 O Remetente, de Luiz Arraes
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Contos mínimos, breves, diretos. As narrativas de ‘O Remetente’ são flashes a espocar momentos, instantâneos. Em ‘A Porta’, diz-se que portas não são paredes, o que talvez possa parecer muito óbvio, mas as coisas nunca são tão simples assim. Em ‘O Tudo e o Nada’ não há medo em se misturar as grandes palavras, os grandes totais, os enormes detalhes que, conforme a ocasião deixam de ser detalhes.
Os detalhes, no entanto, são o grande mote do livro como um todo. De detalhes é montada a vida e a literatura e faz parte da arte do autor conseguir nos enveredar por alguns caminhos insuspeitados. Por mais curto que seja o conto (há alguns com somente um parágrafo, por exemplo) nunca saberemos onde iremos parar. Não há como. Mesmo que nada aconteça. O ponto inicial conduz-nos sempre a surpresas. Arraes é um artífice de estradas tortuosas, mesmo que pareçam tão simples!Em ‘Para Rousseau’ (homenagem ou ironia) o universo de um personagem (e da nossa expectativa) modifica-se visceralmente
“Andava. Apenas andava. Sem querer ir a lugar nenhum. Sem muito menos querer voltar. Nunca se chega a lugar nenhum, filosofava. A volta é sempre possível, pensava. Há somente um caminho, uma travessia como já se disse. Andava. As ruas lhe eram familiares já que era a primeira vez que ali passava. A vida agora seria assim: sem passado, nem futuro. Sem memória e sem projetos. Andava, as mãos no bolso. Era um homem feliz.”
O silêncio toma um lugar preponderante. Silêncio que corrói e destrói a vida de duas pessoas em ‘O Padre e o Turco’. Silêncio é o que proporciona um personagem em troca de ouvir ‘a’ voz de determinada mulher; o título do conto: ‘A Voz’. Nem palavras, nem gestos, nem sons são necessários para o amor em ‘O Inominável’. E, obviamente, como em qualquer coisa, tudo pode ser ao contrário.
Por outro lado, de uma forma completamente diferente, Arraes consegue construir um clima de suspense impressionante em ‘O Brilho’ com somente cinco pequenas frases. Até caberia nesta resenha, mas não vou transcreve-la, só por sacanagem.
Desta forma, este livro de Luiz Arraes, também autor de, entre outros, ‘PALAVRA POR PALAVRA’ e ‘O DESAPARECIDO’, lança comentários sobre o nosso inefável cotidiano, sempre presente e trivial, mas quase nunca enxergado.
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:: março 9, 2004 06:31 PM