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BaléRalé
por Marcelino Freire

A sagração da Primavera

Ele, o bailarino, esteve em minha casa ontem e mais uma vez não quis dançar. Ai, por quê? Eu insisti, blablá. Tímido, ele ficou com as pernas amarelas cruzadas, a posição do medo. Medo de que, Nossa Senhora, de quê? Somos todos amigos. O sarau que realizamos prova isso. O povo à vontade, o povo sem maldade, o povo um povo só sensibilidade.

O bailarino ali, cheio de dedos. Que mistério, anda logo. E ele se desculpava, a gripe paralisante, não ensaiou um número. Ora, qualquer passo. Marinalva, por exemplo, já havia dado a sua contribuição com um poema de seis linhas, horroroso, a gente projeta o ânimo no violão de Gustavinho, eu não acho Gustavinho gostoso.

A verdade, muito cá para nós, é que fui me apaixonando pelo bailarino.
Isso mesmo, criatura. Ele, no seu canto, nenhum gole de vinho. Água sem gás, a cor das unhas. O homem ao natural, o homem sem pêlo, o homem com cheiro de mulher. Ele parecia um espelho, algo bom que a gente só encontra dentro do espelho. Sei que esse papo tá meio viado, mas eu não tenho preconceito. Comecei a me mexer na cadeira, a ficar nervosa, a me senti uma assassina de cisne. Tesão por cisne. Meu Pai, eu quero comer um cisne hoje. Cozido.

- Hoje, não.

Ele não queria. Eu querendo ver o bailarino rodopiando, os pés e os braços feito catavento. Não tinha jeito que o fizesse mudar de estratégia. Nào e não e não.

Eu via o bailarino como um cavalo azul. O quê? Ai, feito um cavalo azul. Comentei com Mayara, Mayara comentou que eu precisava era de um homem como Gustavinho, sensível, dedilhando viril as músicas do Brasil. Todo bailarino é boiola, menina. Bailarino uma bailarina. Plumosa. O vento bate na pluma e a pluma pluma.

- Ai, que bunda!

A do bailarino quando se levantou e foi à cozinha. Eu fui atrás como uma cachorrinha. Mayara me beliscou, mayara não se conformava. Mayara não entende que a vida não é nada macha. A vida é feminina.

- Preciso ver você dançar.
- Aqui não é o lugar.

O lugar é o quarto, pensei. O bailarino nu, nuzinho ao meu lado, toda mulher que eu gostaria de ser. Mulher amada. Mulher deitada como uma flor, a esposa do amor. O toque do cabelo à ponta dos pés. Meu único amor. O lençol girando, sedutor. Meus olhos embriagados, sem saber o que dizer, falei:

- Vi os russos na TV.
- Russos?

Sim, russos. Nunca ouvi falar de bailarinos americanos. Tem Fred Astaire. Mas Fred Astaire era feio, baixinho, ninguém chega aos pés do homem dos meus sonhos. Sonhos. Fred Astaire é engano, parecia muito mais um sul-americano. Gustavinho veio à cozinha, comentou: “Como tem homossexual nesse sarau”.
O quê? Bato na cara desse cachorro. Cara-de-pau. De que adianta ser cara-de-pau? Meu bailarino sorriu e zarpou, de fininho. Meu coração é um coraçãozinho.

- Vai tomar no olho do seu cu. Mandei o Gustavinho tomar no cu. Pau-mandado. Nunca vou me apaixonar por você, seu viado.

Você, você.

O bailarino me fez lembrar um garoto da minha rua. Eu vestia a roupa dele e ele as minhas. Eu arranjava uma barba mínima, ele fazia uma cabeleira com o lençol, subia árvores com a minha calcinha. Éramos os dois uns oito, nove anos. Um dia nos beijamos. Ele minha mulher. Eu, o médico, examinando o pau que ele escondia, fazia sumir dentro das perninhas. Que coisa bonitinha. Eu beijava sua teta. Eu, a banana. Ele, a Carmem Miranda.

