[do Failbetter]
novembro 22, 2003
Observação inútil
Uma das obrigações mínimas de qualquer escritor com um mínimo de vergonha na cara é ter um domínio técnico razoável, que lhe permita fazer o que quiser, quando quiser, do modo mais adequado. Prosa espontânea e sincera? Escritores são, acima de qualquer outra coisa, mentirosos profissionais. Compassivos, sim. Altruístas, pode ser. Visionários, vá lá. Mas sempre mentirosos, sempre maquiavélicos, sempre com domínio de seu texto. A sinceridade pode ficar para panfletos ou, caso o sujeito tenha a inclinação, para o confessionário (religioso ou laico, excluindo-se das possibilidades as mesas de bar). Já a espontaneidade não consigo imaginar para quê serviria, seja na literatura ou fora dela. Constranger as testemunhas, talvez.
Mesmo tendo isso em mente, admito ser perigoso estabelecer regras rígidas sobre o que é ou não literatura, e sobre como um autor deve ou não se portar ao fazer seu trabalho. Reconhecer literatura não é tarefa difícil, e pouco tem a ver com critérios objetivos ou impressionistas. Basta ter lido algumas centenas, talvez milhares, de obras de ficção. É uma espécie adestrada de intuição. Fica muito fácil perceber o que é literatura e o que é simulacro, sem ter que recorrer a nenhum teórico para fundamentar o julgamento. Você pode não gostar de uma narrativa, pode até abominá-la, mas será forçado a admitir que aquilo é, sim, literatura.
Não que alguém se importe com isso, é claro, mas o dever do ficcionista é exercer o inútil e me encanta ser obediente aos ditames do ofício.
Por Daniel Pellizzari em 12:09 PM
Mais inutilia
O que seriam, afinal, os tais novos caminhos para a literatura? Estamos falando de forma, de conteúdo, de elementos extra-literários? Acima de tudo, a literatura precisa mesmo buscar novos caminhos de forma tão consciente? Alguém ainda se importa? Como existem pessoas que não gostam de comer? Existiria jornal diário mais engraçado que O Sul? Cheguei em Curitiba, o templo da assepsia urbana aplicada, com esse tipo de corcundas na cachola. Costumo ser convidado com certa freqüência a debates como este último, onde o mote é invariavelmente algo que contém o adjetivo novo. (Pausa para um suspiro).
De início posso dizer que cada escritor, ao dar início à sua obra, abre um novo caminho. Todo autor que surge, se tiver um tantico de decência, traz consigo um novo universo a desbravar, um jambalaya de linguagem, imaginação, influências, projeto de obra, porco, lagostas, a coisa toda. É preciso pensar em novos caminhos além deste, o óbvio irreparável? Não sei, mas já que precisei falar sobre o assunto aproveito o brógue para dividir alguns pontos com quem não pôde estar no debate.
Vivemos em tempos de certo modo complicados para os dez filadaputa que lê livro, é certo. Com a ascensão abrutalhada e fascinante da narrativa audiovisual no último século, a literatura perdeu evidência e saiu do posto privilegiado em que sempre estivera, de forma narrativa primária. O que para muitos escritores pode parecer terrível, tenebroso - como de fato o é, mas não completamente - a mim parece um convite à maior liberdade, ao completo abandono à imaginação. Ninguém está olhando. Ninguém se importa. Ninguém está lendo. Que maravilha.
Estamos livres, os escritores, para trotar levantando poeira pelos tais novos caminhos. Um dos novos caminhos mais interessantes, pelo que eu julgo, e costumo julgar bem, seria justamente o velho caminho. Ei, não estou falando do realismo (seja naturalista, psicologista ou, valha-me Abraxas, sociológico). Depois de dois séculos de domínio, este me parece um tanto exausto, tendo como única salvação a narrativa fragmentada. O que eu realmente gostaria ver de volta é a imaginação, a alegoria, a ficção pura e exuberante. Até algum maldito francês inventar que o que realmente interessa são as picuinhas cotidianas do burguês (para mais tarde, degringolarmos nas picuinhas cotidianas da rafaméia, tão poética que é, tão real, etc) a literatura se pautava pela imaginação, pela criação desenfreada, pela denúncia da criatividade do autor. Pense no Gênesis. Na Ilíada. As bacantes, as Metamorfoses. O Asno de Ouro. A Divina Comédia, Gargantua e Pantagruel, As Viagens de Gulliver, Tales of the Grotesque and Arabesque. Maldoror, as Alices. Certo, vocês entenderam.
