[do Olivetti Lettera 22]
30.10.03
Flores caducas
Daniel desceu do ônibus e andou até um bar, para comer alguma coisa. Não tinha tomado café, recebeu o telefonema e saiu corrido para a rodoviária. Passou a viagem acordado, com frio. No ônibus, desenhou com o dedo um rosto na janela embaçada. Depois de um tempo as gotinhas de água foram descendo pelo traços, riscando a boca, o nariz, os olhos. A paisagem que se via através da face desfigurada era sempre igual: os morros de terra alaranjada manchada pelo capim verde. Aproveitou que o lugar ao seu lado estava vazio e esticou as pernas, os pés balançando sobre o vazio do corredor. Mas não conseguiu dormir.
Agora estava cansado e faminto. O balcão metálico exibia salgados gordurosos, e sanduíches embrulhados num papel brilhante. Pediu um de frango com milho e refrigerante. Mastigou um pedaço grande de pão com pasta e tomou um gole de guaraná, para limpar a garganta. Comeu devagar, observando sem interesse os carros passarem. O vento arrepiava os pelos do seu braço. Não lembrou de trazer casaco, só um guarda-chuva, mas agora não parecia mais que ia chover. Decidiu que não queria chegar ao enterro de guarda-chuva. Antes sozinho do que acompanhado por um guarda-chuva. Pagou a conta e deixou o guarda-chuva encostado no balcão.
O táxi deslizou debaixou do céu nublado. Daniel ficou aliviado por que o motorista não tentou puxar conversa. Chegaram à avenida que margeava o muro alto e branco do cemitério. Quando o muro recuou o táxi acompanhou o movimento, fazendo uma curva à direita e subindo a ladeira onde estava a entrada. Pagou o motorista e viu que Bianca já estava lá, com os filhos. Eles se viram e ela se aproximou, enquanto ele descia do carro. Retribuiu o abraço da irmã. Seu nariz tocou os cabelos dela, tingidos de louro. Há uns dois anos que ele também pintava os cabelos, o xampú dava aos fios brancos um tom cinza azulado.
"Vamos?", ela perguntou.
Entraram juntos na capela. Tão fácil entrar: a porta aberta, sem fila, nenhuma proteção. Não devia ser tão fácil. Queria encontrar algum motivo para não dar outro passo. Em vez disso andou até o caixão, com os lábios apertados. Ficou olhando o rosto da mãe, muito tenso, severo, como se tentasse esconder o que se escondia debaixo da pele. Não tinha a serenidade que ele esperava, a placidez desumana do cadáver. Assim era pior, a expressão de zanga no rosto, como se ela tivesse aceitado a contragosto a própria morte.
Saiu da capela, limpou o suor e as lágrimas que tinham escorrido sem que ele percebesse. Marcos estava num grupo afastado. Tinha engordado muito, a camisa larga acompanhava a curva da barriga, mas não voltava em direção ao corpo. Pendia solta acima da calça, como uma bata hippie. Conversaram um pouco: "E aí, doutor?". Se abraçaram, "Você que trouxe as flores?". Há muito tempo não se falavam, estavam brigados. Quase não reconheceu o irmão, estava tão velho... E aí chegaram dois homens que puseram o caixão, fechado, sobre uma maca. Seguiu uns dez passos atrás do grupo que acompanhou o corpo até o túmulo.
Depois ainda falou com algumas amigas de sua mãe, abraçou os irmãos, os sobrinhos e foi embora. Saiu dali e procurou um restaurante onde pudesse comer melhor, espantar a solenidade do enterro: "Porra, quando eu morrer quero que sirvam uísque e salgadinho", disse pra si mesmo, mas seu pescoço ainda parecia engessado, não achava posição confortável na cadeira. Difícil de acreditar que ele era o primeiro filho, mais velho do que os dois que tinha abraçado no enterro. Pediu uma cerveja, duas, três. Comeu feijoada. Pronto, não tinha mais nada a fazer. "E agora?". Pegou outro táxi até a rodoviária, comprou a passagem e entrou no ônibus. Gostaria de dormir na viagem de volta.
Miguel Conde, 17:37
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:: abril 4, 2004 06:24 PM