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Carta Aberta
por Cecilia Giannetti

[do Escrevescreve]

Terça-feira, Dezembro 09, 2003

CARTA ABERTA

- Como pensa passar a exercer seu ofício literário?

- Antes de mais nada, de uma forma em que a expressão se harmonize com a comunicação. Que seja compatível com os meios de comunicação do nosso tempo. Não pretendo praticar uma literatura só para mim, e só para uma meia dúzia de pessoas. - Fernando Sabino, entrevista para Ele e Ela, 1979.

Divulgo meus textos na internet há três anos, de maneira compatível com os meios de comunicação do meu tempo, alcançando, assim, mais que meia dúzia de pessoas. Recebo uma média de 150 a 200 acessos diários, o que é RAZOÁVEL para alguém que só trata de literatura hoje.

Tenho um site e uma mania incurável de ler Fernando Sabino em dezembro. Dessa maneira, sempre começo o ano seguinte com a impressão de que "no fim dá certo". A frase, emblema da sabedoria sabiniana, aparece na ficção do escritor mineiro assim como em "Cartas na Mesa" (Record), o título da vez neste dezembro, que reúne a correspondência do escritor enviada aos amigos Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende. Como qualquer leitor obsessivo, cruzo páginas desse livro com questões minhas - e outras nem tão restritas a mim assim.

Justifico a apropriação, o cruzamento das sabinadas, com outras questões, não só pela obsessão como também pela inegável atualidade dos textos do autor. Principalmente porque integram a obra porções da vida particular de Sabino, como as cartas que escreveu aos amigos.

Foi à Clarice Lispector, em entrevista reproduzida em "Cartas perto do Coração" (de cartas trocadas entre Clarice e ele), que Sabino ofereceu um comentário bastante condizente com uma das características da geração de escritores que surge hoje na internet: "Atualmente eu me interesso mais pelo depoimento pessoal, pelo documentário - que talvez sejam as novas formas de literatura."

Meu site tem servido como bloco de notas online onde escrevo idéias e frases referentes ao processo de edição do meu primeiro romance (título de trabalho: "Desterreno"), a ser lançado pela Editora Planeta. Minha ficção não se resume ao site - ele serve para documentar alguns passos do processo de edição e para a comunicação com os leitores, como um diário de produção.

Antes, no ano passado, usava o site para publicar mini-contos, ensaios - e trechos do que viria a ser meu romance. Foi justamente nesse período, em 2002, que o jornalista e editor Paulo Roberto Pires jogou sobre novos escritores brasileiros que publicam ficção na web o primeiro olhar cuidadoso que receberam. Autor da biografia de Hélio Pellegrino publicada pela coleção Perfis do Rio, da Relume Dumará, Paulo escreveu um artigo afirmando então que esses autores formavam, de fato, uma geração, concluindo que a literatura muda de status ao começar na internet, dessacraliza-se, "juntando mais radicalmente ficção, diário, correspondência completa, rascunhos e originais."

A idéia do jornalista é consoante com o que Sabino havia dito 50 anos antes. No entanto, em 2002, o autor mineiro reclamou do excesso de informação na rede: "o e-mail, o computador, a informática em geral, ou que diabo de nome tenha essa praga, é inimiga da criação literária. Você acha que Dante, por exemplo, seria capaz de escrever a "Divina comédia" no computador? O excesso de comunicação liquidou com a expressão." (Entrevista a Mauro Ventura, Cecilia Costa e Rachel Bertol).

Seremos tão bastardos assim? Tão sem rumo e sem chão, irreversivelmente desorientados pelos "ô-ôus" do ICQ e os "plins" que avisam a chegada de mensagens a cada instante, com a concentração severamente comprometida como vítimas de ADD (Attention Defict Disorder)?

Roubo frase de outro mineiro para discordar: em palestra que aconteceu recentemente no prédio do PACC (na Universidade Federal do Rio de Janeiro), o escritor Autran Dourado lembrou aos escritores novatos presentes que "na sua literatura o autor não deve querer tomar lições de gigantes absolutos; aprende-se mais com os artesãos".

Ou seja, com internet ou sem internet, com blogs ou sem blogs, não se pode começar querendo produzir à altura de um Cervantes. Não se pode querer começar a escrever para superar ou equiparar-se a um clássico absoluto.