Com as ascensão do romance realista, o que eu enxergo como a principal qualidade da literatura tornou-se artigo de segunda mão, limitado ou a guetos vanguardistas (surrealismo, anyone?) ou à recém-criada literatura de gênero, que reúne narrativas de horror, fantasia, policiais e ficção científica (o pior rótulo jamais criado para qualquer coisa que tenha alguma vez pensado em existir). Sim, existiram Gógol e Kafka, Cortázar e Bulgakov, Borges e Kharms, e assim por diante. Foram insurreições bem-sucedidas contra o status quo das narrativas interessantíssimos sobre a vida íntima de quarentonas, mas sua influência mal chegou às letras brasileiras. Aqui, mesmo depois do brilhantismo de um satirista como Machado de Assis, não nos restou mais que o romance de 30, o sociologismo regionalista, as narrativas naturalistas sobre uma suposta realidade dos desfavorecidos, que seria A Realidade. E quem se importa com a, ahn, Verdadeira Realidade? Eu me importo com o fato do humor, da sátira, da paródia, da ironia, ainda serem consideradas subliteratura (eu te odeio, Aristóteles), enquanto qualquer narrativa que mostre quão dura pode ser a vida para quem não tem dinheiro (e, tese mui querida pelos brasileiros, quão sábia e superior pode ser a ignorância) ou as agruras de relacionamentos e da gente que sofre por amor (amor, aqui, geralmente aparecendo como não mais que monomania, puro transtorno de atenção) seja considerada parâmetro de boa literatura.
Não é o caso de abandonar de vez o realismo em todas as suas facetas. Ele ainda pode render - e rende - trabalhos excelentes, fazendo com que a convivência, mais que possível, seja desejável. Um escritor sabe quando e como deve usar tal e tal tratamento para seu trabalho. Em arte, como em todo o resto, a destruição e as posturas niilistas não passam de totalitarismo. Não precisamos de ressentimento, precisamos de novas mitologias. Literatura não deveria ser caixa de recalques, mas janela para o que o humano tem de melhor. Não creio que precisamos de mais denúncia social estéril, mas sim da transcendência que denuncia a mediocridade. A melhor maneira de fazê-lo, a meu ver, é integrando todos os elementos possíveis em uma nova literatura de imaginação, da mesma forma que as tão desprezadas histórias em quadrinhos. Ninguém está olhando, ninguém se importa, podemos fazer isso sem grande alarde até ser tarde demais para que os acadêmicos esperneiem.
O adorável é dar-se conta que, finalmente, o processo já começou. A divina paródia, de Álvaro Cardoso Gomes. Não há nada lá e Hotel Hell, de Joca Reiners Terron. A coisa não-Deus, de Alexandre Soares Silva. Húmus, de Paulo Bullar. Deixe o quarto como está, de Amilcar Bettega Barbosa. Naquela época tínhamos um gato e Subsolo infinito, de Nelson de Oliveira. Não são os únicos. Autores diversos, enfoques diferentes, tendo em comum em seu trabalho a primazia da imaginação sobre a ditadura do mesquinho. Novos caminhos, afinal.
Por Daniel Pellizzari em novembro 22, 2003 04:15 PM
Apêndice sem utilidade alguma
Mas um verdadeiro novo caminho para a literatura no Brasil seria ter leitores. Sim, admito que é um projeto pretensioso, mas seria interessante. O problema é que vivemos em um país que, além de ter pouco mais da metade da sua população sambando bonito nas praias do analfabetismo funcional, sofre de uma estranha repulsa congênita pelo conhecimento. Isso afeta não apenas a ficção, mas qualquer tipo de leitura ou atividade instrutiva. No Brasil Suado, esse reino da mesa de bar que tanto valoriza a malandragem, a malemolência e a escola da vida, o sujeito precisa ter vergonha de ser instruído. É imperioso que qualquer um que tenha uma mínima intimidade com séculos de história e cultura humanas mantenha-se calado sobre qualquer assunto que vá além do prosaico. É lei tácita que tais sujeitos abjetos devam afetar uma modéstia acanhada, sob pena de receberem comentários do tipo "está querendo se mostrar", "olha só como é arrogante", "se acha especial" ou, claro, o rótulo predileto dos totalitaristas da insciência: pseudo-intelectual.
