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Chevete 86
por Marcelo Nogueira

[do Zero]

CHEVETTE 86

O sinal fechou. Ele parou a dois carros da faixa de pedestres. Como sempre, em São Paulo, apareceram aquelas garotas com roupas engraçadas entregando folhetos de imobiliária, normalmente com a foto de um casal feliz, ou da Hebe. Não consigo entender por que acham que alguém compraria um apartamento pela remota possibilidade de encontrar a Hebe saindo do elevador às sete da manhã. Se eu tivesse a intenção de comprar um, provavelmente isso me fizesse desistir. Eram três meninas. Elas passaram pelo primeiro carro e deixaram três folhetos - cada uma deixou três. Fizeram o mesmo no segundo. Ele já tinha até aberto um vão na janela e preparado um espacinho no saco de lixo pendurado no câmbio, desses que se ganha na lavagem, mas as meninas olharam o carro e passaram para o de trás. Ele estava num Chevetão 86. Não pretendia comprar apartamento nenhum, mas se sentiu mal em não ter recebido os papeizinhos. Claro, elas devem ter julgado: “esse cara não tem dinheiro para comprar um apartamento”. Preconceito! Está certo, não tinha mesmo. E gostava da Hebe. O problema era o desdém, a falta de respeito. Se elas estivessem mesmo tão interessadas em vender apartamentos, não estariam desperdiçando folhetos deixando tantos em cada carro. Entretanto, na vez do Chevette se deram ao trabalho de analisar o poder aquisitivo do dono, calcular o valor das prestações e decidir que ele não merecia ser vizinho da apresentadora. O sinal abriu. Melhor assim. Pelo menos não junta lixo no carro. “É pobre, mas é limpinho”. Andou mais uns quatro quarteirões e mais um sinal vermelho. Lá vieram as meninas. Algumas ficaram na calçada balançando bandeiras enormes com nomes de construtoras, como se fosse haver um jogo de futebol entre as equipes dos escritórios concorrentes. Ele resolveu dar mais uma chance às garotas. Abriu novamente o vão na janela. A primeira estava quase chegando, mas olhou o Chevette, difarçou e passou para o carro de trás. O homem pensou em buzinar, em protesto. A segunda olhou o carro de longe. Mas desta vez, mesmo percebendo ser um Chevette, veio imediatamente em sua direção. Havia inclusive uma faixa de carros antes, mas ela preferiu ignorá-la. E ele, que já estava desacreditando na sociedade, achando que ninguém mais valorizava o ser humano, só o dinheiro. Mas aquela garota estava lá, papel em riste, oferecendo-o ao dono de um Chevette 86, provando que nem todo mundo julga os semelhantes superficialmente. Ele pegou, orgulhoso, os três ou quatro folhetos que a menina entregou. Ia jogar no lixo imediatamente, como sempre, mas sentiu-se na obrigação de dar pelo menos uma olhadinha daquela vez. Então pôde ler: “Troque já o seu carro! Superfeirão de automóveis neste sábado!”
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NOTA: Os contos publicados no Zero são de Marcelo Nogueira, 29 anos, redator da agência de propaganda F/Nazca. Quem trabalha nessa área sabe que hobbies como escrever, tocar guitarra ou ter uma família não têm muito espaço no dia-a-dia. Por isso, a atualização não é necessariamente semanal. Se você quiser ler os contos assim que eles são publicados, pode entrar no mailing, mandando um e-mail para: mnogueira@fnazca.com.br. Caso você se sinta ofendido com o conteúdo de algum dos textos deste site, peço desculpas. Talvez eu tenha escrito pensando em você mesmo.


MARCELO NOGUEIRA



| comentários (4)

:: abril 5, 2004 12:17 AM



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