paralelos.org
» ARQUIVO

Destaques

-   Meu Deus-Tornado
por João Filho

-   Amor
por Nelson de Oliveira

-   Minicontos do desconforto (xi-xx)
por André Machado

-   O Baile
por Jorge Cardoso

-   O óbvio ululante e eu
por Márvio dos Anjos

-   Pro Beleléu
por André Sant'Anna

-   ET de Cozinha
por Indigo

-   Iemanjá, alcatrão e areia no Posto 6
por Augusto Sales

-   Graves e poros
por Cecilia Giannetti

» ARQUIVO ATUAL



Mulheres que um dia amamos
por Gustavo de Almeida

[do Tem mas acabou]

[2/11/2001]

Regina

Conheci Regina numa dessas noites de 1998 no Bukowski que davam certo, todos juntos, mais de vinte amigos no mesmo lugar, bebendo, dançando, fumando cigarros, falando suas alegrias e tristezas, dando a impressão de que a gente estava até em um filme. Ao fundo, Smash Mouth tocava "Walking on the sun", e lá embaixo, entre uma cerveja e um Jack Daniel´s, eu olhava, pensava, conversava.

Regina era amiga de um amigo próximo, dos mais próximos. Morena, alta (alta demais para mim, pelo menos), corpo bonito mas não exatamente esculpido e nem um pouco previsível, como se pressupõe quando dizemos que uma mulher é gostosa. Seios imprevisíveis, os de Regina.

Ficamos conversando sobre a vida, sobre música. Como toda menina feliz, falava pelos cotovelos, a Regina. Conversamos sobre Velvet Underground, e comentamos que aqueles caras deviam consumir muita heroína. Nesse momento, Regina, agradavelmente bêbada, fez uma expressão deliciosa com a boca e disse, "hummmm, deve ser uma delíííciiaaa", falando de heroína como quem fala de um doce da Chaika.

Depois, falamos que ela era muito exótica, e bêbado disse a ela que não acreditava muito que ela fosse terrestre. "Às vezes acho que eles virão me buscar", disse ela, mas sem querer dizer com isso que era especial ou coisa assim, ela simplesmente achava que era meio por fora do mundo. Ou se sentia assim.

Ela achou que eu estava triste, e disse que eu era lindo. Doce mentira, de Regina, e eu disse a ela ternamente que era uma mentira muito agradável dela, mas pra quê? Me deu algumas broncas, e disse que os caminhos das pessoas vão aparecendo no próprio caminho, enfim, disse algo assim.

Só vi Regina aquela noite, no Bukowski. Depois, fui tendo notícias dela. Foi para Brasília, casou, engravidou, coisas assim.

Encontrei-a no Lamas um dia, um dia qualquer do ano passado, com barriga grande de grávida. Ela continuava com o sorriso lindo das pessoas que vivem sem culpa. Sorrindo, lembrou do que dissera dois anos antes, e com um ar de cumplicidade, disse, "é, eles vieram me buscar". Foi a última vez que vi Regina.

No final, descobri que era possível sentir tristeza e intensa felicidade ao mesmo tempo.


[4/11/2001]

Ana

Ana tinha somente 18 anos quando a conheci. Ambos entrando na faculdade de jornalismo, ela demonstrando uma curiosidade sincera para todas as coisas, eu misturando a empolgação dos novos com o ceticismo dos cansados, apesar de estar eu com apenas 23 ou 24 anos, algo assim. Logo eu e Ana nos tornamos muito amigos, dividindo impressões gerais sobre o mundo, indo ao cinema e tomando alguns porres leves de chope. Com três meses de amizade sutil, passamos para um namoro, que me marcou muito, talvez o mais marcante até 2000. Ou mais além, sei lá - a intensidade das coisas nunca é medida no momento em que a sentimos, e sim depois de passado o baque. Tal e qual quando acordamos na manhã seguinte e percebemos, "caramba, eu estava mesmo bêbado", depois que tomamos porres em dias de frio.