- Nijisnki.
- Hã?
- Você já ouviu falar de Nijinski?

Perguntei pra Mayara outro dia. Ela estava lá em casa, como sempre, roubando coisas da minha geladeira, dando uma de conselheira, mexendo a colher na sopa alheia.

Respondi:

- Nijinski nasceu russo, em 1890, e morreu em Londres, aos cinquenta anos. Aos 10, entrou para a escola de balé. Dançou ao lado de Pavlova. Você já ouviu falar em Pavlova?
- Pavlova?
- Anna Pavlova.

Qual mesmo a diferença entre Anna Pavlova e Ana Botafogo? Pesquisei a vida de Nijinski – e gritei da sala quando descobri. Meu Deus, Mayara ficou pasma com o que eu descobri: Nijinski foi casado.

Foi casado com uma mulher chamada Romula de Pulski. Foi ela quem publicou o diário onde ele registrou os primeiros sinais de enfermidade mental etc e tal.
Mayara riu que chorou. Mayara me ama, eu sei. Não é possível que me faça bem me ver baqueada, arrasada com comentários do tipo: “Nijinski morreu doida”, ou “Bichinha complicada”.

Mandei Mayara à merda.

Tive uma idéia: inventei que precisava de aulas de respiração, isso, aulas de respiração. Meu abdome anda em contramão, essas coisas loucas.

O bailarino topou. Marcou comigo às seis e meia para um primeiro papo e não deu as caras e bocas. Metido, vai ver que percebeu o meu intteresse exacerbado, eu já amo de imediato. Mayara mor-ria: eu precisava era de um garanhão como Gustavinho. Eu tinha mais de música popular, fazer aulas de violão. Engolisse a respiração. Aulas de violão, querida, vi-o-lão.

E o bailarino, a essas alturas, onde andaria? Quebrarei nozes na cabeça desse porra, o que ele está pensando? Marcar comigo e não aparecer.

Eu pensando nele, roendo na memória o garoto da minha rua: o nome dele.
O garoto da minha rua, qual era mesmo o nome dele? Nào tive mais notícias do garoto da minha rua. A minha riua foi pra lua. O garoto deve ter ido para a Itália.

Deve ter se prostituído. Deve ter morrido. O meu amor pelo bailarino nem havia nascido. Mayara tem uma razão terrível: todos os homens são iguais. Ou. Todos os bailarinos. Mayara me ama mais que o bailarino. Nào, nào vou dr meu ouvido a Mayara. Mayara é sapatão, não duvido. Sapatão contra a sapatilha.
É isso. Não sei mais o que fazer da minha vida.

Ele não vem.

Dancei.

O balanço do telefone me acordou. Ai, era ele, o bailarino. Ai, era ele, me despenteando. Ai, era ele, me levando pela mão, pedindo os sinceros pedidos de perdão, o balé municipal que o prendeu, véspra de temporada, mas que ele marcaria uma nova data, que não poderia dar aulas demoradas, mas prometeu alguns truques para melhor aproveitamento do meu corpo, que já era dele – meu corpo para pisar, saltar, beijar, fazer dos meus peitos e joelhos o que seu improviso pudesse articular.

- Você já ouviu falar em Irina Baronova?

Mayara disse que não.

E Alicia Markova, Galina Ulanova?

Não.

Mayara moscou.

Fui pesquisar: descobri que o garoto de minha rua virou Susan Star.
Fui vê-lo dançar na Praça da República – uma boate gay da Praça da República. Todos tinham olhos para mim quando entrei: todos queriam saber o que eu fazia ali. Nem eu sabia.

Fui rever o garoto de minha rua. Seu pé arqueava, o tornozelo estreito e flexível. Projetava o corpo a uma boa altura. Os homens fumavam.

