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Hamilton - Uma trajetória
por Carlos Jazzmo

[do Idiota Analógico]

03/08/2003

HAMILTON - UMA TRAJETÓRIA

Beleza. Meu avô é mais interessante. Então vamos brincar de literatura.

(percebam o que é um texto literário e o que é um texto livre. Isso ajuda a ler meu blogue. Dica do tio)

Hamilton de Moraes e Barros. Nascido em São Miguel do Rio Piracicaba, estado de Minas Gerais.
Hamilton nasceu quase no fim de uma linhagem de quatorze. Duas meninas, doze galalaus.
Filho de coronel mineiro, daqueles fazendeiros cruéis mesmo - Coronel Moraes.
Hamilton teve uma infância no campo, mas uma infância privilegiada. Curtia um leite puro, daqueles bons pra caganeira, se amarrava num queijo gordurão. Garoto mineiro. Tudo era uma 'gustusura'.

Hamilton veio para o Rio só na época da faculdade. Direito. Menino bom, orgulho da terra.
Nunca vi Hamilton de camiseta, só quando passeávamos pela orla do Flamengo. Ele ia de remador dos anos 30, fazendo aqueles exercícios que ele chamava de 'ginástica sueca'. Sim, sueca. Porque tinha o 'banho tcheco', que consistia no velho lavando minha bunda no bidê. Então ele ia nesse esquema "Carruagens de fogo", e eu só na bermuda mini-house, camiseta Popcorn.

Mas Hamilton veio ao Rio e se formou doutor. Se formou lá em cima, CR de nerd, vivência de malandro de rua. No funeral da figura, o que não faltava era mulher. Minha avó estava tranqüila. Sabia que Hamilton tinha um fraco, mas que o forte era ela. Risoleta era uma dama.

E Hamilton se formou, deu adeus às namoradas e entrou para a Marinha. Foi o que ele me contou. Isso foi durante a Guerra. O Brasil se apresentando e meu avô correndo atrás. Embarcou numa fragata, ele dizia que era foda, só crioulo ignorante, várias bichas com doenças, eu cheguei a ver as fotos. Mas o velho era assim. Preconceituoso. Se referia às pessoas nesses termos mesmo. Mas sempre num tom muito cordial. "Isso é coisa de crioulo" foi uma frase que eu ouvi desde as fraldas.

Felizmente o navio dele nunca entrou em combate. Ficou ali pelo oceano, a Europa ali na frente, e ele ouvindo o rádio. Por um lado foi ruim, porque eu acredito que ele ia passar o rodo na guerra. Quando ele trincava os dentes - ele era prognata - não havia argumentos. Por outro lado, fico feliz que a luta tenha ficado no querer, porque não duvido nada que ele passasse para o outro lado, quando visse as prostitutas de Vichy.

De qualquer forma, ele esteve ali. Saiu como vencedor, e missão cumprida: tchau, Marinha.

Aí voltou para o Rio, advogou um tempo, viajou o mundo inteiro e resolveu ser diplomata. Segundo eu soube esta semana, estudou menos de um ano. Passou de primeira. Começou sua carreira, se disse "muito primitivo" e pulou fora daquilo tudo. Minha avó ficou em choque, mas sabia que tudo bem: ele daria um jeito.

Viajaram mais um pouco, e depois virou juiz. Sim, porque dizer "fez concurso/passou" já seria perder tempo. Então virou juiz, montou casa, fez família, e nasceram três crianças. Uma delas minha mãe. Nesse tempo todo, foi obrigado a conviver com um negão: meu bisavô. Não o pai dele, claro. O pai de minha avó. Esse era um crioulo doutor também. Adamastor de Lima. Dizem na família que foi um dos primeiros a ver Getúlio morto. Sei lá, eu gosto de acreditar.

Hamilton fez uma concessão a Adamastor. "O marido da sua bisavó era um negro de valor", ele me disse certa vez, enquanto ouvíamos marchas militares na vitrola e brincávamos em sua máquina de escrever. E assim, entre grandes ensinamentos sobre a vida, a cada nova teoria sobre o mundo que ele mandava, ficávamos ali, no 'gabinete' dele. O quarto onde ficavam os mapas, os livros, o piano, a máquina e as cartas escondidas das mulheres que ele traçava pelo mundo inteiro.

