[do Hotel Hell]
Sexta-feira, Setembro 06, 2002
INFERNO? MAIS EMBAIXO
Engatei primeira e, no retrovisor, vi o vento batendo na cara do pedinte de cadeira de rodas. Agarrado ao pára-choques, ele acabara de inventar um esporte radical de verdade. Olhei sua expressão esfuziante e invejei-o. Seus olhos brilhavam, rastreando o céu. Devia ser a primeira vez que o observava em movimento, pensei. Mudei a marcha, imaginando como ele faria para não capotar, ao soltar do carro, ou se ele fazia aquilo com todo mundo. Será que é mesmo um pedinte ou apenas um cara que fica parado no sinal, pegando carona com os carros e andando por toda a cidade? Olhei-o novamente e tive a impressão de tê-lo visto em outa esquina, num outro cruzamento, lá no Morumbi. E enquanto pensava tudo isso, o sujeito continuava se divertindo, um sorriso de pura satisfação estampado na fuça. Acelerei mais. O carro deu um tranco. A cara dele ficou séria, e ele olhou duro nos meus olhos. Pisei fundo no acelerador, podia ouvir as rodas da cadeira guincharem. Sua expressão agora era de medo, e seus braços seguravam com toda força na traseira. Olhei pro velocímetro, a brincadeira podia ficar melhor ainda. Engatei quarta. O carro ganhava velocidade, enquanto eu elocubrava uma listinha de novos esportes radicais urbanos:
1) assalto a carro-forte com arma de plástico
2) salto com vara sobre trem do metrô em movimento
3) sequestro de poodles com tosa a zero e devolução
4) dança das cadeiras em salas de cines pornôs
5) ereção e fuga em ônibus lotados
É, um universo ainda de todo não explorado. Verifiquei como o atleta radical paraplégico estava se saindo. Sumiu, porra. O cara sumira. Levantei um pouco a bunda da poltrona e nada, o mané não tava mais lá. Caralho, nem deu pra ver o tombo. Mas foi divertido. Esporte besta, o mano se estourar assim. Devia ter ficado lá pra trás, todo ralado. Diversão idiota. Bem, cada louco com sua louca. Só pra me certificar, dei outra olhada. E pude ver a cabeça do filho-da-puta se levantando de trás do capô, sua sobrancelha arqueada, olhando pra mim. Ué, não tinha acabado a brincadeira? Ele então levantou um revólver e apontou na minha nuca.
posted by Joca Reiners Terron at 8:20 PM
O FRIO VEM DE DENTRO
Depois de um longo e tenebroso inverno, o frio resolveu aparecer. As pessoas que vivem nas ruas foram obrigadas a interromper sua comemoração e voltar ao albergue pra resgatar cobertores que alguns nem chegaram a pegar, afinal o inverno não havia comparecido ao baile e o outono parecia se estender sem fim. Digo essas coisas de estações, mas me lembro que aqui em São Paulo os ipês deram a louca, florescem em qualquer época. Outras flores também, deram de pirar e parir seus rebentos folhudos no mês que lhes vier à veneta. Isto aqui é a maior cidade do continente e você deve simplesmente se acostumar às mutações. Aceitá-las, elas acontecem o tempo todo. E eis que somos obrigados a interromper as cervejas tomadas nas calçadas, com o sol vibrando em nossas cabeças, abandonar as praças, onde tudo convivia com as cores ininterruptas do outono estranho e vivo, se estendendo nos toldos das barracas cheias de gente, e nos recolhermos aos cantos escuros de nossos cubículos com iptu atrasado. O perigo de viver nos espaços públicos novamente minimizando os limites de nossas vidas sem brilho, exceto o da tevê. Bonecos animados, vimos os irmãos sem-teto ocultos sob os farrapos da solidariedade, as velhas judias ordenando a fila da sopa quente embaixo do viaduto. Com minha hiperatividade opressa por este teto rachado, limpo meu revólver e torço para que o calor volte logo. Renovo as balas e concluo que será melhor, os perus voltarão aos sinais mais gordos e relaxados, bêbados do vinho do inverno, as carteiras e cartões recheadas para a provisão esperta das noites quentes. E eu estarei lá, queridos ouvintes da Rádio WMC6 M-E-L-I-A-N-T-E, os bolsos recheados de doces, um sorriso rasgado no rosto oculto pela aba do boné, olhos percutindo novamente a sua provisão de sonhos adrenalínicos. E depois, com os bolsos estufados, escandido o diâmetro do horizonte e nós de novo na fita, no fluxo do êxtase da aurora na marginal, expulso o frio vindo de dentro, fora daqui em direção ao calor do dia. Até atravessarmos o sol.