Por isso, até hoje eu não tinha percebido que o grande momento de minha vida com Ana tinha sido enquanto a gente não namorava. Voltávamos de alguma festa ou bar em São Francisco, Niterói. Não me lembro o que tinha sido. O grupo, grande, se dividiu em várias duplas ou trios. Eu fiquei de dupla com Ana. E a abracei - mas como amigo - e a gente foi andando. De repente, ela começou a cantar "Sister", uma música do filme "A cor púrpura". Subitamente eu segurei de leve na alça de sua calcinha, pois ela vestia um vestido muito fino. Mesmo sendo só amigos, ela não se importou, talvez não tenha percebido.

Naquela noite, sonhei com nosso namoro, que acabaria acontecendo.
Magrinha, muito bonita de rosto apesar do nariz ter um risquinho esquisito no meio, Ana era o que se podia chamar de mulher para casar. Cabelos enrolados de várias cores, sorriso cativante, ela sempre me inspirou o desejo de vê-la aos trinta anos. Mesmo quando eu a namorava, pensava nisso, pois eu sabia que jamais o namoro chegaria até essa época.

E acertei - hoje, aos 28, 29 anos, Ana está muito bem casada com um alemão, e mora lá na terra do chucrute. Nos vimos esse ano, enquanto o Flamengo ganhava do Vasco na disputa da Taça Guanabara por 1 a 0, eu e ela bebíamos no Lamas. Eu não parava de falar, estranhamente. Ela observava. Eu, para ela, uma criança em definitivo. Ela, para mim, sempre importante.

Nos despedimos, eu a coloquei em um táxi. Ela ainda perguntou se eu não queria a carona, e eu disse que não, que ia me virar por aí. Tinha que ter um último lampejo de John Wayne para tentar sobreviver àquela avalanche emocional que é qualquer encontro com ela.

Foi quando eu lembrei que a última vez em que ela me fez perder uma decisão do Flamengo foi em 1991. Dez anos antes, dez anos tinham se passado. Até mais, pois nos conhecemos em 1990. E fiquei pasmo, pois não sabia que se podia passar um terço de uma vida carregando uma mulher na alma. Mas que seja. Ana é leve - é a primeira coisa que qualquer um pensa ao olhar para ela. Leve como todo o universo explodindo.

Fui para casa de táxi, sozinho, achando o Aterro do Flamengo mais bonito que a Alemanha.

[06/11/2001]

Andréa

Andréa, vamos chamá-la assim - não me lembro o nome da criatura mesmo, foi uma viagem em que importaram mais as coisas do que os nomes - era repórter de suplementos do jornal O Estado de Minas. Naquela excursão a São João Del Rey - as famigeradas "fam tour" de jornalistas - ela era a única a não exibir uma postura de jornalista, de repórter, ou coisa assim. E desse mesmo jeito não deixava de demonstrar um enorme amor pelo que fazia. Mas Andréa parecia livre, e isso de certa maneira incomoda ou no mínimo faz o vizinho do lado pedir para você falar mais baixo. Sabe-se lá porquê, Andréa logo parou do meu lado. Bem menina ela, branca, com cabelos castanhos, com no máximo 22 anos, por alto. Fumava pelos cotovelos, a mocinha. E eu só ouvindo o - muito - que ela tinha a dizer, e andando pelas ruas íngremes de São João Del Rey, algumas poucas, bem menos do que Ouro Preto, onde há uma outra história. Era o ano de 1998, um ano, como eu já disse no blog, de muitas coisas interessantes. E Andréa parecia ser mais uma dádiva dos céus para mim, porque de algum modo seus olhos pareciam me dizer que só a presença dela me bastava. E naquele ano, de alegria misturada com angústia, tudo que eu precisava era de alguma moça que me deixasse à vontade, não necessariamente para tirar a roupa ou beijar-lhe a boca (ainda que Andréa inspirasse isso), mas simplesmente para dizer que estava tudo realmente bem, que tudo um dia iria acabar bem. E ela, aos 22 anos, me dizia isso com o sorriso enfumaçado, desafiando o entediante mundo das pessoas normais, como se me dissesse, "ei, cara, você vai conhecer alguém como eu, que não faz questão de que você tenha um carro do ano ou uma casa em Itaparica", sim, Andréa me dizia tudo com seu nada querer. Ficamos bebendo com o grupo uma noite, até tarde. O hotel dela era mais afastado, e nenhum de nós conhecia legal a cidade, por isso eu mesmo me ofereci, ante olhares maliciosos, para levá-la no hotel. Andréa aceitou com um sorriso, e nós dois já sabíamos que não iríamos nos beijar ou coisa assim. Simplesmente caminhamos no frio de São João Del Rey, margeando aquele rio principal, atravessando uma linda ponte antiga de pedra que tinha perto de seu hotel. Em grande parte do caminho estávamos em silêncio - mas um silêncio daqueles de quem está ouvindo alguma canção bonita de Tom Waits, não o silêncio dos sem assunto. Caminhávamos, e volta e meia ela ria e segurava no meu braço. Mas eu sabia, sim, eu sabia. It ain´t me babe, não sou eu, babe, quem você está procurando, apesar da recíproca infelizmente não ser verdadeira. Me despedi de Andréa, que subiu sorrindo para o hotel. No dia seguinte ainda nos veríamos, mas muito mal, na correria das despedidas e das trocas de telefone. Não quisemos trocar os nossos. Afinal, Deus tem uma lógica estranha para fazer encontrar suas almas mais sozinhas. E elas simplesmente não se encontram - não seriam eu e Andréa que iríamos contrariar essa lógica. Outro dia, ouvi Elis e Tom cantarem "é um Belo Horizonte", no meio de Águas de Março. Sorri.

