[do FakerFakir]
1.5.03
LUZ.
O pai era tão alto - sua cabeça nas nuvens. O céu, um azul manchado de carneiros tigres elefantes, abria caminho para o dia de clube sorvete gangorra desespero. Tempo costurado com tédio e susto. E o pai sorria-lhe nuvens brancas: - hoje você vai aprender a nadar.
Mas entre o Jardim da Luz e o clube havia uma centopéia de novidades. Primeiro, o metrô e suas escadas rolantes que ele e a irmã subiam as de descer e desciam as de subir.
- A Luisinha do sétimo andar perdeu o pé numa brincadeira assim - a mãe não esquecia. E tome croque na cabeça. Atravessando a catraca, a irmã, muito pequena, bateu a cabeça e caiu. Assim que entraram no vagão, depois doutro croque materno - tonto, não precisa dar sinal, o trem pára sozinho -, a irmã abriu a sirene.
- Menina idiota! - desdenhou ele, ocupado com o mapa da linha Norte-Sul. E o pai, duro:
- É feio rir da tua irmã. Tem que cuidar dela.
Não queria cuidar de ninguém; seus olhos tomavam conta do mundo e a ele só cabia segui-los. O metrô, por exemplo, era muito esquisito. As pessoas entravam e saíam arrastadas por suas malas; pediam esmolas; cantavam coisas dementes batucando nos assentos e nos ferros; se penduravam babando; catraqueavam, matraqueavam. E o som que o trem desenvolvia em alta velocidade continha os gritos de milhões de almas penadas. Lá fora, no escuro fundo, quem moraria? Ratos? Seitas satânicas? Mendigos, bandidos, alienígenas? Irmãs chatas? Contou à irmã sobre os fantasmas do túnel, mortos-vivos ensangüentados que, em estado de ectoplasma, como os resmungos da mãe entravam por um ouvido e saíam por outro, infelizes condenados ao eterno sofrimento de ser atropelados pelo metrô. Os olhos da irmã iam se abrindo a cada tétrico cochicho, o queixo batendo no peito - até ela começar a chorar de novo, agora no colo do pai.
- Menino idiota! - outro croque.
- Aiê!
A dor fez relevo ao surgimento do céu: o metrô corria pela via elevada, preenchendo suas janelas de cores sujas. Estação Conceição. Mas do lado de fora da escada rolante - espécie de milagre - o céu era outra vez cor de céu. Dali para o clube havia um pouco de ônibus e algumas quadras de pega-pega com a irmã.
- A carteirinha, por favor.
À entrada, exibiu orgulhoso sua foto de sócio. O documento lhe pertencia, o pai pertencia à associação de bancários, o sorvete, a gangorra e o desespero lhe pertenciam.
- Onde é a piscina?
Antes, o almoço - o pai e a mãe acordavam tarde. Na sacola da mãe, o maiô novo. No prato, todo um galinheiro:
- Quero ver limpar tudo.
- Ele vai ter uma indigestão!
- Quantos são os trabalhos de Hércules, filho?
- Djhozi.
- Não fala com comida na boca. Qual era o único jeito de matar o Aquiles?
- Com uma flecha envenenada no calcanhar?
- E a Medusa?
- Cortando a cabeça.
- E qual era o nome do filho dela?
- A Medusa não teve filho. Quando o Perseu cortou a cabeça dela, com um espelho, saiu um cavalo com asa, que se chamava Pégaso.
- Será que você consegue nadar?
- É difícil, pai?
- Não, mas você é muito fraquinho, só fica lendo, não brinca, não joga bola.
- Ele joga bola sim, você é que não vê, não pára em casa - manda a mãe, bigode de Malzbier.
- Brinca nada. Ele só me assusta - a irmã embicou, pra ganhar um chute na canela. - Ele me bateu!
- Vou pra biblioteca fazer a digestão! Daqui a duas horas quero ir pra piscina!
Tinha sete anos e seu melhor amigo era um sujeito com taturanas nos olhos: Monteiro Lobato. Naquele tempo, achava que taturana tinha borboletas dentro - era por isso que o Lobato escrevia tanto, porque tinha borboletas nos olhos e precisava escrever depressa. Depois de duas horas com um olho em Emília no país da Gramática e o outro nas pernas da bibliotecária ruiva e o cérebro espreguiçando-se em besteiras, pegou emprestado dois livros de terror e saiu correndo.
A mãe queria entrar com ele no banheiro.
- Todo tipo de tarado.
- Você entra com ele e eu peço o divórcio.
- Então vai você que é homem. Cuidado, filho.
Ele já vira o pau do pai em casa - o pai vivia andando pelado pra lá e pra cá. Mas a exposição de paus no vestiário era espantosa: todos os tamanhos, cores, formas, tortos para todos os lados, homens suados, molhados, falando grosso e alto, lavando a cabeça com força. E aquele cheiro forte, doce, salgado, enjoativo vapor masculino - realmente, um lugar desagradável. Muitíssimo envergonhado, meteu suas miudezas no azul do maiô novo.
- Deixa de frescura, aqui é assim mesmo.
Escada acima, o pai o empurrava pela nuca feito se faz com cachorro. Seus olhos iam ao chão, o sol queimando duro o pé no solo amarelo; já perto o cheiro do cloro, o coração foi até a piscininha menor, onde se afogavam as crianças menores, como sua irmã.
- Vai lá primeiro, se acostumar.
