma Isabela, no momento em que medita sobre o trauma de um aborto feito há alguns anos: “Essa dor indescritível que parecia vir de antes de nascer, como se a alma se solidificasse na dor e mostrasse uma grande fenda viva que treme como menor pensamento, com o menor sentimento”.
Outro bom exemplo da oscilação entre banalidade e bons achados que se repete pelas 92 páginas está em “O autógrafo”. A protagonista Alice, sentada num banco de praça, observa calmamente a paisagem, e depois de algum tempo conclui: “Era sempre diferentes dos postais”. Apesar de recheado de assertivas gastas como esta, que podem irritar leitores mais exigentes, o conto cresce progressivamente, culminando na deliciosa descrição de uma inusitada paixão, que se desvela durante uma partida de tênis. Alice sente-se escolhida pelo tenista “ao ver a bola no ar, enquanto uma fina corda estica cada vez mais a sua emoção”.
Além da inconstância entre interessantes construções poéticas e clichês, em alguns momentos, na ânsia de expor suas obsessões, Garcia Loyer recai na inverossimilhança. Isto fica claro em “Risos” e em “E serei mulher”, o conto que abre o livro. Ainda que sublinhe a maturidade da protagonista, soa incompreensível que uma menina de 14 anos formule frases como: “Essa correnteza estranha de quando você não sabe e que sentimos ao balbuciar certas coisas ou num roçar inesperado de mãos e que me faz caminhar serena e tensa ao mesmo tempo”.
É realmente uma pena que “Antes do riso” se perca em tantos problemas, que a grosso modo podem ser sintetizados numa afirmação de Branca, a escritora que protagoniza “Lua-de-mel”. “Essa é a minha proposta, de ajudar a começar um caminho de abertura em todos os âmbitos da vida; que não fosse só uma resposta, mas uma alternativa e talvez uma solução aos problemas que estamos vivendo em nosso tempo, à solidão, à falta de comunicação, à injustiça, ao vazio”, explica a personagem. Explícito e emblemático que tamanha pretensão tenha afundado na insistência em apontar, com os dedos em riste, “soluções”, quando nem sempre é dado à literatura tal papel.
Marcelo Moutinho é jornalista e escritor.
| comentários (0)
:: março 7, 2004 01:32 AM