Todo escritor percorre um longo caminho para criar sua obra. Fernando Sabino percorreu 80 anos para chegar ao que agora chama de "auto-biografia não autorizada por mim mesmo". Não sem enroscar vida e ficção diversas vezes pelo trajeto. Paralelamente ao duro trabalho criativo, manteve durante toda a vida intensa correspondência com os amigos, o que hoje é do conhecimento do público graças às coletâneas de cartas lançadas pela Record, com autorização do autor. O troca-troca de missivas não interrompeu nem prejudicou a criação literária. Muito pelo contrário, tomando das cartas para a sua ficção. "Encontro Marcado", o livro mais importante de Sabino, tem trechos inteiros nascidos de cartas escritas originalmente para o trio de amigos.

Diante disso, cabe a pergunta: o que há de tão diferente entre transformar o conteúdo de cartas em ficção e o conteúdo de posts em ficção?

Os posts são cartas abertas. Algumas mais bem escritas que outras, é verdade. A maioria sem a menor pretensão literária, ou sequer condição de roçar a literatura. Mas ainda assim cartas abertas aos leitores, sem a intenção das caixas de sapatos que guardam papéis para a posteridade. Os blogs não terão pósteros, têm contemporâneos. Terão trechos preservados os que conseguirem publicação em papel, seja em coletâneas de ensaios ou crônicas, ou como partes de um romance do autor. Porque a internet pode ser mais eficiente que um time de traças: sites desaparecem. As ferramentas que servem à publicação dos sites podem simplesmente falir um dia e tirar do ar milhares de textos.

A grande diferença entre usar material de cartas em ficção e material de posts em ficção é que as cartas, até a publicação de um livro que as reúna, ficavam restritas ao remetente e seus destinatários. Os posts ficam aí, com a bunda exposta na janela do navegador. O processo e a exposição que ele acarreta são tão amplos que eliminam certo romantismo próprio da troca de correspondência particular e intransferível.

Se há algo de verdadeiramente negativo em nossas cartas abertas eletrônicas é que a interatividade com o leitor nem sempre é bem-vinda. Com risco de soar antipática (mas bem pouco preocupada com as conseqüências disso), garanto que em nada ajuda ao escritor que publica seus textos na internet a facilidade com que pode conhecer opiniões sobre seus textos. Não são resenhas que um crítico experiente passou dias trabalhando, nem são os textos, sempre, mais que fragmentos. Com raras exceções, são recebidos por e-mail ou deixados pelos leitores no próprio site (ferramenta "comments") elogios que variam do "muito bem" ou "ducaralho" a esculachos. Cada geração tem os críticos que merece? Idéia tão simplista quanto esses comentários. Há bons escritores na internet, como há bons críticos e editores que percebem sua escrita. Ignorar o elogio fácil e o espalhafato de amadores é necessário não só ao escritor que lida diretamente com seus leitores na internet como sempre o foi para autores de todas as épocas.

A qualidade da literatura que brota em alguns posts varia. Há graus diversos e prefiro deixar a avaliação para profissionais como Paulo Pires, que já aconselhou o também escritor e jornalista Zuenir Ventura a dar um bookmark em alguns blogs, "se quiser saber como alguns blogueiros fazem de seu brinquedinho muito mais do que uma tribuna ou diário e exercitam ali, diariamente ou quase, uma oficina de literatura em tempo real. Work in progress é isso aí." - Afirmou, ressaltando que, ainda que meio disforme, incipiente, a ficção que surge nesses sites tem a cara dos tempos que correm. Um escritor não pode ignorar o seu tempo.


O preço da admissão

"(...) me espanta que alguém busque se iniciar na literatura sem mais nem menos, pouco ou quase nada querendo dar de si. E omitindo o essencial a alguém que se inicia: a sua própria experiência oferecida em sacrifício." – Fernando Sabino

Você tem que vender seu coração, suas reações mais poderosas, e não apenas as pequenas coisas que o tocaram ligeiramente, as pequenas experiências que você poderá contar ao jantar. Isso é especialmente verdadeiro quando você começa a escrever, quando não desenvolveu ainda os recursos com que prender os outros ao papel, quando nada tem da técnica que leva tempo para aprender. Quando em suma você tem apenas emoções para vender. O amador, vendo que o profissional, depois de aprender tudo que podia em matéria de escrever, consegue pegar um assunto trivial , como as reações mais superficiais de três moças comuns, por exemplo, e dar-lhe encanto e graça o amador só consegue realizar sua habilidade de transferir emoções a outra pessoa através do expediente desesperado e radical de arrancar do coração a trágica história de seu primeiro amor, e expô-la nas páginas para que os outros vejam. Este, de qualquer forma, é o preço da admissão." - F. Scott Fitzgerald, apud Sabino ("Deixa o Alfredo Falar").

