Primavera de 2002 na Suíça. Em um estúdio cinematográfico, Nicole Kidman dá uma passada no script antes de se tornar definitivamente Grace, uma linda ratinha branca de laboratório que será colocada numa gaiola de... cachorros. O estúdio é suíço, mas a gaiola é americana. Numa cadeira no alto da montanha, onde vemos os dizeres "diretor", está o cientista, psicólogo e ativista político dinamarquês Lars Von Trier, cineasta avant-garde à procura da verdade da vida, da coragem cinematográfica e da beleza de um statement. Ou apenas de experimentação artística de caráter denunciante. "O pior analfabeto é o analfabeto político artístico!", brada a frase que inventei agora, mas que poderia ser de Von Trier (eu imagino). LVT é ensaísta da misantropia e das desgraças psicológicas (já fez isso em "Dancer in The Dark"), é um visionário sócio-político-humano polêmico (ajudou a formar o "Dogma95") e é um descolado e exigente professor de cinema (é o autor de "As Cinco Obstruções"). Mas podem chamá-lo simplesmente de gênio.
Estamos em vonTrier-ville. Já vamos tirar o holofote do criador e passá-lo para a criatura, só mais um parágrafo - merecido. O diretor que escreveu Dogville usou escancaradamente o teatro, a literatura e o cinema na montagem do roteiro e do cenário, mas usou principalmente a psicologia. Num manifesto político demonstrado numa historinha psicossocial vivida por habitantes de uma cidade geo-inventada (?) no interior dos Estados Unidos, Von Trier filma a escuridão da psiquê humana e a construção de uma realidade adversa em comunidade. Que se retro-alimenta canibalisticamente. "Dê-lhes prazer - o mesmo prazer que eles têm quando acordam de um pesadelo", disse certa vez Alfred (Hitchcock).
Estamos em pesadelo-ville. Mas que no começo parece ser apenas uma normal-ville qualquer. A pura e linda Grace (Nicole Kidman) aparece como fugitiva de gângsters e é friamente acolhida nesta curiosa cidadezinha. Cidadezinha não, um grande palco de teatro, ajeitado minimalisticamente para ser frio, noturno e quase abandonado, que por momentos é mais assustador que o motel de Norman Bates*. Imagine um palco disfarçado de vilarejo onde há apenas riscos de giz no chão para marcar a área da sua dúzia de casebres e da sua ruazinha torta, e onde as casas não têm paredes nem portas nem janelas, só alguns poucos móveis de referência. Tudo que há é apenas o vasto universo da mente humana, transparente mesmo onde ela acha que há a proteção de uma parede ou de um muro, se relacionando com seres da mesma espécie. Com seres "sub-humanos".
Ou homo-caninus. "Estava elocubrando com um amigo sobre como eles mantinham a disciplina e a vida num campo de concentração, e na teoria dele, que eu acredito, é que eles transformavam as pessoas em animais. Se elas fossem animais, seriam mais fáceis de serem contraladas", explica Von Trier. E cachorro foi uma boa escolha, ainda mais se nós quisermos comparar com ratos. Você sabe, quando se põe um rato na gaiola de um cachorro, não acontece a mesma coisa que aconteceria se fosse um gato. O cachorro estranha o rato, mas a reação é mais branda, ele apenas olha de lado, cheira, e tudo fica mais ou menos bem. Afinal, é só um rato, pensa o cachorro. Mas se ele começar a ocupar muito espaço dentro da gaiola, e se o povo começar a gostar mais do rato, e a compará-lo com a própria pessoa do cachorro, aí pára tudo. Aí é muito possível que o cachorro dê-lhe uma patada e engula-o com rabo e tudo, só pra acabar com essa pouca-vergonha. Mas a mente humana (ah, a mente humana!) é muito mais complexa do que o rato na gaiola do cachorro. A mente humana pode ser linda, mas pode ser lúgubre e rasteira, medrosa e agressiva.
Estamos em psicose-ville. Psicose, no termo médico, é uma doença. Mas aqui ela não é tanto, é só um jeito de levar a vida usando sinapses curtas e pobres, é uma cultura social coletiva cuja única regra aparente é o baixo nível de consciência. É isso que transforma a alegria e a virtude do recomeço da vida de nossa divina Grace em todo tipo de má conduta humana, desde opressão, inveja e ódio, até traição, estupro e morte. É definitivamente um quadro patológico, ainda que pareça apenas pessimisticamente humano. É este quadro patológico que é denunciado no filme, que pode ser identificado facilmente (principalmente com as imagens do final do filme), com ao menos parte da gênese dos distúbrios do "american way of life". Se os americanos ou os humanos em geral são doentes e/ou estão doentes com eles mesmos e com as comunidades que o cercam, uma das causas dessa doença é a maneira pobre e desvirtuada com que as pessoas se relacionam e a ineficiência das comunidades na evolução da raça humana. Um gene psicossocial maligno cultivado nos lugares dogvilleanos (sim, Dogville pode ser considerado referência, tem sua originalidade marcante).
Uma das reações dos espectadores à Dogville, tenho notado, é uma ojeriza a admitir que a mente humana, que o comportamento humano, seja essa coisa medonha mostrada aqui. Mas ela é. Não é só essa coisa medonha (ela é muito mais do que isso, logicamente, muito mais talentosa e iluminada), mas é também essa coisa sombria. O filme apenas se baseia nessa faceta, que existiu e existe na história do homem, para justificar sua denúncia. Para justificar como parte da realidade que temos hoje foi construída. Tentar negar isso é corroborar diretamente para a própria visão dark da obra, é ser rasteiro, medroso e negativo. É desconfiar de Grace. É não aceitá-la.
O filme é assim. Começa com uma curiosa narrativa em tom irônico, e termina num conclusão arrasa-quarteirão, numa hecatombe que lacrimeja nossa falta de mérito neste planeta. É a bancarrota da sociedade humana.
Estamos em Dogville. Cuidado com o cão.
N.E. Eu diria: “Estamos em Dogville. Cuidado com o dono.”
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:: março 19, 2004 05:38 PM