posted by Joca Reiners Terron at 8:20 PM
TCHAU
Me matei ontem à noite. Uma montanha de dívidas, enteado chato, mulher com tpm intratável me levaram a isso. À tal saída pela porta dos fundos, sempre aberta pros nossos problemas.
Covardia? Não acho. Mesmo. Uma saída é uma saída, em morte ou na vida - e rima. E podia ser muito pior. Exemplo? Eu poderia ter matado a vizinhança inteira. Seria um genocídio, já que a vizinhança não pára de crescer. Ou liquidado ex e filho, depois me suicidado, o que seria um puta contrasenso. Afinal, eu queria me livrar deles, não trazê-los comigo. Poderia também ter acabado com os dois e cair na gandaia com as putas, vivinho da silva. Mas aí seria delegar minhas responsabilidades pra outro, e isto não faço. Serviço sujo é comigo mesmo. Meu chefe sempre me acusou de centralizador, ´um péssimo gerente!`, ele dizia. É isso aí, sou mêrmo. Então me matei. Até que não foi difícil. Primeiro, dei uma banda pelo quarteirão, pra tomar meus últimos golfejos de ar. Mais tarde, bati um papo com a velhinha budista do nono andar. Ela falou sobre reencarnação e num sei que mais, isto me deu um alívio razoável. Quem sabe eu não voltava como cachorro de estimação de dono de pet-shop? Ou o bichano devotado da boazuda da Piovani? Parecia bom negócio, sim senhor. Subi até em casa, escolhi minha mais resistente gravata italiana e me pendurei na maçaneta de cristal da porta da sala. Enquanto tava ali, estrebuchando, notei que o teto da sala apresentava uma rachadura nova. Daí a maçaneta vagabunda quebrou. Recompus-me e apus um adendo ao bilhete de despedida ´Ps: o teto da sala está rachado. Consertar`. Depois pus o pescoço na porta da cozinha, forcei um pouco, até ouvir CRÉC. Pronto. De repente, senti um frio na bunda. Passei a mão e senti um volume roliço e sem pêlos. Estranhei. Aí veio um negão rebolando e me pegou pela cintura, num passo mirabolante. Enquanto rodopiávamos, olhei pros meus pés e vi as unhas pintadas enfiadas numa sandália dourada e a perna do negão entre minhas coxas depiladas. Levantei a cara pra protestar e o reconheci: era o Cumpádi Washington. Olhei pros lados e vi a Sheila morena à direita e a Sheila loira, à esquerda. Foi então que ouvi a voz do Faustão: ´É ela ou não é? É? Então é! A voz do povo é a voz de Deus! Seja bem-vinda ao Tchã, Sheila ruiva!`. Foi aí que eu desmaiei.
posted by Joca Reiners Terron at 8:19 PM
SAI DA FRENTE
Filha-da-puta, eu aqui com uma pressa do caralho e esse velho bêbado enrolando o outro escroto do carro da frente. Sai daí, velho féladaputa, anda, navalha do caralho. E conversa, o cara-de-pau, até imagino a vozinha tenho vergonha, dotô, mas fazê o quê, olhaí, minhas fia tudo, aquelas ali da frente, é, tenho vergonha, mas fazer o quê, desempregado tem quatro anos, elas precisa me ajudar, né patrão? olha ali a mais novinha, jeitosinha, né? num é não? jeitosinha, o povo que passa aqui elogia mutcho. outro dia um patrão num carrão preguntô dela, até, ajeitadinha, ajeitadinha? Filho-da-puta, eu tô atrasado, eu tenho o que fazer, eu sou responsável, eu pago meus impostos, então sai da frente, caralho! E o panacão da frente dá ouvidos, merece ser assaltado, o filho-da-puta, merece se fudê, o lerdo, o cuzão. Se merecem, esse otário e esse pedinte bêbado da puta-que-pariu. Sai da frente que tô com pressa, tenho compromisso, sai da porra do caralho da frente que o sinal abriu, caralho, caralho, caralho, não escorrega no quiabo, véio fidaputa, ai caralho, passei em cima do véi, ó a putinha da filha dele cutucando o marronzinho da esquina, o escroto do monza da frente apontando o dedo pra mim, não, não, não, eu sou decente, sou gente-fina, não me atrapalhem, tô atrasado pro trampo, foi sem querer, não, não chama os hômi não, eu só queria chegar na hora pro patrão não chatear, não, porra, caralho, foi sem querer, eu sou de bem, eu sou homem de bem!
