‘Corpo Presente’, de João Paulo Cuenca.
Ed. Planeta. 140 págs.
Uma das primeiras reações do leitor diante do material narrativo de Corpo Presente é algo bastante próximo a repulsa. Aparentemente, não há estória alguma, e as constantes encenações de relações sexuais se tornam repetitivas, descritas seguindo fórmulas fáceis e pouco engenhosas, sem cor. E, claro, para boa parte dos leitores não se passa de um livro qualquer, enfadonho. Talvez, para aqueles com mais hormônios, uma leitura para embalar a madrugada, um estimulante, nada mais e além. Por dias, depois de três inícios falsos de resenha, que foram logo descartadas, desisti realmente de escrever algo sobre o livro, e cheguei inclusive a considerá-lo um desastre completo, daqueles que me irritam profundamente quando atravessam minha vida de tempo sempre contado. Estava resolvido, até poucas horas atrás, a manter meu silêncio. Porém, foi pensando durante meu almoço, ruminando minha comida e olhando os cachos de uva dos azulejos da parede, que finalmente me ocorreu a medida exata pela qual o texto de Cuenca se torna finalmente válido (e fiquei feliz de preencher finalmente algumas folhas de caderno seu romance que me foi desde o primeiro capítulo antipático): sua geração. Depois de vociferar dias sem fim contra o livro, entendi que se deve justamente odiá-lo. Sem muitas delongas, Cuenca escreveu talvez o romance emblemático de certa fatia de sua geração. A constante encenação de narrativas por parte do protagonista, a maior parte delas impossíveis, demonstram que o vazio em que as pessoas na faixa de idade dos vinte e poucos anos hoje se encontram só pode ser preenchida, sem resistência, por aquilo que o ambiente deles lhe dá. No ápice de uma sociedade egoísta (onde até os projetos sociais são personalistas) o narrador de Cuenca se defende justamente abrindo mão de todo pensamento, restando-lhe apenas o narcisismo físico, o corpo como linguagem – o corpo como pensamento.
Mesmo assim, o que mais há em Corpo Presente além dessa premissa que encontrei enquanto mastigava um bife? Nada, absolutamente nada. E é justamente nesse ponto que se encontra o desafio: o que escrever sobre ele? o que levou alguém a criar um romance desses? e qual a finalidade de se publicar um texto cujo maior mérito é ser completamente vazio? A maior parte das resenhas que li enquanto pesquisei não me responderam qualquer uma dessas perguntas, e por dias repisei e tentei encontrar no texto algo que em nenhum momento o narrador se propôs a me demonstrar: um sentido. A luta contra o vácuo, no livro, é preenchido por um instrumento poderoso e soberano: a imaginação. As dezenas de identidades de Carmem, do narrador e de Alberto são os ecos de um grito de desabafo, a agonizante confissão de uma geração sem ídolos, sem ideologia, sem tradição. E também, em sua aparente anarquia, de uma profunda solidão: numa Copacabana tomada por milhares de pessoas, apenas três sobrevivem – e como podem. São todos, e são ninguém. “Você sabe, a gente não escreve direito. A gente não consegue escrever mais de duas páginas. A gente faz crônica e conto, mas não tem conteúdo para escrever um romance.” Mas se cria, apesar de tudo, cento e quarenta páginas!!! Há algo de muito estranho em Corpo Presente, algo sintomático. Então, recusar o livro (como fiz de imediato) é virar de costas para um problema muito sério, que deve ser debatido. Essa geração, a nossa geração, está sem saída alguma, trancada, dias e dias, em quartos esperando que algo aconteça, e a falta de conteúdo de nossos romances é a ausência de chão para ser pisado, a multiplicação, exatamente como as centenas de Carmens, de caminhos turvos que se mostram, não raro, de modo ambíguo. O jovem de classe média que mora na cidade é muito semelhante ao narrador de Cuenca: está reduzido à sua físicalidade imediata, e quando se expressa, a linguagem que apresenta é repleta de lugares-comuns. Até o sexo em Cuenca é vazio, mecânico, cheio de fluídos e sem nenhuma fantasia. Ou seja, no mundo de seu narrador até o produto