[do Epiderme]
Segunda-feira, Dezembro 15, 2003
[queria te escrever uma carta colorida
numa limpa folha branca de farinha de mandioca
e te provar com um pouco de goiabada]
posted by AUGUSTO SALES 12:57 PM
MORTE SÚBITA I
O morto já cheirava mal.
Hermes estava morto desde os quarenta e poucos e não se dera conta. O trabalho na repartição era uma das poucas coisas que ainda obrigava o falecido a levantar-se pela manhã, escovar os dentes e usar loção no rosto. A esta altura da vida, filhos criados, aposentado e viúvo, Hermes ainda teria de esperar pelo menos uns quinze anos pela extrema unção da igreja.
Esperaria sentado.
posted by AUGUSTO SALES 12:44 AM
Quinta-feira, Abril 01, 2004
MORTE SÚBITA II
Acordou morta naquela manhã. Abriu os olhos, se espreguiçou na cama e nem se deu conta que morrera. Aliás, morrera aos poucos, nos últimos sete anos, desde que decidira não amar mais assim homem nenhum. Uma morte que, começando dolorosa, chega ao seu fim quase imperceptível.
Levantou-se. Hora de pegar no batente. Vestiu-se de trabalho e partiu porta a fora como todo dia.
posted by AUGUSTO SALES 10:13 AM
Quinta-feira, Novembro 27, 2003

- Meninas, vocês não sabem, fiquei casada.
- Mas assim do nada? Você não se precavia? Não tomava nada?
- Ai, nem me fala, tava me sentindo enjoada, umas tonteiras... fiz um teste de farmácia e batata: deu positivo.
- Meodeus! E o que vai fazer, já contou pra alguém?
- Falei com meu médico, eu vou tirar, eu simplesmente não posso levar ter esse marido agora assim tão nova. Tem a faculdade pra terminar, tem aquele cara, o Carlão, que ainda estou ligada nele, quero fazer uma viagem pra Índia, morar fora algum tempo, trocar de emprego... Muita coisa! O médico falou que é tranquilo, tem apenas 2 semanas, não tem muito risco não, e a medicina tem avançado muito nessa área.
- Ah eu faria o mesmo, sabe. Olha, conheço uma clínica ótima ali no Grajaú, tenho uma amiga, a Clarinha, que já fez uma operação dessas lá e tudo correu bem.
- Meninas, tenho que ir, tô atrasadíssima, meu marido chega do trabalho daqui a pouco e não fiz nada pro jantar ainda.
posted by AUGUSTO SALES 1:01 PM
Domingo, Dezembro 07, 2003
o domingo de domingues
domingues resolveu fazer uma faxina em casa enquanto tocava sua limpeza interior paulatinamente. se desfez de uma pá de coisas: papéis velhos, anotações que não queria mais saber, cadernos de telefones de pessoas que já passaram, um bloco cheio de coisas escritas numa fase meio louca de sua vida, muitos, mas muitos, papeizinhos soltos, fotos amareladas e até um relógio enguiçado.
- arrumando a casa e a vida - ele me disse sorrindo.
na segunda-feira passei em sua casa para jogar conversa fora e soube que ele tinha pego carona no caminhão da limpeza pública e partido para o norte.
posted by AUGUSTO SALES 6:23 PM
Terça-feira, Setembro 23, 2003
Dona Lourdes
da série «Crônicas da Repartição»
Dona Lourdes é a senhora que cuida da faxina aqui da repartição. Todos os dias à noite ela percorre todos os corredores recolhendo o lixo e deixando uma certa fragrância no ar.
Fragrância. Não se poderia tecnicamente chamar aquilo de fragrância, mas no máximo um cheiro. Um cheiro forte. Doce. Barato.
Apesar das rugas profundas, suas feições finas revelavam que já fora bela outrora. Talvez o trabalho, a viuvez, a vida a tivesse marcado. Todo dia naquela mesma hora Dona Lourdes adentrava os escritórios. Trazia no seu corpo uma essência gasta e repetida de anos. Trabalhava na repartição há anos e sempre sentia em Dona Lourdes o mesmo perfume doce que impregnava os móveis, o carpete, as roupas, a pele que quem fosse vivo ou morto, respirasse ou não àquela hora.
Ela marcaria sua presença pelo cheiro. Incensaria o ambiente. Talvez existisse uma razão escondida em tudo aquilo. Após a morte de seu marido Dona Lourdes não «conhecera» mais homem. Por anos ela não estaria pronta para o amor. Aquela bunda mole, aqueles seios flácidos e fartos, o pouco gosto para a vaidade, as rugas, o tempo desperdiçado ruminando a morte do marido - que pelo que dizem, nem tão bom marido assim o era - o complicaria ainda mais o seu intento.
De alguma forma, hibernava em Dona Lourdes uma esperança de menina, uma esperança daquelas de que um dia surgiria um cavaleiro que a desposaria e a tiraria daquela vida de limpar privadas e pedir «dá licença» ao entrar nos recintos por onde passaria seu espanador ou o desinfetante. Talvez por essa razão usasse um perfume tão forte, na esperança de conquistar um homem, que seduzido pelo seu cheiro a tomaria por mulher. O perfume penetrava todos os meandros do escritório, cada canto de parede, cada biombo, nada haveria de escapar. Como um animal que seduz e é seduzido pelo cheiro, Dona Lourdes esperava todas as noites por este grande dia.
posted by AUGUSTO SALES 10:35 AM
Sábado, Novembro 01, 2003
Absintho
Com um lápis sem ponta escrevi teu nome num pedaço de papel invisível.
posted by AUGUSTO SALES 8:50 AM
Domingo, Março 14, 2004
PARIS
« And the most beautiful piece of art within the famous gallery was with no doubt that skinny French girl sitting on an ordinary non-artistic black chair who were trying to protect those supposed treasury of modern art from primitive people like me. Primitive enough to do not understand that pictures were not allowed on that room. »
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posted by AUGUSTO SALES 7:53 AM
| comentários (2)
:: abril 11, 2004 09:56 PM