A boate tem uma flor imensa na porta do banheiro. Há girassóis coloridas. O seu nome: Alê. Lembro: Alê. É uma merda e – o garoto de minha rua virou mulher sem a minha ajuda. Vi o show que ele fez, aplaudi, pensei no balé de Bolshoi, brochei, minimizei a minha vida: nunca quis ser uma estrela. Nunca quis ser mais do que fui. Me aproximei: o que dizer para Alê? Dizer de minha alegria. Fui ao camarim. Alê, lembra quando eu me vestia de você? Chorei, abracei-me no espelho. Fomos tomar caipirinha. De vodca. Quanto tempo, quanta coisa que demora a acontecer.

Você, você.

O bailarino voltou, mas não para as aulas de respiração, eu ofegante por ele. Ele voltou num daqueles nossos encontros, Gustavinho, babaquinho, tocando “Ai que linda namorada você poderia ser”, Marinalva recitando uns três poeminhas de seis linhas cada, horrorosos, e eu violentamaente apaixonada pelo meu dançararino, o que faço? Todo sarau é um saco. Por que todo sarau tem que ser um saco? Por que tudo tem que ser um saco? Por que não abro escala e me despedaço?

- Encontrei seu bailarino com outro cara, disse Mayara.
- Invejosa.
- Aos beijos.
- Invejosa.
- Numa boate.
- Invejosa.

Mayara gritou, bêbada: “hoje o superbailarino vai dançar para nós”.

Um porre. Mayara era invejosa. Quis criar vexame, não deixar eu curtir em paz a minha paixão fugaz e superlativa. Viva, viva. Ele topou. O bailarino levantou calçado a rigor, a bunda firme. E dançou. Dançou. Um gozo esse nosso entusiasmo, a vida merece o prazer dessas horas. Amar a quem encanta – mais que violão, mais que mosca morta. Mayara igualmente hipnotizada. Pulsávamos todos.

Ai. O meu desejo é leve e vai com ele. O desejo vai ao céu. Faria tudo, me cortaria aos seus pés, me perperturaria em sua escrava. Faria miséria para ser feliz. Meu homem num brilho azul, festim, num cavalo galopante, amor, amor.
Quando eu aplaudi, mandei beijos, chorei, chorei, oh. Exaltei a cultura de nosso país, menina, o estado desumano que a Russia se encontrava, o cu da Praça da República.

- Lindo, lindo, mas que é bicha, é bicha, Mayara gritou no meio de todo mundo.

Não acreditei. Fui aos tapas. Ninguém entendeu a confusão generalizada. Porra, será que meu coração não pode ser enganado? Que meu coração sabe tudo? Por que meu coração não pode se sentir atraído pela Susan Star, caralho? Ou pela Isadora Duncan, por exemplo?

Há quanto tempo. Contei para Susan Star o meu sofrimento.

Os homens fumavam os olhos uns dos outros. A boate era mesquinha para o seu talento. Susan Star, um deslumbramento. Não sei. Saímos pela praça, de mãos dadas. Preparei um passo, um gesto, uma proximidade infinita. Num vôo o conquistaria.

Nunca vi seus olhos tão de perto, maquiados, assim, como se fossem feitos para mim. “Eu quero comer você”. Eu mais uma vez ia virar o homem do garoto de minha rua. Meu amor cega como purpurina. Purpurina cega. Purpurina pura.

[O trecho acima é parte integrante do livro BaléRalé, de Marcelino Freire, publicado pela Ateliê Editorial.]



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:: julho 2, 2004 03:37 AM


Marcelino Freire nasceu em 1967 na cidade de Sertânia, Sertão de Pernambuco. Vive em São Paulo, vindo do Recife, desde 1991. Escreveu, entre outros, "eraOdito", "Angu de Sangue" e "BaléRalé", todos publicados pela Ateliê Editorial, São Paulo. Atualmente, prepara o seu primeiro romance, intitulado "GonzaH", a ser lançado no ano que vem.

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