Conversar com alguém através da internet é bem contraditório. Por um lado, a óbvia maravilha tecnológica que nos permite comunicar por enormes distâncias em pouquíssimo tempo. Até aí, tudo bem. Mas é sempre uma pena a falta do contato olho a olho, voz a voz, a sensação da presença. Mesmo porquê, não gostaria de ter uma conversa formal, fechada, ´acadêmica’, uma Entrevista, com Mara Coradello, com perguntas bonitinhas e ‘razoáveis’ (ainda que estas tais perguntas acabassem surgindo de qualquer forma no meio do papo). Haveria que se sentar em um bar, tomar um chope, deixar correr o tempo e, assim, discorrermos sobre as ‘considerandas’ questões literárias, ou de vida (caso pudéssemos distinguir umas das outras) e, quem sabe, no meio da noite já estivéssemos conseguindo resolver o problema da educação e do analfabetismo brasileiros, o desemprego e a economia, montaríamos planos de condução dos Escritores ao status de popstars, tudo através de uma Revolução, ou não, conforme o nosso humor no momento. Paciência. Com certeza, tomaremos o chope, ou as pingas, em Parati, na Festa Literária. Em sendo assim...
Qual bar (e esta é a minha primeira pergunta) aí do Rio poderíamos ter sentado para conversar? Qual é a balada que Mara curte? E o que beberíamos além de chopes?
Vamos voltar um pouco na sua história. Leio na orelha do seu livro: “Mara Coradello nasceu em Vitória, Espírito Santo, em 28 de junho de 1974, às 23 horas e trinta minutos. O Colecionador de Segundos é seu primeiro livro”. Isto é fantasticamente pouco. Nas poucas conversas telefônicas que tivemos, os meus ouvidos paulistanos captaram em cheio todos os sss e rrrrs característicos. Isso significa que, no mínimo, você já está algum tempo em território carioca. Sua família é de lá? Foi você que veio sozinha ou foi mudança familiar mesmo? Qual o sentido da Literatura para você? Lembro certo tempo atrás você mudou o endereço do seu blog porque, até onde entendi, estava havendo um certo tipo de pressão e de cobrança por um certo tipo de literatura ou pela posição de Escritora. Imagino que a publicação do livro tenha ajudado a aumentar esse tipo de pressão, por um questionamento permanente de sua produção e a exigência de uma ‘qualidade’ literária. Foi isso mesmo? Ou estou confundindo as informações, os posts? Ou a cobrança era sua mesmo, interna, pessoal? Houve um tempo de maturação para o livro. O Colecionador de Segundos é um apanhado dos seus escritos ou ele foi formatado dirigido como uma obra em si? Como você encara a construção do blog? Ele serve como um laboratório direto de sua literatura (isto é, a escrita é sempre feita Para o blog, direto no teclado) ou ele serve como um instrumento de divulgação (instrumento privilegiado que seja) para uma escrita feita à parte? De qualquer maneira, o fato de ter um livro Impresso publicado dá uma outra dimensão ao que se escreve. Em que medida isso modifica sua forma de escrever posteriormente? Aliás, falemos do anteriormente: como aconteceu a aproximação do pessoal da 7Letras? Como foi esse processo? Leio: “Degustar a degustadora” (“LATICINIOS”); “Há homens para todos os olhos. E todos os tipos de crítica, mas nada melhor do que lê-los num dia chuva” (“LIMBO”); “Tão denso quanto leite moça ele achava bonito ver seus seios de perto, estreitos e presos na blusa fórum de tais encantos” (“MARCAS DE AMOR”). Há um grande sentido de humor rasgado, irreverente, sarcástico até, no livro. Não sei até que ponto está sendo consciente, mas este humor não está mais tão presente no blog. Está havendo algum tipo de inflexão em sua escrita? Qual é o caminho que você está percorrendo agora? Ou está havendo uma continuidade, um adensamento das coisas que já estava escrevendo? Paraty e Paralelos. Acredito que sejam duas palavras com um peso bem considerável em sua vida. Como foi declamar em público seus textos? Vai ter algo semelhante na próxima? Como foi a festa depois? E como vai ser a festa na próxima FLIP?
***
Claudinei,
Antes de qualquer coisa tenho que contar que “falo” muito mais a verdade escrevendo do que falando. Então a entrevista por e-mail é vantajosa, ao menos para quem prefere a verdade...rs.
Bares que amo
Em relação a onde tomaríamos um chopp, gosto de alguns restaurantes, tão diferentes entre si quanto é possível. Gosto de lugares fora de moda, tipo o Alla Zingara que tem o melhor garçom do mundo e é pertinho da minha casa. Lá tomo chopp e vermuth (sim, gosto dessa bebida antiga e injustiçada). E o chope viria com um pedido que sempre faço: trutas com legumes.
No outro extremo tem o São Sebastião, com jazz da melhor qualidade e drinques com bastante frescura e muito bom gosto, tipo o Manhatan, um drinque da década de 30 que me foi apresentado por um amigo querido, mistura gim, bourbon e gotas de angoustura, é fatal.
Mas gosto de uma Adega na Lapa também, a Flor de Coimbra. Lá poderíamos tomar o suspeito e delicioso vinho da casa, servido em garrafas recicladas e teríamos a honra de ser servidos pelo garçom que nós (eu e integrantes do movimento Paralelos e adjacentes) apelidamos de Fleuma, porque ele é um lorde, sério e educado de tal forma que por mais alta que esteja sua graduação alcóolica, é só olhar para ele e ficar sóbrio de novo.
E os bolinhos de bacalhau são compridos como antigamente...
Mas quem iria pagar a conta? (rs).