[08/11/2001]

Mônica

A primeira vez em que vi Mônica foi em um Enecom, em Curitiba, 1991, um dos mais junkies de todos os Enecoms. Apesar do clima de baderna generalizada, entrei em uma espécie de oficina de textos cujo objetivo se tornou, de uma hora para outra, produzir um jornal para distribuir entre os participantes. Quem coordenava as ações era um cara, um grande escritor, ainda estudante, chamado Gilmar Piolla, hoje um dos feras do "No" em Brasília. Ninguém sabe o que Mônica foi fazer na tal oficina. Ela, estudante de Relações Públicas da UNESP de Bauru, rindo até de fratura exposta, como sempre foi o seu jeito. Logo eu, ela e Iluska, uma grande figura de Vitória, nos entrosamos. Horas depois eu via Mônica fugindo pelos cantos com um cara meio hippie, de chapéu esquisito, enfim, bebia meu conhaque e parecia não me importar. Tinha outros estresses para administrar, como minha relação tumultuada com Ana, que também estava por lá. No entanto, eu, ela e Marcelo, colega de turma, nos tornamos grandes correspondentes, trocando cartas quase apaixonadas. Gozado, ela parecia estar apaixonada pelos dois. Talvez estivesse. Um dia, ela veio de Bauru, e não sabia onde ficar. No último minuto, decidiu ficar na minha casa. A história é bobinha, pára meio que por aqui, mas continua no infinito. Hoje, Mônica largou a Comunicação Social e é uma feliz dentista em Bauru. Já tem duas belas filhas, ao lado de seu amado Joaquim. Mas volta e meia manda emails, dizendo todo o amor que tem por mim, pela nossa história, que ela sabe que pertence a uma dimensão temporal que eu reluto em chamar de passado - ou de futuro. E eu sempre brindo a ela no dia 23 de agosto, que muitas vezes eu confundi com o 17. E me lembro de eu e ela em Bauru, correndo em uma Brasília, ela dirigindo ensandecidamente, às gargalhadas, eu ao lado com uma garrafa de alguma coisa, bebendo para no dia seguinte sequer conseguir me levantar. Um dia, ela foi visitar os pais, e me deixou lá dormindo, trancado depois de um porre de cachaça de alambique. Até hoje estou procurando a chave.

[22/11/2001]

De volta ao passado - M.