Meu avô sempre me incentivou. Se eu cagasse no chão da sala, o máximo que ele diria seria "é um batráquio mesmo. Vou te dar meu urinol. E se entra uma moça aqui agora? Vai pensar o quê?". O pior xingamento que meu avô guardava era "batráquio", e o maior elogio era "batuta". Ele dizia que eu era um garoto batuta. E quanto mais batuta eu fosse, mais ele me levava para tomar sorvete no Tribunal de Justiça. Me apresentava ao mundo inteiro como "embaixador". Caralho. Isso surgiu agora. Eu não lembrava disso. Ele me apresentava como "embaixador". Enfim...

Mas meu avô não tinha nenhum plano para mim. Ele dizia que a única coisa que eu precisava fazer era ler. Que se eu fosse um "sujeito informado", tudo daria certo. E como eu gostava de escrever, ele estava tranqüilo. Então era só chocolate, sorvete, eu ia lá para comer queijo com ele toda hora - ah, sim, tinha isso: eu ia à casa do meu avô às vezes só para comer queijo. A gente sentava na mesa da cozinha - aquela cozinha enorme - e ficava cortando queijo e conversando. Acho que meu avô Hamilton me rendeu os melhores papos até meus 15 ou 16 anos. Porque depois esses papos foram com mulheres. Mas antes, era ele. Acho inclusive que um dos maiores orgulhos do meu avô era que eu gostava tanto de queijo quanto ele. E eu nunca vi ninguém que goste de queijo como o velho gostava. Eu curtia um feijão também. Mas enfim...

À medida que fui crescendo e sendo expulso de colégios, arrumando brigas e chocando adultos com meus precoces avanços em relação a meninas, meu avô foi se tornando uma espécie de colega. Eu contava uma história de sacanagem, ele me ensinava a fazer pior ainda, e ainda me revelava coisas que ninguém mais na família jamais sonhou saber. E nem adianta me perguntarem. Morrerá tudo comigo.

Até que fiz oito anos, e na época eu já tinha um lance muito forte com música. Aos oito anos, eu já tinha viajado bastante, já tinha até ido na Xuxa, falava um inglês razoável, e a família começou a me cobrar sobre o que eu pretendia fazer da vida. Eu desconversava. Num belo dia me pressionaram de forma mais eficaz e eu disse, olhando nos olhos do meu avô: "eu quero ser roqueiro".

Todos desaprovaram, muitos riram de mim, e meu avô disse exatamente o seguinte, por trás de um sorriso de descrença: "muito bem. Você vai ser roqueiro. Então já sei quem vai herdar meus discos. Você já tem uma vitrola, certo?". Bicho, ali eu vi quem era meu avô. Ele queria que eu fosse bom. Ainda que eu resolvesse ser um bom filho da puta, por ele estava tudo bem. Eu teria que ser um filho da puta batuta, mas eu podia ser um filho da puta.

Meu avô era assim. E segurou algumas das maiores barras que vivi. Uma delas, talvez a pior, foi na Disney, nove anos.

Estávamos lá eu, ele, minha mãe, minha irmã e uma tia. Trocando em miúdos, havia "as meninas" e "os rapazes". Pois eu digo na moral: os rapazes se divertiram para caralho naquela viagem. As meninas faziam compras - muitas compras para mim, confesso - e os rapazes tocavam o terror nos USA. Do aeroporto ao quarto do hotel, que dividimos. E foi numa dessas que comemos um camarão revoltado com ketchup, e seguimos para uma espécie de trem-fantasma. Olha, eu realmente tive medo, e eu realmente comi demais. Então juntei os dois motivos e saí arrastando meu avô pelo parque, em busca de um banheiro qualquer.

Pois foi a dez metros da porta que eu me caguei - digamos assim - inteiro. Mas 'inteiro' é realmente 'inteiro'. Não lembro como consegui a proeza. Provavelmente explodi em merda por dentro do short, aquilo desceu e transbordou, tirei a camisa pela cabeça e veio tudo junto. O fato foi que meu avô se mostrou um herói. Não apenas lavou minha roupa inteira na pia, como ainda me carregou nos braços, ele sem camisa, não me deixou chorar, disse que aquilo já tinha acontecido com ele no Egito, e me deu um banho de uma eficiência que ele só pode ter aprendido na guerra. Em coisa de uma hora e meia eu estava na montanha-russa de novo, e minha mãe só foi saber do ocorrido uma semana depois.

