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O livro escrito por sua melhor personagem
por Tony Monti

Começo pela dor ou pelo gozo? Misturo tudo, vou dizendo, para não fugir ao clima de Das coisas esquecidas atrás da estante. Conversei pela primeira vez com Clarah Averbuck em um bar, o mesmo Fun House citado no livro, ambos acompanhados de seus copos. Clarah em fase de moderação. Estava grávida. Clarah Averbuck é uma grande personagem. Antes disso, soube de sua existência pelo seu blogue, do qual nunca li mais que uma poucas linhas. Das coisas esquecidas atrás da estante é basicamente uma coletânea dos textos lá escritos.

"Fortalezas só nos protegem dos fracos. os fortes acabam entrando pela porta da frente, com a cabeça erguida, com nosso consentimento."

Nunca confiei muito nesse negócio de escritor de blogue. Comecei a ler o livro da Clarah com a sensação de que pararia antes da vigésima página. Não parei em página alguma. Li do começo ao fim e concluí o que agora é público: gostei. Não foi de tudo, mas gostei. Gostei principalmente de quando a autora fala da sua melhor personagem: Clarah Averbuck. E se parece muito com a que eu conheci no Fun House. Há as dores da leitura, é verdade, os trechos que me deram tempo demais para respirar. Há também um apego às vezes excessivo a algum dos elementos da sua "Santíssima Trindade" - Fante, Bukowski e Leminski -, o que a afastou de algum modo de si mesma. Mas os gozos da leitura são a maior parte do livro. Me envolveu a Clarah confusa no meio de seus amores regados a dor e prazer, da falta de uma casa, da falta de dinheiro, pouca disposição para o trabalho e dos trocados que discretamente recebe da mãe. Porque Clarah é a beberrona que vai à academia porque quer caber em suas calças, que às vezes quer ser a "princesinha" sem deixar de ostentar suas várias tatuagens, que se apaixona até a submissão voluntária, que tem ídolos a ponto de chamá-los de Santíssima Trindade, e reclama, e proclama sua liberdade. É consistente em suas contradições. É contraditória como fundamento, a contradição é uma das forças motrizes do texto.

"Não vou ser escrava de ninguém, nunca mais, só de mim mesma."

A personagem Clarah (pouco importa se é uma referência direta à autora ou se é uma grande mentira) se lembra umas vezes de que o mundo não faz muito sentido. Na maior parte do tempo, no entanto, percorre os fragmentos de texto (os posts do blogue) se agarrando a um sentido ou outro, a seus homens, seus maços de Lucky Strike, a seus amigos, a seus gatos, a suas compras.

"Que novidade. Ficção acontece comigo o tempo todo"

Das coisas esquecidas atrás da estante é fragmentado como um blogue. Se por um lado perde por não tratar exclusivamente da grande personagem Clarah, ganha muito por reforçar a charmosa inconstância dessa personagem, inclusive pelo fato de a autora-persongem ter escrito textos tão diferentes no tom: a superficialidade de histórias simples como a do gordo do ônibus ou do marreco recheado contraposta à profundidade em algumas de suas viagens introspectivas. Fiquei com vontade de ver a Clarah num texto mais longo, tentando controlar ao máximo seu estilo, para levar as tensões aos níveis mais altos o tempo todo. Sem dar a chance de o leitor respirar, organizando no extremo sua reflexão e construindo da ordem seu caos.

Pode ler. Clarah Averbuck é uma boa personagem que escreve bem.


* Tony Monti é autor de O Mentiroso (Editora 7 Letras, coleção Rocinante), vencedor do Prêmio Nascente 2002 (organizado pela USP e pela Editora Abril). Escreve em www.monti.blogger.com.br



| comentários (3)

:: abril 10, 2004 01:12 AM



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