Hoje, a experiência pessoal, a vida do autor, muitas vezes aparece crua, ainda sem o trato da imaginação - em blogs. Como aparece também crua em "Cartas na Mesa"(página 45), em carta de Sabino a Paulo Mendes Campos, de 1945, um episódio real que mais tarde constaria de "Encontro Marcado". Outros exemplos nas páginas 71 e 72 de "Cartas na mesa", que passaram de conteúdo de missivas aos capítulos de "Geração espontânea", do mesmo romance (páginas 68 e 69).

Cheguei a afirmar no artigo do no.com.br, quase em tom de censura, que "o negócio com a nova geração de escritores é que a biografia completa vem junto com a obra". Eu estava enganadíssima. Com toda e qualquer geração de escritores a biografia vem junto com a obra. Todo escritor parte do mesmo material para escrever: vida e imaginação. Se usamos papel e caneta ou a tela do microcomputador, não importa. Sabino usava papel e caneta, às vezes uma máquina de escrever, para compor as missivas que integram o "Cartas na Mesa". E, assim como o romance que escrevo possui trechos que começaram como posts no meu site, o romance "Encontro Marcado", de Sabino, tem passagens inteiras desenvolvidas a partir de cartas.

Por que escrever na internet, então? Por que em blogs? Grande parte dos escritores que publicam na internet trabalham em máquinas que estão sempre, inevitavelmente, conectadas à rede. E é mais fácil disfarçar escrevendo na tela da máquina em que deveríamos estar trabalhando que chamar a atenção do supervisor ou chefe puxando um caderno da bolsa. Todo escritor sabe que as idéias surgem a qualquer momento, em qualquer lugar - não respeitam o relógio-de-ponto nem o chamado horário comercial. Invadem tudo e, se estamos no expediente quando elas surgem, somos obrigados a escrevê-las, sem chamar a atenção de ninguém no ambiente de trabalho.

Se em vez de abanarmos ostensivamente um caderno, abrimos uma janela do Windows e começamos a digitar nossas histórias, nossos esboços de idéias para histórias, nossas imaginações num blog, fazemos literatura sem que ninguém por perto perceba que estamos desviando do batente que somos pagos para enfrentar. A menos que alguém, no escritório, leia o seu blog. Além disso, o blog é uma boa maneira de arquivar - ainda que por tempo indeterminado - o que produzimos. Um site "apagado" fica numa espécie de memória da web ainda por longo tempo depois de desaparecer (vide cache do Google).

E a qualidade do que é produzido, fica comprometida pelo uso da ferramenta ou pelas circunstâncias em que é usada? Ora, os autores não produzem apenas no computador conectado, sob influência de incessante bate-papo com interlocutores de diversas etnias, idades e estados mentais via ICQ ou e-mails que não param de chegar. Ninguém produz nada assim, nem mesmo o trabalho postergado em nome daquela "postadinha rápida" no blog que mandamos para não esquecer uma idéia (essas postadinhas rápidas podem variar de 15 minutos a uma hora de escreveção). Há também os cadernos, e há silêncios. Na tela, no papel ou pensando, escreve-se. Porque um escritor não abre mão de escrever só porque vive numa época em que todos escrevem mais (e não necessariamente melhor) por conta de ferramentas oferecidas pela internet.

Uma dessas ferramentas, o blog, viabiliza tanto o exibicionismo diário da garotada através da circulação de crônicas, mini-ensaios e contos, frases e idéias soltas que poderão se tornar ou não partes integrantes de livros a serem publicados. Confissões e work in progress. Como disse o próprio Sabino em "Deixa o Alfredo Falar", "é o primeiro passo - o espetáculo de si mesmo que o escritor tem a oferecer, expondo-se à curiosidade ou mesmo à execração pública - sem o qual os outros passos não virão".