Não sei exatamente como ele fez - ou como se faz - para passar de juiz a desembargador, mas o fato é que o velho merecia aquele posto.

Durante minha adolescência, houve algumas crises no casal de avós, e elas levaram meu avô a diversos braços diferentes. Então minha avó se manteve perto, e perdi um pouco da convivência com ele. Eu o visitava menos, mas era sempre um acontecimento. Ainda por essa, meu avô não gostava de festas. Não as de família. Nessas, ele era obrigado a "manter a cumpustura", e sua energia se limitava a doses de vinho do Porto e a tangos. Sim, os tangos. Qualquer mulher que estivesse dando sopa, ele LAU! mandava ver no tango. E cantava.

Meu avô detestava ganhar presentes também. Isso eu nunca entendi. Ele dizia que só ganhava porcaria, e diversas vezes fui obrigado a buscá-lo à força no quarto, na hora dos presentes. Ele vinha combinando que eu guardaria as coisas para ele, e que depois podia ficar com tudo. Foi aí que comecei a me vestir diferente dos meus amigos. A única coisa que meu avô guardava eram os "calções de mar". Ele dizia que não havia nada mais humilhante do que experimentar "calções de mar" numa loja. Ao mesmo tempo, nem em casa ele experimentava. Só vestia quando realmente rolava uma festa na piscina ou coisa assim. Isso rendeu bons momentos.

Lembro de uma vez que estávamos na casa de um tio, e meu avô resolveu "quarar". Quarar é aquele lance que você faz com roupas brancas, saca? Botar no sol para quarar. Pois ele não tomava sol. Ele "quarava". Então lá foi ele, dizendo que ia quarar, me perguntando se eu ia também, sacaneando a menina que estava me dando mole, e voltou. Chinelo de couro e calção de mar. Pois subiu a escadinha da piscina e todo mundo arregalou os olhos:

- Ih, Doutor Hamilton!
- Oi, minha filha!
- Essa sunga está meio pequena!
- Pois é, viu? Foi um custo guardar toda a Baixada Fluminense.
- Ai, meu deus... é que sobrou...
- Mas hein? Ih, Belford Roxo ficou de fora. Já volto aí.

E voltou para pôr o saco para dentro. Assim. Com classe.

Até que um belo dia, eu já havia passado no vestibular, meu avô começou a ficar doente. Toda hora ia parar no hospital. E eu estava sempre lá. E ninguém conseguia extrair uma palavra sequer dele. Só meu pai. Quando ele via meu pai, dizia que estava "bem, muito bem, viu? Estou bem sim, e você? Só estou assustado". Ele falava apenas isso com meu pai, e apenas com meu pai - o único médico no qual ele confiava.

Até que eu aparecia. Aí ele fazia o possível para se recompôr, me mandava sentar e começava: "Então, nobre? Cumé? E as mulheres? E os estudos? Bom! Isso é bom. Gostei do visual. Cortou o cabelo, não foi? Gostei, gostei sim, viu? Está com cara de homem. Você sabe que o mais importante na vida..." e toda vez havia alguma coisa nova, engraçada e cínica que era a mais importante na vida. E o pior é que toda vez eu saía dali convencido de que era mesmo.

Houve uma época que eu comecei a falar com meu avô sobre viagens. Eu disse a ele que o que mais me dava prazer na vida era viajar. Disse assim, como um desabafo. Pois a partir dali, incontáveis vezes peguei estradas e aviões bancado por ele. E o louco é que ele bancava as minhas viagens, mas não as de minha irmã, não as dos outros netos. Em mim, ele confiava. Se era de viajar que eu precisava, ele estava ali. "O que a gente leva dessa vida é cultura. E cultura a gente ganha viajando mesmo. Não quero neto meu usando orelha de burro. Faço gosto. Vai viajar".