posted by Joca Reiners Terron at 8:19 PM
O PISTOLEIRO MAIS RÁPIDO DA ZONA LESTE
Sofria de depressão. Se matou com quatro tiros na cabeça.
posted by Joca Reiners Terron at 8:18 PM
PRIMEIRA GRIPE DA PRIMAVERA
As crianças brincam lá embaixo, no playground. No horizonte, encobrindo a fileira de prédios, vejo a Primavera se aproximando, adiantada. Desço os quinhentos lances da escadaria num só movimento. Quando chego na porta para a área de lazer do condomínio, é possível ver suas primeiras luzes encobrindo o edifício enorme a três quarteirões daqui. Desvio dos carros, esbarrando o quadril num sedan. O alarme dispara, mas sigo em frente, desviando do latão de lixo fora do lugar. A Primavera está chegando, fora de hora. Corro o mais que posso, um filete de suor frio desliza pela têmpora direita, pingando em meu relógio digital, 23h30, totalmente fora de hora. As luzes da quadra de esportes estão acesas, e posso ver os adultos com bolas nas mãos, as crianças sob os braços, fugindo da Primavera. Ela não nos avisou, veio muito antes do combinado. É possível enxergar a mudança de cor da quadra de basquete, antes amarela, agora um cinza escuro cobre-a pela metade. Continuo correndo, resgato energia não sei de onde e aumento o passo. Atinjo quase a grade do playground e posso ver minha filha, sozinha, sobre a roda-gigante miniatura. Suas tranças balançam na tempestade. Ela observa o céu, paralizada. Reconheceu a Primavera. Entro no recinto a uma velocidade inimaginável para minha cadeira de rodas. O chão desliza sob os aros numa velocidade estonteante e entro numa espécie de vertigem. Levanto os olhos para minhas calças vazias, pois lembro de minhas pernas, do tempo em que existiam, quando a Primavera não chegava fora de hora. Há muito tempo, isto. Saio do transe e penso na criança, indefesa sob as nuvens da Primavera chegando. Estendo meu braço para perto de seu tronco. Ela pressente minha presença, mas tem olhos apenas para a Primavera. A Primavera, a Primavera, sob nossas cabeças. O olho azul de minha garota turva e ela cai da pequena roda-gigante em cima de meu colo. Desmaio providencial, penso. Acelerando a rotação, giro a cadeira em direção ao caminho de onde viera e disparo de volta, em retirada. A Primavera ocupa quase todo o céu, agora, e seus extremos negros e ferruginosos podem ser vistos pelo canto dos olhos, enquanto fugimos. A Primavera, sinto o coração de meu amor pulsar. Vejo um pai com sua criança já em segurança, firmando a porta do prédio para que eu entre. Ouço a torcida do pessoal do primeiro andar, gritando para que eu corra. Eu corro, não penso em nada, apenas aperto o acelerador das rodas e corro, até atravessarmos os limites, protegidos da Primavera. Mais tranquilo, entrelaço os dedos nos cachos do cabelo dela e lembro-me quando minhas pernas existiam e pulávamos sob o Sol do Verão. Isto muito antes da Primavera chegar adiantada pela primeira vez e bem depois do Inverno deixar de existir. Subindo pelo elevador panorâmico, vejo a Primavera atingindo a tabela da quadra, ouço-a derretendo, o plástico líquido pingando no cimento. Assim como minhas pernas, desaparece sob a chegada da Primavera.
posted by Joca Reiners Terron at 8:17 PM
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:: abril 5, 2004 12:06 AM