Escrevemos tocando a transformação, sem medo de agarrar o presente. Para o crítico Alexandre Soares Silva, o resultado desse esforço é literatura sim. Ele garante que os melhores escritores brasileiros vivos estão publicando exclusivamente em blogs, e completa: "talvez só seja possível escrever literatura de verdade quando ninguém está prestando atenção." "Ninguém" prestando atenção? Não é mais o caso: hoje o mercado editorial já reconhece a qualidade de muitos blogs literários, que abrem caminho aos seus autores para a publicação em papel; e os melhores contam com público leitor fiel online que também compra seus livros - caso de João Paulo Cuenca (autor de "Corpo Presente"), Joca Reiners Terron (editor da Ciência do Acidente, autor de "Curva de rio sujo", seu quinto livro), Mara Coradello ("O colecionador de segundos", 7Letras), Daniel Pellizari (autor de "O livro das cousas que acontecem", seu terceiro livro) entre outros.

Assumindo o risco de parecer "ridiculamente entusiasmado", Alexandre Soares lembra ainda que dos nove ou dez blogueiros que acha geniais não se consideram escritores, simplesmente porque estão começando agora. Mas, para ele, isso não tem importância: "não vejo ninguém melhor do que eles entre os escritores publicados (que eu conheço, é claro). Talvez só seja possível fazer literatura quando se acha que se está fazendo alguma outra coisa - como folhetins ou pulps ou blogs.", diz.

De qualquer maneira, é preciso pagar "o preço da admissão", como afirmou Fernando Sabino, lembrando F. Scott Fitzgerald numa crônica em que falava, justamente, sobre ser escritor.

Cito bastante Sabino, mas ciente de todos os "guardadas as devidas proporções", de todos os "claro que não se pode comparar" que exige a crítica (e a auto-crítica, o semancol) à uma geração ainda tão jovem, que apenas começa a pular da web para as prateleiras das livrarias. Não escondo a admiração que tenho pelo escritor, como não escondo o que é necessário oferecer para criar a minha escrita. Mas faço questão de ressaltar que tantas citações não se devem a um mergulho nostálgico gratuito do que minha geração "perdeu" com as transformações técnicas, entre outras, do mundo; pelo contrário, procuro associar o que parece perdidamente fragmentado - porque enxergo elos. De dentro dos acontecimentos e dos círculos de produção literária atual, enxergo, sim, esses elos. Tomar da vida pra ficção não é novidade, nem necessariamente bom, ou ruim - nem exclusividade de textos contemporâneos da internet. Usei Sabino, Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos como exemplo por serem brasileiros, por terem recentemente publicadas centenas de cartas, e por senti-los próximos (ponto onde o inexplicável do particular influi no texto). Aqui, não busco aprovação de gerações anteriores nem de estudiosos; imagino um diálogo entre épocas. E não podemos fugir da nossa.

Ultimamente, sim, têm passado muitos anos. E passam rápido demais, nos exigem rapidez em tudo que fazemos. Escrever, nesses tempos, na internet ou no papel, é uma prova de resistência da - não à - literatura.

Como é dezembro e, já confessei (ora, tudo se confessa... tudo se confessa quando se escreve ou então não é escrever), vai mais uma do Sabino: "A literatura continua, o romance continua, a poesia continua, somente que concebidos em outros termos. Os meios de comunicação e a formulação da literatura é que evoluíram. Isso não vai acabar nunca".

Se as ferramentas modificarão o caráter da ficção, isso é caso para quem trabalha com pesquisa - coisa para se ver com os anos. Em terreno novo, ainda desconhecido, vale um dito antigo, propagado por um otimista escritor mineiro que não canso de lembrar: "no fim dá tudo certo".

12:33 AM por Cecilia Giannetti



| comentários (11)

:: abril 4, 2004 01:10 PM


Cecília Giannetti é carioca, jornalista e integrante da banda Casino. Fã de Hunter Thompson e do jornalismo gonzo, Cecília colaborou com o NO., com a revista Play (ed. Conrad), além de ter textos publicados em várias iniciativas na Internet.
Blog: www.escrevescreve.blogger.com.br.

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