Sobre o Rio
Cheguei sozinha aqui no Rio, com vontade de ficar pouco tempo até terminar o trabalho para o qual fui chamada. O trabalho deu errado, mas já era tarde. Eu estava irremediavelmente encantada pelo Rio. Até por alguns de seus maiores defeitos.
Minha família é toda do Espírito Santo. Vitória, capital do ES é uma Ilha, tem tudo pequeno e compacto, fácil de andar e gostar, conhece?
Sentidos
Olha o sentido da literatura para mim é ilustrado por fatos verdadeiros e antigos: eu desenhava letras ao invés de fazer desenhos só com casinhas, sóis e meninos de perna palito.
Eu aprendi a ler com meu pai, andava de carona com ele pela cidade e perguntava o que havia nos letreiros e placas. Ele me falava. Rápido, enquanto dirigia. Lembro até hoje do susto que tomei quando descobri que símbolos poderiam comunicar algo entre as pessoas, algo que falaria direto ao coração, ou às vísceras, ou à razão. Então o sentido da literatura para mim é o susto, o encantamento. Está ligado ao amor de meu pai e pelo meu pai. Está ligado a meu crescimento e está ligado sempre e diretamente à vida. Pode deixar assim se cortar a resposta: é o sentido da contemporização da vida. Como se escrever ajudasse a juntar um pouco nos dedos a água que é viver.
Cobranças Internas
Tenho a estranha e presunçosa impressão de que mudo muito rápido e tento acreditar para meu bem, que essas mudanças são evoluções. Mudei porque achei o Mercurial bobo, e revolvi fazer o Caderno Branco de Mora Mey, mais literário, sem fatos de minha corriqueira vidinha. Então posso classificar isso como cobrança interna. Sou mesmo a motorista e a cobradora de minha literatura, adoraria ter um mestre nos moldes antigos, mas sou eu mesma quem decide tudo.
O Livro
“O Colecionador de Segundos” foi um apanhado do que eu achava melhor em meus escritos. Apesar de olhar aquela escritora como outra, quase uma estranha em alguns parágrafos. Eu nunca decido o que realmente vou dizer, agora quero dizer outras coisas, ano que vem mais outras. Gosto de ser fiel apenas ao prazer de escrever, não quero uma fórmula.
Mas burilo certos textos à exaustão. Até jogo muita coisa fora...
Em relação a meu texto ser feito ou não para o blog, não escrevo para “um lugar”, para o papel ou para o monitor. Só sou menos rigorosa no blog porque não há como manter atualizado e ao mesmo tempo esperar o texto descansar. Mas agora relaxei quanto a isso, acho que o instrumento blog já é encarado como algo mais volátil e digo mais: quem está começando a escrever e acha que blog é desperdício é porque mitifica muito seu próprio texto ou tem pouco texto. O blog é a perfeita anarquia dos meios de publicação.
Em relação ao livro impresso é meio como ter uma etapa cumprida, mas começa outra. Se não houver ecos do livro, talvez seja melhor parar? Talvez. Mas a fome continua. A fome de encontrar pessoas que leram e que sentiram alguma coisa. A fome ao contrário, de lançar fora os personagens e situação e sensações mal encaradas, ou felizes, delicadas ou fincadas agudas na pele, coisas que encontro pelas ruas, pessoas e dentro de mim.
A construção do blog é sinceramente uma forma de estímulo a minha produção Porque tenho urgência de ver o que escrevi na rua, nos olhos e de preferência comentários em baixo, mesmo que esse comentário seja um silêncio. E sou exibicionista, nós escritores deveríamos assumir logo que somos exibicionistas, senão porque iríamos querer publicar? Poderíamos fazer arte fátua, escrever e queimar.
Mais cedo ou mais tarde os projetos impressos engolem o blog. Essa é a verdade. Vou ter que dar uma grande parada se um projeto meu maior em importância engrenar...Então ponho um recado lá e depois volto. Ou paro se o Blogger começar a cobrar, afinal nós trabalhamos de graça para o blog, agora vamos ter de pagar para trabalhar?
7 Letras
Conversei com o Jorge, enviei o original.
E fechamos.
Antes havia ganhado uma lei de incentivo fiscal, a Rubem Braga.
O que escrevo agora
reflete o que vivo agora. O que leio agora. São tempos difíceis, meu humor está mais sutil ou está perdido em alguma notícia que li no jornal. Na época em que escrevi o Colecionador de Segundos, morava com a minha família, só para te dar um exemplo de como tudo era diferente...
O adensamento está acontecendo sim, essa deve ser uma das vantagens de envelhecer: nos adensamos.
Paralelos e Parati
Li a primeira vez em público um texto meu no primeiro evento Paralelos, ou seja, na Primavera dos Livros do ano passado. Li mal e porcamente, quanto mais depois de ouvir Marcelino Freire e Joca Terron, afirmo que desperdicei uma boa oportunidade para ficar calada ou para falar mais. Depois disso li no evento A Noite dos Suicidas e encarei de frente que sou uma exibicionista, deu certo. Li direitinho e gostei da experiência.
Agora leio em qualquer lugar que me chamarem, aniversários, lançamentos de livro de auto-ajuda, velórios...é só chamar que leio!
A festa depois foi boa deveriam seguir esse exemplo de happening literário, essas pessoas que organizam eventos para leitores deveriam sempre lembrar que geralmente e secularmente nós gostamos de beber, conversar e até, de pasme, dançar.
E não precisa ser com música ruim, aceitamos boa música. De bom grado...rs.
Na FLIP a gente se vê. E vê a literatura do mundo, o que mais eu poderia querer?
| comentários (6)
:: março 9, 2004 07:23 PM