Seu nome não era comum, por isso eu não quero escrevê-lo inteiro. Não sei onde ela pode estar nesse momento, e reluto em vê-la, passar por ela, ouvir seu nome. Não quero que ela leia esse texto - porque sei que ela não gostaria que eu me referisse a ela como alguém que eu amei. Ela me chamaria de mentiroso. Não por ódio, não por amor, nada por paixão. Mas com M. eu vivi loucura em excesso, mais do que eu poderia suportar hoje - os anos me trouxeram fragilidade nas estruturas, como acontece com as obras mal feitas e os acidentes geográficos mais engenhosos. Só sei que ao longo de um ano e meio eu tive com M. um namoro completamente louco. Encontrei-a em um curso pré-vestibular, em 1987. Nos identificamos - ela, a única que se vestia de preto, eu, o único que não sorria muito - ou sorria menos, somente para minhas próprias cretinices. Começamos a beber. Uma noite, ela chorou deitada em sua cama, por causa de um homem - e eu assisti. Em dado momento, apesar de ela estar chorando, olhei para a bunda dela - ela estava com uma calça fininha - e achei linda. Mas não disse nada. Cinco anos se passaram desde a última vez em que bebemos, ela me perguntando, "você já teve namorada", e eu dizendo "mais ou menos", e ela dizendo, "acho difícil,. você é muito baixinho, muito franzino". Eu fiquei puto, mas engoli. Sou mesmo baixinho - para homem - e na época era bem franzino. Depois desses cinco anos, eu estava em casa, puto, com uma fossa daquelas, bebendo uma cerveja e vendo um filme qualquer quando ela ligou. "Sou eu, vem aqui, vamos beber uma cerveja", e eu disse, "estou nessa, claro", e fomos lá para o bar da família dela, e bebemos. Aí ela disse, "vamos para o apartamento da minha irmã, está vazio", e eu, "claro, vamos". A gente já tinha bebido bastante, e de graça. Eu fiquei olhando para ela, estava bonita - e não era muito bonita quando eu a conheci. Fiquei olhando para o decote dela. Ela me diria horas depois que ficou reparando no meu rosto, que estava mais quadrado e endurecido, e no meu tórax, que estava mais crescido. Em dado momento, os dois bêbados, eu disperso, ela diz, "ou você fica comigo ou você vai embora", e eu a beijei. Só que entendi errado - mas a gente continuou. Ficamos acordados até de manhã. Tomamos banho juntos. Não sabíamos o que fazer da vida. Até que um ano e meio depois, de muita sorte, dor, prazer, felicidade, angústia, loucura, tristeza e alegria, ela me ligou, de manhã cedo, magoada até o último fio de cabelo, porque eu não tinha ligado. Ela tinha razão - e eu tinha as minhas. Ela disse, "Eu vou para a Bahia", e foi a última vez que ouvi algo dela. Eu lembrei da música do Cazuza, "hoje acordei com sono, sem vontade de acordar, o meu amor foi embora, e só deixou pra mim um bilhetinho, todo azul, com seus garranchos, que dizia assim, chuchu vou me mandar, é eu vou PRA BAHIA, talvez volte qualquer dia". E não sei se ela voltou - não sei nem se ela foi. O certo é que por um minuto eu desejei ter sido franzino pelo resto da vida. E de rosto redondo como a lua - travesseiro dos meus braços.

[12/12/2001]

Bárbara

Eu estava andando pela praia de Ponta de Areia, na Ilha de Itaparica, em Salvador, deveriam ser umas dez da noite. Achava tudo muito legal, inclusive o acordar com o sol da manhã no rosto, e o despertar imediato para o mar, tomar banho de água salgada sem nem ter bebido o café antes. Vida de rei. Mas mesmo assim faltava algo, e não era simples ou exatamente uma mulher. Faltava uma mulher com M maiúsculo.

Nessa caminhada, eis que ouço uma voz de homem me chamando de "carioca", e pedindo para eu me aproximar. Era um grupo de pessoas sentadas, em volta de alguém com um violão. Acreditem, já foi um hábito comum e até saudável. A minha opinião é que isso só é possível com todos na roda completamente bêbados, mas era o que parecia estar acontecendo ali.
O sujeito que me chamou eu nem lembro o nome, só sei que estava aos beijos e abraços, um pouco escasso até, com uma loura de cabelos de sereia que iam até o meio das costas. E sua pele era mais para o moreno. Era Bárbara, com B maiúsculo, com trocadilho batido e certidão de nascimento.

