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69
por Rosana Caiado

[do Fulana e Beltrana]

69

Domingo.
Chove lá fora.
Domingos de chuva choram.
Eu não.
Não consigo chorar diante de outro que já estava chorando antes de mim.
No choro e no sexo oral, é preferível um de cada vez.
Fecho os olhos.
Não há nada para fazer senão pensar em você - meu eterno álibi.
Te espero.
Sem pressa.
Sem solidão.
Exceto hoje.

Beltrana, 02/11/03


A SOLA DO MEU PÉ ESQUERDO

Esse negócio de natureza só é bom no retrato. Quando ela, a natureza, chega perto de mim, e ela sempre dá um jeito de chegar, não gosto. Natureza tem bichos pequenos, voadores. Entra terra debaixo da unha. Natureza é bom lá longe. Mas para chegar até aquela praia, supra sumo da natureza, tem uma trilha. Pequena sim, mas nem por isso deixa de ser trilha. Uma trilha assustadora. Íngreme, feita de pedras - supostos degraus. Claro, machuquei meu pé no suposto degrau. Eu sabia que isso aconteceria. Havia uma pedra no meio do caminho. Uma pedra no meio do meu pé. Bem na sola. A gente não dá valor à sola do pé, até um dia machuca-la. Acontece muito. Sola do pé é uma parte importantíssima do corpo humano. E a minha sola do pé dói. Está ardendo. Um corte superficial, porém extenso - quase meio centímetro. Quase. Marco consulta. Sento, tiro o sapato, coloco o pé para cima e mostro para o doutor. Adivinha? Deu um beijo. É. Um beijo na sola do meu pé. O doutor beijou a sola do meu pé bem em cima do corte de meio centímetro, quase. Onde já se viu? Fiquei rubra, peguei minha bolsa e dei as costas. Diz que bom para corte assim é álcool. Então. Fui para o Samba, bebi cerveja e nem me lembrei mais de pé, nem corte, nem sola, coisa nenhuma. Álcool ajuda a esquecer as dores; não só as dores da sola do pé mas do coração, cotovelo e até da testa. O corte fica na sola do pé. E eu estava usando o pé sem parar. Afinal, samba comigo é no pé. Sou quase mulata, cheia de sardas. Sambo na pontinha dos dedos do pé. E quando começo a sambar, não páro mais. Hoje, que dor danada. O álcool já saiu no xixi. Foi tanto. Um xixizão que demorou a acabar. E eu aqui, sem álcool, sem samba, com sola do pé e um corte de quase meio centímetro. Manca, estou manca. Talvez para sempre. Melhor marcar outra consulta. Sento, tiro o sapato, coloco o pé pra cima. Ele cuida. Mas não adianta pomada, nem creme, álcool, nem nada. Nada além de um beijo bem em cima do corte. Fico rubra e dou as costas. Esse negócio de natureza só é bom no retrato.

Beltrana, 23/10/03


A SAIA NOVA

Ela estava doida para usar a saia nova: curta, colada, cor de vinho. Mais uma vez, encontrou com ele na boate.
- A gente sempre se esbarrando.
- Que sorte a minha.

Cumprimentam-se com dois beijinhos e um abraço rápido.

- Deve ser um sinal - mulheres costumam acreditar em sinais.
- E o namorado? - homens insistem nessa pergunta.
- Terminamos.
- Terminaram?
- Parece que dessa vez é definitivo.
- Está sozinha, então?
- Aqui?
- Hoje.
- Estou sozinha no mundo - faz charme.
- Difícil de acreditar.
- E você? Onde estão as suas namoradas?
- Minhas namoradas? - ele ri.
- Não se faça de bobo.
- Estou sozinho - faz cara séria.
- Estamos.
- Enfim...
- Sós - brindam.
- Mais um chope?
- Por favor. O que você está bebendo?
- Whisky. Aceita?
- Não, é melhor não. Está querendo me embebedar?
- Você está linda.
- Eu? Obrigada - olha para ele e depois olha para o chão.
- Não precisa agradecer. Você está lindíssima. Irresistível.
- Irresistível? - repete em tom mais baixo.
- Não vou resistir - chega mais perto dela.
- Gostou da minha saia? - ela pergunta quase no ouvido dele.
- Sua saia? Deixa eu ver.
- É nova - ela dá uma volta.
- Virgem?
- A saia? - ri - É virgem, sim.
- Ficou bem em você.
- Se você não tiver gostado, é só falar e eu tiro.

Daí para frente não se sabe em detalhes o que aconteceu - estava escuro no canto da boate. Foram gentilmente convidados a se retirar. Nem precisava. Era exatamente o que queriam fazer.

Beltrana, 14/11/03


ROSANA CAIADO


Rosana Caiado acha que sim, mas gosta de dizer que não. Escreve contos, crônicas e cartas de amor não correspondido. Assina embaixo do que uma tal de Beltrana diz, mas jura que não é nada disso que vocês estão pensando.



| comentários (13)

:: abril 5, 2004 12:42 PM



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