de sua imaginação – a matéria de seus sonhos – é destituída completamente de uma natureza etérea e independente de uma lógica hegemonia, que hoje rege a realidade, em que somente o material tem valor, e é somente pelo material que se pode interagir com os outros. Houve um tempo em que solos de guitarra representavam liberdade, mas em Cuenca eles são ridículos, falsos. Não há mais no que se agarrar, nem mesmo em Carmem. Então, que dessa situação surja um texto tão longo demonstra a vitória de uma vocação que vai além do ambiente árido que se encontra. Daí nasce um impasse: acredito na honestidade de cada palavra do romance, só não acredito no romance. E acredito, depois de muito refletir, que não se deve acreditar mesmo nele, e que talvez essa seja sua finalidade: gerar repulsa, criar um mal estar ao que ele representa. Penso, então, como uma forma de defesa: “Não, Cuenca, seu narrador está errado, nós podemos escrever bem, sim, claro, e com calma e sabedoria qualquer coisa está ao nosso alcance; e não devemos buscar Carmem, não precisamos de Carmem alguma, somos donos de nossa própria vontade e damos nós mesmos os sentidos de nossas vidas. Nós pensamos e sentimos, e estamos seguindo em frente, até onde nossos passos agüentarem.” Contra esse sentimento de impotência, repeti em outra época, à alguns anos, essa mesma invectiva contra Godot, com uma violência muito maior que essa, mas não se passam dois meses sem que eu retorne à Beckett. Não sei se retornarei à Carmem, ou se ela sobreviverá em mim, mas sua imagem me despertou uma ira particular que, embora seja improvável, pode vir a se tornar um amor cifrado. Gostaria, sinceramente, que isso não acontecesse: espero não amar Carmem. Porém, esperava não amar Godot, e ele se tornou uma ausência tranqüila. Mas as coisas seguem fora do controle, sempre.
A “finalidade” de Corpo Presente pode ser justamente essa: despertar a ira de alguns. Estou completamente contra o livro e o que ele representa; e a relação estreita com o mundo do narrador pode ser combatida, deve ser combatida. O problema que esse romance levanta é muito sério e Cuenca tem o mérito de colocá-lo em evidência. Tem o mérito artístico de criar o transtorno que é esse livro que me incomodou de maneira tão severa que até pensei em jogá-lo fora junto com a limpeza de papéis e rascunhos e material abortado que fiz em minhas coisas esse último final de semana, e creio sinceramente que em nenhum momento deve-se questionar o direito de Cuenca de se expressar da maneira que ele bem quiser, com as palavras que escolher, aquilo que ele bem desejar. (Confundir Cuenca com seu narrador seria ingênuo, e meu problema é exclusivamente com seu narrador – com a literatura que esse narrador cria.) Acredito que o olhar insistente pode vencer o vazio, e que nossa geração não precisa ser vítima do mundo que herdou. Se do século XX nos restou apenas esse terrível vácuo, podemos responder com humanismo; toda ruína antecede uma construção, e depende apenas da vontade de nossa geração que ela seja bela, ou que não seja nada. Deve-se seguir adiante, apesar de Carmem, e apesar de Corpo Presente. Mas não apesar de João Paulo Cuenca, que é um artista que realmente acredita em cada palavra que escreveu, e que deverá vir ainda com mais algumas narrativas num futuro não muito distante. Devo confessar que um dos argumentos que usei com mais insistência para abortar todas as três resenhas anteriores sobre esse romance foi a de que sem estar emocionalmente envolvido com o material não consigo produzir e criar. Escrevi essa resenha, que agora termina, mais estimulado a responder à provocação de Carmem, de Alberto e desse desagradável narrador do que pelo sentimento que geralmente usei para resenhar livros de dois anos para cá. Há bons frutos que são cultivados sem a menor nobreza. Que os leitores também aceitem o desafio e se posicionem, que leiam o romance, e escolham os passos que querem dar. Eu já escolhi os meus.
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:: julho 6, 2004 03:02 PM