Me obrigaram a tocar violão e, pior ainda, a cantar. Nunca fui muito de fazer isso em público, mas ataquei imediatamente "Corações psicodélicos", num ritmo bem mais para o andante do que o allegro. E cantava "Eu quero VOCÊ toda nua" olhando para Bárbara.

O homem de Bárbara, talvez de sacanagem, pediu para eu tocar "Leãozinho", do Caetano Veloso, eu disse que não sabia. A partir daí, todos passaram a chamar o cara de "leãozinho". E a noite seguia, o tempo parecia estar numa redoma, me sentia em um presépio tropical onde o que nascia era o próprio Deus e não seu filho. Tudo ali tinha jeito de que nunca terminaria.
Em um momento de já não saber mais o que tocar, externei a dúvida, e ouvi de Bárbara, "pensa em mim que você toca alguma coisa". Olhei espantado, e me lembro de ter tocado "Amada Amante", do Roberto Carlos. Barra pesada. Ela sorriu enquanto todos riram. Não sabiam de nada.

O homem de Bárbara parecia estar bêbado demais. E ela começando a ficar com dor de cabeça. Ela se virou e disse, "vou levar o Leãozinho embora, tá?", e eu, "tá bom, e depois?", ela, "vou voltar aqui", e eu, incrédulo, "para quê?", e Bárbara, "Para ficar com você". Tão direta que me comoveu, me deixou sem ação - naquele momento.

Bárbara realmente voltou, e passamos uma noite inesquecível naquela redoma de tempo, abraçados, nos beijando, deitados em uma esteira. Os outros não se importavam com a estranha traição ao Leãozinho, seja lá quem fosse ou representasse para Bárbara. Estávamos apenas nos beijando, mas não algo tão descompromissado. Sabia que jamais nos veríamos novamente, sequer poderíamos ir para a cama, era aquele momento e só. Eu, do Rio, ela, de Itabuna, e assim dizíamos adeus antes mesmo de nos conhecermos, tendo as vidas tolhidas pela própria vida, separados e diferentes, separados eternamente.

No dia seguinte, não nos beijamos, mas Bárbara chorou e disse que tinha uma filha. Eu entendi o que ela quis dizer. E fui embora para um bar beber com meu tio - que já não vive mais para me lembrar daquele porre.

Quando Bárbara chorou, tocava uma música brega, talvez Rosana, e uns versos, "e as coisas que você me diz, me levam além". E não dissemos nada um para o outro.

[02/03/2002]

