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Sebo nas Canelas - Da solidariedade de estranhos
por Fábio Fernandes

(Da série: Arqueologia de sebos)

Sebo para mim é coisa séria. Tenho uma ética muito particular ao tratar dessas padarias espirituais (Padaria Espiritual era o nome de um movimento literário cearense do século XIX e também, se não me engano, de uma livraria curitibana de priscas eras, que meu professor de tradução, Daniel Brilhante de Brito, freqüentou e da qual me falou maravilhas há muitos anos). Se o sebo é bom, recomendo fervorosamente aos amantes dos bons livros e discos. Se é ruim ou – suprema heresia – atende mal, não costumo (salvo exceções extraodinárias) sequer falar mal dele, que é para não fazer propaganda inadvertidamente. Simplesmente ignoro e coloco do lado de fora do palácio da minha memória, que tem muito mais coisas interessantes para armazenar do que grosseria de atendentes ou preços descabidos.

Hoje mesmo (escrevo este texto no dia 6 de fevereiro) passei por uma situação dessas. Encontrei um sebo novo no Itaim-Bibi, que era claro, arejado e limpo como a maioria dos sebos deve ser hoje – para alegria de quem, como eu, desenvolveu uma infeliz alergia a ácaros. Fui cumprimentado pela atendente, uma senhora de óculos, provavelmente a dona do estabelecimento.

Parti para browsear as estantes... e me choquei com o preço altíssimo dos livros. Por exemplo, a ótima biografia de Balzac por Graham Robb, que pode ser encontrada nas boas casas do ramo por cerca de 25 reais, estava ali a 50 mangos! Detalhe um: segundo o site da Livraria Cultura, um exemplar novo deste livro custa 65 reais. Detalhe dois: a capa estava com sérios sinais de desgaste, coisa que, para todo dono de sebo consciente (eu sei porque já fui um – mas sobre isso falarei em outra ocasião), é motivo de um bom desconto.

Quando eu já ia saindo, um rapaz entrou e perguntou à senhora se ela estava comprando livros. Estava; ele se dirigiu até o balcão e lhe mostrou apenas três livros. Um em perfeito estado (Cosmópolis, o romance mais recente de Don DeLillo publicado por aqui) e outros dois nem tanto (livros de sociologia da década de 1970).

Quem já vendeu livros para sebos sabe que a coisa é difícil. Primeiro porque dono de sebo não é colecionador: ele não vai mesmo pagar o preço que você gostaria de receber pelos livros, por melhores ou mais raros que estes sejam. Segundo: se você levar poucos livros, pode esquecer. O que você vai receber dificilmente dará sequer para um McLanche Feliz, quanto mais para comprar outro livro.

Foi o caso em questão. A senhora ofereceu cinco reais pelos três livros. Um absurdo, claro, ainda mais se lembrarmos de que havia um livro novo no liliputiano lote do rapaz. Que não se fez de rogado e apontou exatamente isso, dizendo: “Mas eu comprei este livro por 35 reais na semana passada, acabei de ler ontem mesmo!” Parecia verdade: o livro estava impecável. E era um Don DeLillo, coisa que (talvez, mas apenas talvez) a senhora não estivesse se dando conta. Don DeLillo vende.

Então acabei fazendo algo que jamais tinha feito em meus dezessete anos de sebagem: de onde estava, fiz um gesto discreto para o rapaz, apontando para o livro e indicando a calçada lá fora. Como num romance de John Le Carré (que também é muito bom, recomendo), ele fez que sim. Agradeceu à senhora e foi saindo. Eu atrás.

Puxei papo com ele, lamentei a venda frustrada e ofereci dez reais pelo DeLillo. O rapaz topou na hora. Coloquei-o dentro da minha indefectível bolsa a tiracolo, onde, como vocês já sabem, nunca levo menos de dois livros. O outro era All Tomorrow’s Parties, de William Gibson, que estou relendo para o mestrado. Cosmópolis vai ter de esperar um pouco – mas só um pouco.

Vocês devem ter reparado que eu não dei o endereço exato do sebo citado acima, nem disse o nome do estabelecimento. Não percam tempo com sebos que vendem livros a preços exorbitantes – e compram por centavos. Na dúvida, melhor vender para um amigo, ou um colega sebista na porta da loja. Ninguém sai perdendo e você ainda é solidário com o próximo. E afinal, como dizia Henfil, a vida é muito curta para ser pequena. //

Fábio Fernandes

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SEBO NAS CANELAS é uma iniciativa que tem por objetivo visitar e conversar com esses batalhadores livreiros de livros usados que são uma verdadeira mão na roda para garimpeiros literários e super necessários para a vida de leitores compulsivos nas crises de abstinência do que ler.

Se você conhece um sebo interessante perto de sua casa e gostaria de indicar para a Paralelos, ou gostaria de colaborar com um texto sobre um sebo que você gosta ou mesmo se você é livreiro e gostaria de ver seu sebo aqui no SEBO NAS CANELAS, entre em contato conosco através do e-mail colabora@paralelos.org.



| comentários (0)

:: maio 3, 2004 11:27 PM



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