Ele também curtia um deslocamento. Me lembro da alegria com que ele recebeu a notícia de que agora tinha passe livre no metrô. Brother, meu avô pegava o metrô umas 10 vezes por dia. Eu mesmo cheguei a encontrar meu avô no metrô uma vez. Isso foi o cúmulo. Ele estava indo à Cidade. Que era como ele chamava o Centro da Cidade. Ela ia ter "uma reunião com a Aparecida,viu?". Aparecida era a gerente do Banerj. Ele ia ao banco todo dia, à tarde, para saber dos assuntos dele. De terno. Sempre.

Houve uma vez que a sanha por deslocamento de Hamilton nos levou a juntar uns mapas, comprar uns biscoitos e simplesmente pegar a estrada. E assim saímos do Rio, sentados no banco da frente - porque ele dizia que "quem vai na frente vê tudo antes e chega primeiro" - e fomos parando apenas para dormir. Seguimos de carro do Rio a Brasília, conhecendo todo o interior de Minas, acompanhando o fluxo do "Velho Chico"- o rio São Francisco. Comíamos asfalto sem pensar em desistir, e parávamos apenas para encontrar pousadas, mulheres locais, festas que estavam sempre lá, e vomitar litros de comida estragada em Pirapora, e comer mais queijo ainda do que poderíamos sonhar, e quebrar o dedo na porta do carro, em Luziânia, e botar o dedo no lugar que nem macho para evitar aquela injeção apavorante que eu disse berrando para o médico enfiar no cu, mas no meu braço de jeito nenhum, e ele ria e me dizia que era isso mesmo. A gente estava quase em Brasília, e agora era só "segurar as pontas e parar de chorar. Eu vi um restaurante de comida mineira ali na esquina. Vamos encher o farnel?".

Até que um dia, numa dessas saídas, meu avô foi atropelado. Por uma bicicleta. Bom, eu acho que não existe acidente mais digno, e que legitime mais o fato de que ele era, na essência, um pedestre. Só mesmo um pedestre, um flaneur, pode ser atropelado por uma bicicleta, certo? Pois meu avô veio abaixo. O incidente da bicicleta o machucou. Fisicamente, claro - ele já tinha aí seus 83 anos - mas principalmente de forma moral. Depois do incidente da bicicleta, não bastassem alguns ossos quebrados, ele ainda resolveu que ficaria em casa.

Pois eu e meu pai decidimos: em casa? Sozinho? - Sim, porque ele estava dando um tempo da minha vó. Era de novo "um jovem solteiro, livre e dono da sua própria garçoniére". Decidimos então que em casa não. Mas lá em casa. E meu avô foi morar conosco.

Dali surgiu uma rotina diária de conversas na cozinha, regadas a queijos e vinhos, assim como surgiu uma sucessão de enfermeiras que ele cantava e eu traçava. Tudo de comum acordo. Houve várias. Desde "o sargento", uma excelente enfermeira que, essa não, eu não encarava, até Aparecida - outra Aparecida. Deliciosa. Aparecida era a enfermeira ideal para meu avô: não enchia o saco, não o obrigava a nada, e tinha um rabo espetacular. Para mim também era bom negócio. Eu não pagava, não estava doente, e ela tinha um rabo espetacular. Aparecida.

Bom, mas o fato é que meu avô melhorou um pouco e, uma vez que minha mãe tinha verdadeiros ataques quando mulheres tocavam a campainha para receberem mesada do velho, ele resolveu voltar a morar sozinho. E levou Aparecida. Para encurtar a história, vos digo que Aparecida misteriosamente se formou em Direito numa faculdade particular, assim como seu filho já estava cursando uma outra. Estranho. Meu avô não comentava o assunto. De qualquer forma, era como ele dizia: "eu sou arrimo de família. De famílias".

Era sem dúvida um homem responsável. Hamilton preocupou-se em garantir que todos à sua volta estivessem sempre bem. Ao mesmo tempo, conseguiu extrair do mundo tudo o que pôde. Ou quase tudo.

Ainda nessa fase de melhora/piora, de volta à garçonière, certa vez minha mãe foi visitá-lo. Eram três da tarde e ele estava deitado, sozinho. "Um aposentado tem direito a seus aposentos", ele defendia-se sempre, mas três da tarde era hora de ler, normalmente. Então minha mãe se preocupa e tenta extrair dele alguma explicação.