As costas do pai, músculos lisos, vermelhos de sol, sumiram na água da piscina olímpica; da plataforma acima, a mãe acenou, mão e sorriso de nervosos contornos. Uma cigana lera em seu destino a morte por afogamento. O olhar dele vagou pelo parque aquático entre tchibuns e braçadas, barrigas peludas e gordas e bundas redondas, morenas, bolas infantis e risos irritantes, refrigerantes caídos nas esteiras ao lado dos óculos de sol, dos livros, dos bronzeadores, e sobre tudo o olhar esquivo do salva-vidas, enorme em seu pedestal, tudo como devia ser, domingo em popa. Um homem voou crucificado no centro dos nadadores sem acertar nenhum; por cinqüenta metros foi um peixe de vôo caudaloso entre duas faixas pretas, de repente raiando de cabeça lânguida, boca de medusa e olhos abissais - o pai. Debruçou-se na borda da piscina e abriu um sorriso para cima: não era a mãe, porém, sim um biquíni de bolinha amarelinha. Tão pequeno ele, o pai não o via; assim, podia agir espião, a guardar sua mãe lá na torre da plataforma, debaixo do guarda-sol. Mas a mãe não era uma princesa enclausurada, era uma mulher que tomava cerveja preta com um tio que ele não conhecia. E ria, a desgraçada. A bunda do biquíni e o bigode do tio. As águas lhe pertenceriam?
Tomou o rumo da piscininha das criancinhas.
A água era morna e morena de mijo. Andou um pouco entre aqueles seres seus pares, suas vozinhas, seus gestos portáteis e quebrados, suas bundas caindo pelas tabelas. A irmã, solitária, lhe sorria - tinha entrado junto com uma amiga da mãe. Ele foi exatamente para o outro lado. Que falta fazia um bom livro. E um cachimbo. Aquelas crianças o desesperavam. Um dia seria como Sherlock Holmes e tocaria violino sem ninguém pra encher o saco. Todo úmido, percebeu que de um dos cantos da piscina brotava um ralo na parede - se colocasse o pau junto dele, a água sendo sugada dava uma sensação gostosa. Ficou um tempo ali, como quem não quer nada, assistindo ao movimento, quando escutou um grito. Um garoto, que deveria estar fazendo o mesmo, teve o pingolim engolido pelo ralo. Pânico na piscina, o salva-vidas cai na água mijada. Pousa em seu ombro uma pesada mão:
- E aí, rapaz, vamos lá?
Detestava quando o pai o chamava de rapaz. Não era um rapaz nem uma criança: era um adolescente. Mas o pai não conhecia sutilezas:
- Um dois três e já!
E o jogou na piscina média. A água até que estava melhor - o problema eram os pés: onde ficava o chão? O piso nosso de cada dia, o corriqueiro amigo? Seus pés espadanavam como papa-léguas, e assim seus braços, esticados ao alto, então a água o pegou pelo pescoço e se enfiou raivosa no meu nariz, e tossiu, os ouvidos fazendo barulho de submarino em filme de sessão da tarde, e tossiu de novo, forte, os sons de fora agora dentro de uma bruma delirante. O pai o puxou de volta, jogou-o para cima, tal uma bola como as que ali vagavam, e caiu novamente, no meio da piscina - subiu à superfície, os pés cansando-se, a irmã ria; vai tomar tanto croque, besta; o cabelo engolfando a cara, tossiu de novo e de novo, onde estava a mãe para salvá-lo desse monstro? Novamente pescado pelos braços grossos do pai, elevado ao céu, a mãe na plataforma com o tio, por trás do sorriso de pirata do pai grande piscando um olho, e de novo na água: um cão danado ele era, cachorrinho nadando, ganindo na barra da saia da mãe, cachorro com a irmã, canzarrão favorito do pai que o empurrava a cabeça para baixo d'água por água abaixo desenvolvia-se esse estranho batismo em nome do pai, do filho, dos espíritos de porco que riam e gargalhavam de seu simiesco nado, nada era, embora num salto mais forte - peixe-voador afogado no próprio vôo -, olhos esbugalhados no beijo da mãe no tio na plataforma e na beira da piscina o pai sorrindo entre biquínis e rindo nas veias saltadas e o mergulho no fundo da piscina, os pés batendo e ele voltando e tossindo pelo beijo de cloro e choro, cansado, cansado, muito cansado, a boa água doce o levaria e ele enfim pertenceria, afinal cercado, abraçado por todos os lados, pelos braços do pai que o arranca da piscina, dando tapinhas nas costas para tirar a água, de que são os lábios que lhe mordem a boca? serão os peixes mastigando-o frios em alto mar ou uma âncora no pescoço? mas não, são os do pai, a lhe respirar, trazendo-lhe, refletidos nos olhos, nuvens brancas e o azul do céu.
O céu.
O céu se fechou com cinzentas dobradiças.
- Estranho, sua mãe não falar nada. Vai ver não viu. Não fala disso com ela que ela me mata.
O cheeseburguer esfria no prato, moscas zumbem no ouvido e duas abelhas entraram no copo de coca da irmã. Fritando, a pele. A mãe voltou segurando dois livros.
- Esqueceu na biblioteca, seu moço. Se eu não estivesse lá... vamos?
Quis ir para a piscina de novo, mas esfriava, cinco da tarde. As nuvens caraminholavam no horizonte uma enorme chuva - e, segundo a mãe, quando chove as piscinas ficam mais inseguras, pois atraem os raios. O pai, vestido de perfume, assentiu.
No ponto de ônibus, outra escaramuça com a irmã. Os pais davam-se as mãos. Na verdade, tempos depois, quem o ensinou a nadar foi um professor de natação. Os pais separaram-se; começou a chover forte; seu cabelo recendia a cloro. Outras coisas o pai lhe ensinou. Como a segurar bem alto - seguro, pra que ninguém se molhasse - o guarda-chuva.
[Inverno, 1995.]
Postado por Faker às 15:23
....................................................................................................................
RONALDO BRESSANE
| comentários (7)
:: abril 10, 2004 12:29 AM