[do Coletânea de Pensamentos Desconexos]
Sábado, Abril 10, 2004
Ludo
O jogo era muito simples e por isso precisávamos complicar as coisas. Somos viciados nos poréns, nas metáforas incompreensíveis e nos subterfúgios dúbios. Temos sim que ter questões em que pensar entre babas e travesseiros solitários. Precisamos chamar-nos os nomes vez ou outra sobre camas que não respondem por tais alcunhas, até por que, em verdade, ante o que poderíamos fazer e não fazemos qualquer outro nome pareceria apelido.
Não durmo durante a noite recriando gestos e compondo mentiras. Revivo minhas ilusões uma a uma entre derrames de lágrimas e asmas e brisas nuas e luares que violentam as cortinas desfazendo meu breu em pratas. Abro as portas, mas você só vem se elas estão todas trancadas e quando você bate eu já não ouço, pois somos filhos de um deslize do destino, a gravidez indesejada do tempo descoberta quando já não era possível intervenção.
Vivemos um amor bastardo, negado por nós, pela sorte do mundo. E negado seria por Deus também caso houvesse, se houver. Vivemos uma promessa falsa, uma felicidade que sucumbe nos desencontros, então inventamo-la. Eu aqui, você aí.
O jogo era muito simples e por isso eu atravessei a rua e você olhou para o chão. E a gente caminhou em círculos sempre nos vendo passar na contra mão da nossa história.
- Ana Paula Mangeon, 9:00 PM
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:: abril 5, 2004 12:26 PM