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Eu acredito
por Clarah Averbuck

Eu acredito. Sou uma crédula. “Crédula” foi a melhor maneira de traduzir “believer” que eu achei. Na verdade, queria dizer “acreditadora”, mas não existe e é muito feio. Pois bem, eu sou uma crédula. Eu acredito.

Acredito em felicidade. Em amor à primeira vista. Nos meus amigos. Em perdão e redenção. Acredito em astrologia, acredito em quem olha nos olhos e aperta a mão com firmeza. Acredito nos sinais que a vida manda, nas pessoas que aparecem no nosso caminho, acredito que tudo está ligado a alguma coisa maior. Não necessariamente deus. Mas acredito em alguma coisa que está aí, por todos os lados, respirando em cada gatinho, cada vida nova, cada flor, cada esquina. Simplesmente acredito.

Acredito quando meu marido me aperta e sussura que me ama. Quando minha filha sorri aquelas gengivas sorridentes banguelas e puras dos bebês, os olhos de quem está apenas observando, aprendendo, sem julgamento. Acredito que existe um lugar para mim, assim como existe lugar para todo mundo. Porque existe lugar para todo mundo. É só procurar. Eu acredito.

Acredito nos caminhos certos, em destino, no inevitável, seja ele bom ou ruim. O ruim sempre tem algum lado bom, mesmo que isso só seja descoberto depois de muito tempo. Acredito no tempo. O tempo é nosso amigo, nosso aliado, não o inimigo que traz as rugas e a morte. O tempo é que mostra o que realmente valeu a pena, o tempo nos ensina a esperar, o tempo apaga o efêmero e acaba com a dúvida. O tempo não tem pena de charlatões, o tempo é implacável e não pára nem por um segundo.

Acredito quando meu gato ronrona nas minhas pernas, acredito quando vejo meus pais casados há 25 anos, desde os 19. Acredito na arte, acredito na força criadora que move certas pessoas que nasceram para mover o mundo, para fazer diferença.

Acredito nos livros que leio, nos autores que deram a vida e o sangue por suas obras. Acredito nas músicas que escuto, acredito no blues sofrido, acredito no rock desesperado. Acredito no sofrimento e na dor, em sangue e vísceras, porque é daí que vêm as melhores coisas. Sem sangue nada faz sentido, sem sangue vira plástico. Eu acredito em sangue.

Acredito que tudo pode melhorar. Que nada é tão ruim que não possa piorar. Acredito em gozar junto, em romantismo, em cumplicidade, em risadas e lágrimas. Acredito que acreditar me mantém viva. Acredito que quem não acredita, não sabe viver direito. Viver sem acreditar é como morrer acordado. Acredite. Não, não li nada disso em algum livro barato de auto-ajuda. Isso tudo foi a vida que me contou. E eu acredito na vida.



| comentários (2)

:: março 7, 2004 01:13 AM



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