- Ah, frustrações, minha filha. Muitas frustrações, viu?
- É, pai... Eu sei.
- Há coisas que um homem precisa fazer enquanto é tempo.
- Papai, ainda dá tempo de fazer qualquer coisa. Não estou gostando do astral, não, hein?
- Não dá tempo, minha filha. Não dá mais tempo.
- Não dá tempo de quê, pai?
- Eu não duro até o carnaval.
- O que é que tem o carnaval?
- Você sabe que nesse tempo só tem uma coisa que eu não consegui fazer na vida, não é?
- Que coisa???
- ...Sair de anjo.
- Hein???
- Meu sonho sempre foi sair de anjo.
- ...
- Mas viu? Vestir uma bata branca, grandes asas batendo, e patins. Eu não posso mais usar patins.
- a-rararara! Patins, pai?
- Patins, ora! Anjo precisa de patins. Para deslizar.
- Papai, você tomou alguma coisa?
- Está vendo? Um homem precisa manter seus sonhos em segredo.

Até que se passou cerca de um ano, e meu avô de repente estava com câncer. Câncer ósseo. Vários de seus irmãos já estavam mortos, mas Hamilton resistia bravamente. Oitenta e cinco anos, se não me engano. Mas de repente ele deu uma derrubada. Num dia estava "assustado", no outro eu precisava correr até a casa de minha avó, para "me despedir" dele, como me foi colocado. Putaquiupariu. Meu avô.

Cheguei por lá no fim do Jornal Nacional, e me avisaram que eu devia apenas dar um abraço nele, e deixá-lo dormir. Porque Doutor Hamilton gosta de tirar uma soneca depois do jornal, e Doutor Hamilton já não consegue organizar uma frase há mais de três dias. Não fala com ninguém.
Oquei, oquei, vim apenas me despedir.

Entro no quarto com a TV sendo desligada, e a luz apagando.

- Vô?
- Hein???
- Vô, sou eu. Já dormiu?
- Oi! Tô acordado, viu? Quem é?
- Vô, posso acender a luz um segundo?
- Luz?

Acendo a luz e me coloco em frente a ele.

- Ô, rapaz! Eu estava mesmo querendo falar com você. Espera aí. Deixa eu me compôr.
- Não, vô... Fica deitado. Eu só vim te dar um abraço.
- Ah, você está indo a algum lugar? Vai sair? Cumé que estamos de finanças?
- Não, vô... Eu vim saber de você...
- Eu vou ficar por aqui, viu? Sua avó acha melhor eu ficar aqui. Realmente eu estou muito fraco, não posso mais sair por aí... Dispensei a Aparecida, viu? Mas viu?

Ah, ele tinha essa mania. Sempre que contava uma coisa, repetia, no fim da frase: "viu-viu? entendeu-entendeu?"

- Ah, dispensou? E como você está se sentindo?
- Olha, não estou bem não, viu? Mas vamos falar de outras coisas.

E pronto. Dali ele começou a falar no Oriente Médio, a comentar o que viu no Jornal Nacional - a me contar o jornal inteiro, já que eu havia perdido - e a discutir sobre o mundo em geral. Ficamos conversando cerca de uma hora, até que ele me disse estar cansado. Dei um abraço nele e saí.

- Meu avô está ótimo.

Pois essa foi a última conversa que Hamilton travou na vida.
Dois dias depois eu estava no hospital, me encarregando pessoalmente de vestí-lo com seu terno preferido, e dando-lhe um último beijo na testa. Beijo que ele já não pôde retribuir.

Fui ainda o primeiro a abraçar minha avó, e pude ajudar uma amizade de mais de 70 anos a subir numa sepultura e fazer um longo discurso sobre "o desembargador, o grande homem, o avô Hamilton de Moraes e Barros. Hamilton, meu amigo".
E eu ali, terno e óculos escuros, gravata do velho, apenas concordava: "meu amigo". Saiu de anjo.


# posted by jazzmo, the fool @ 2:33 AM



| comentários (4)

:: abril 4, 2004 06:38 PM


CARLOS Jazzmo é um idiota analógico.

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