Priscila Foggiato

Eu fazia parte da lista do Staff do Falaê, recebendo uma média de cem mensagens por dia, e 50 eram de um só cara, chato demais, que insistia em responder a tudo que era mandado pela lista. Às vezes ele mandava só um "ha", e assim enchia a caixa postal alheia sem o menor resquício de educação. Fora isso, a lista era movimentada pacas, tinha muita discussão, às vezes gerava (ainda gera) pautas, às vezes tudo caía no vazio. Eu só pedi ao grande amigo Augusto Sales a minha retirada porque o cara chato além de tudo era exibido, enchia muito meu saco. Só que no meio disso tudo, desses debates, dessas discussões, muito raramente surgia uma mensagem sempre bacana, com uma ponderação certeira, um sorriso para todos da lista e uma inteligência até superior ao que estava sendo debatido. E era uma mulher - eu sou hormonalmente afetado com mulheres de vivacidade, deve ser o meu subconsciente que quer gerar um filho inteligente e procura uma moça idem - já que o pai não é lá essas coisas e resolveu ser jornalista. O nome dessa mulher é Priscilla, um nome lindo, e os sobrenomes mais ainda: Priscilla Deslandes Foggiato. Eu definiria a Pri - como nós a chamamos - como uma menina tão bacana que, se a gente não conseguir namorar ou casar com ela (por rejeição dela, claro), tem a obrigação moral de, no mínimo, apresentar algum outro sujeito para ela. Passei a trocar mensagens com a Pri, e ela insistindo em me chamar de "Gustavão". E eu falando, "pô, Pri, tenho 1,60m, não posso usar aumentativo". E ela, com a delicadeza que só uma curitibana poderia ter, mandava, "ah, é porque eu te acho um grande sujeito". Eu passava uns três dias completamente envaidecido com isso - chegava a deixar troco de dois reais para motorista de táxi só para exercer meu papel de grande sujeito. Mas a Pri tem dessas coisas, o que ela escreve ou diz sempre tem efeito. Um dia, ela disse, "Estou indo para Paris". Ia para lá, com a coragem que eu nunca tive. "Vou tentar viver lá", disse a Pri. Me contou que trabalhou para uma senhora de 70 anos como dama de companhia, e que em Paris "virou clubber". E ela conta essas coisas com um misto de doce escárnio e seriedade. Diz "virei clubber" com a leveza de quem pode dizer o contrário no minuto seguinte. Bom, vocês já perceberam que a Pri voltou de Paris, depois de passar muitos meses. A gente se comunicava bastante, pelo menos uma vez por semana. Dia desses, eu estava lamentando sobre meu fim de namoro pelo ICQ, com ela, e resolvi ligar para ela ao invés de ficar fazendo clic clac nesse teclado. Foi um choque - além de ser essa pessoinha deliciosa no que ela escreve e sente, Pri ainda tem um sotaque simplesmente maravilhoso, divino, espetacular. Quase fiz a piadinha idiota de sempre com os paranaenses, que é mandar falar "leite quente" - seria muito prazeiroso ouví-la fala isso. Mas preferi deixar quieto. Ela, a Pri, sempre às voltas com meninos parecidos com o Ethan Hawke (brincadeirinha, é que ela me falou que curte esse tipo), me contou que talvez venha para o Rio, para um trabalho temporário. Eu pedi a ela, "puxa, Pri, você podia vir trazendo alguém, um namorado, senão vou me apaixonar por você, vai ser muito problemático", e ela disse que só dá dor de cabeça. Passei a chamá-la de aspirina - e ela ri, ela ri de tudo o que é sem graça que eu falo. Ela disse que provavelmente vem sozinha ao Rio - como foi sozinha para Paris, como voltou sozinha da França. Priscilla Deslandes Foggiato é uma criatura quase alada, que voa melhor sozinha. Espero que ela nunca se conscientize disso, senão vai recusar meu pedido de casamento. Mas se recusar de qualquer maneira, não tem problema. Iremos juntos a Hollywood, por terra, bebendo tequila e ouvindo Carole King, e ao chegarmos lá procurarei o Ethan Hawke - e voltarei sozinho.

[31/07/2002]