Se, como é comum, um indivíduo armazena na memória todos os resultados, escretes e melhores momentos dos Campeonatos Brasileiros de futebol desde 1970, e ainda traz de bônus fantásticos relatos sobre todas as Copas do Mundo, uau, o cara adora futebol. Ninguém o chama de pseudo-comentarista-de-mesa-redonda. Cuida do corpo, está sempre disposto a usar aquela sunguinha maneira, freqüenta academias de ginástica, joga uma bolinha no fim-de-semana: nunca ouvi ser chamado de pseudo-atleta. Mas hah, faça referência a dois autores pertinentes a algum assunto que esteja sendo discutido e pronto, virou pseudo-intelectual. Não estou falando de códigos maçônicos ou de filigranas de equações diferenciais, mas de simples fatos concernentes a qualquer homo sapiens que ainda respire. Não adianta: pseudo-intelectual. O mais patético é que quase sempre as vítimas desse preconceito (ainda não formaram uma ONG nem pleiteiam feriado, ao que eu saiba) não têm a mínima intenção de serem intelectuais. Seus algozes não reconheceriam um intelectual nem que este se pusesse a enfiar a obra completa de Bakhtin por suas goelas abaixo.
O resultado dessa sandice inexplicável (alguém tem idéia sobre como isso começou?) é a penúria mental em que vive uma boa parte dos membros da classe média e alta do Brasilzão Sol & Mar. Ao contrário do que se pode dizer em defesa, ainda que discutível, dos desfavorecidos, estes têm tempo e dinheiro de sobra para obterem alguma instrução, aprenderem mais sobre a trajetória humana, refinarem sua percepção de mundo. Deveria ser um prazer, mas é uma obrigação da qual se foge do jardim de infância até a caixa de apodrecer. Gente assim não só não tem a mínima capacidade de entender ficção, mas também não presta para entender o mundo que os rodeia. E, vejam só, são a maioria. E porque querem. Porque ser pseudo-intelectual é feio. Porque o simples ato de saber e dividir o que se sabe é crime de arrogância. Porque todas as pessoas são iguais.
E é num país assim que muitos abnegados continuam a escrever, traduzir, editar. Que alguém os canonize, pois diariamente seguem para o martírio com um sorriso extático no rosto, certos da retidão de seu caminho. Amen.
Por Daniel Pellizzari em 04:44 PM
Epílogo desútil
Mesmo com tudo que disse abaixo, ainda acredito que tema e/ou enredo são secundários em literatura ou qualquer arte narrativa. Nunca condenaria uma obra simplesmente por ser realista ou por lidar com a sarjeta. Quando produzidas pelas mãos de mestres (e eles existem), são tão sublimes quanto quaisquer outras, e podem ter valor até mesmo quando assinadas por sujeitos não mais que competentes. O que me incomoda, acima de tudo, é a previsibilidade, a repetição que leva à monotonia.
Narrativa é, antes de mais nada, linguagem (as in modo de narrar, estilo; não confundir com descalabros semiológicos). Uma história aparentemente prosaica, se narrada com gênio, torna-se formidável. Um enredo intrincado e imaginativo perde todo seu apelo se não vier servido em uma forma interessante. Lembrem sempre que o tio Shakespeare usou enredos requentados na maioria (ou todas? não lembro, confesso) de suas peças. Não era exatamente um sujeito original, mas perdurou porque contou melhor. Aprendamos.
Por Daniel Pellizzari em 06:05 PM
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dezembro 02, 2003
Procrie com moderação
Quem não acredita na importância da família deve ter nascido em meio a um arremedo, o que pode acontecer a quase qualquer um e está longe de ser pecado. O pecado mora em considerar que todas as famílias são ruins, ou pior, que a família é uma péssima instituição apenas porque a sua é um fracasso. Esse tipo de miopia costuma aparecer com certa predominância em nascidos de famílias disfuncionais, circulatoriedade que, admito, me deixa um tanto atônito.
Por Daniel Pellizzari em 12:12 AM
| comentários (4)
:: abril 5, 2004 12:27 AM