Marcele

Posso dizer que eu saí da UFF em 1993. Sim, entrei em 1990, mas em 1993 comecei a trabalhar. Ou melhor, em 1992, durante o impeachment do Collor, eu estava no jornal UFF por Dentro, um hebdomadário destinado a divulgar externamente as atividades da universidade - visivelmente uma espécie de lobby pró-educação gratuita. Acho justo. Em 1994, comecei a trabalhar em A Notícia, jornal diário, e me afastei em definitivo do dia a dia na faculdade. Ia lá para fazer uma ou outra matéria, e assim meu diploma só saiu mesmo em 1999; e meu registro profissional, apesar de eu ter então seis anos de profissão, só em 2000. Por que dizer tudo isso? Para explicar que tenho saudades do casarão da UFF, mais precisamente do Instituto de Artes e Comunicação Social. Principalmente do semestre quando eu entrei, o segundo de 1990, um semestre em que provavelmente conheci 70% dos principais amigos que me acompanham até hoje. E foi por causa dessa saudade do casarão que eu conheci Marcele. Um dia, estava eu em uma exposição de fotos (sim, freqüento esse ambiente de vez em quando, por ter muitos amigos fotógrafos), quando vi uma boa foto do casarão, só que mais modernizado, sem a quadra de esportes (onde eu jogava um futebolzinho que o Serra mandava parar). Parei para ver o nome da autora, e era Marcele, que estuda Cinema na UFF. Fiquei intrigado. Quem é essa moça que também se liga no aspecto do Casarão? Ouvi então uma voz doce, suave, falar atrás de mim. "E aí, você estudou lá?", e me virei, vendo uma linda morena de 1,70m (o que já me intimidou), de olhar terno, mãos longilíneas, e cabelos ondulados. Respondi que sim, e falei até em um blog chamado "Bar do Arlindo", ela disse que conhecia, achava engraçado, e tudo o mais. Eu também ri, apesar de estar completamente sem graça por ela já ter conhecido o blog - afinal, neguinho só escrevia besteira. Trocamos emails - essa é a parte forte da história - e ficamos nos enviando mensagens ininterruptamente durante a Copa do Mundo de 2002, em que o Brasil conquistou o pentacampeonato. Eu acordava às 1h30 ou 2h da madrugada para trabalhar, corria para o computador, e lá estava o nome dela sorrindo para mim. Marcele é um nome que sorri. Aí eu respondia, enviava e ia trabalhar. Na volta, cansado, acabava dormindo logo, mas sabendo que em poucas horas nos falaríamos mais. E sempre pontuávamos nossas observações sobre a vida - ela sente as coisas de um modo parecido com o meu - com os resultados ou mesmo comentários sobre os jogos. Hoje eu revejo aquela correspondência e fico pensando que aquela é a melhor maneira de recordar aquela saudosa Copa do Mundo em que o Brasil ganhou com a redenção de Ronaldo Fenômeno. Lá pelo meio da troca de emails, eu já estava encantado por Marcele, mas como eu vinha alimentando um ceticismo absurdo desde 2001 (com justas razões), tentava me recusar a me deixar encantar - mas cadê que eu conseguia? Um dia, eu disse, "acho que se eu te reencontrar, ficarei perdidamente apaixonado", e ela, "eu também". E não sabíamos o que fazer. É muito surpreendente quando não existe o ritual da conquista, quando você não diz nada que alguém já tenha dito alguma vez para uma mulher - e vice-versa, quando só o que existe é o sentimento de que se quer cuidar de alguém. E quem ouve a voz de Marcele só pensa em cuidar dela. Nos encontramos, e fomos ao Shenaningan´s, aquele lugar que eu fico malhando alguns posts a baixo. Isso depois de uma noite que passamos acordados ao telefone, apesar de ela morar super-perto de mim. Lá, fizemos o que eu tinha falado em uma das mensagens - inclusive era até o título: "Dois cálices de vinho". Foi então que ela puxou um CD de presente para mim, dizendo, "garantia de um bom começo". Abri. Era o CD do Neil Young, eu tinha me esquecido de que eu tinha publicado - até meio de brincadeira - aqui que eu prometia uma vida feliz ao meu lado àquela que me desse de presente "Are you passionate?", o novo do Neil Young. Hoje, não penso em mais nada a não ser em cumprir esta minha promessa. Antes do fim.

GUSTAVO DE ALMEIDA



| comentários (9)

:: abril 5, 2004 11:31 AM


Gustavo de Almeida é jornalista. Começou em A Notícia, jornal humorístico-policial editado pela dupla Jaguar e José Alberto Monteiro. Depois, trabalhou em O Fluminense como repórter de Cidade e Política, fez assessorias de campanha eleitoral, e passou ainda por Jornal do Brasil, Extra e Globo.com. Na área esportiva, produziu o hotsite "Brasil Olímpico" publicado pelo portal Globo.com em 2000. Na área de ficção, teve somente um conto publicado no Livro do Jobi, uma compilação sobre o famoso bar do Leblon. Depois de dois anos e meio no diário esportivo Lance!, voltou ao Jornal do Brasil, onde é repórter e sub-editor de Cidade. Ah, e Gustavo também foi um dos fundadores da revista eletrônica Falaê!com.br, que foi uma espécie de coqueluche na internet cult nos idos de 99-01.

Home Literatura & afins Crème de la Crème Feira Livre Modo de usar Cadastro Busca Contato