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Flúor verde-oliva
por Leandro Gejfinbein

Na confusão de gente amontoada, insetos em vôos rasantes e aqueles gritos, e aquele cheiro, abriram espaço dois soldados tendo nos braços um colega ferido. Ninguém espera leitos vagos em um hospital de guerra. O médico, escolhendo rápido, removeu um moribundo que fora operado, mas estava na cara que, com meio tronco, órgãos órfãos espalhados, dificilmente voltaria à América que não sob madeira ornamentada de listras e estrelas. Ajudou-lhe um soldado raso, que trouxe o saco onde aquelas carnes reviradas seriam depositadas. O doutor virou de lado o amontoado de cobertores ensangüentados, que faziam vezes de colchão. O cheiro do ferido e do corpo dentro do saco uniam-se, levitando a bons palmos do solo, levando três enfermeiros e o pobre soldado raso a caírem desmaiados. O ferido então foi colocado deitado.

Urrava de dor e tinha suas calças arrombadas e avermelhadas. Mas ao que o doutor sacou instrumentos com o intuito de examinar o buraco, foi pego pelo braço com a maior das forças, pelo soldado. O desespero, apontava, em nada tinha a ver com a perna dilacerada, mas com um inimigo dentário. Olhando com cuidado o dente indicado, o doutor também quase teve um desmaio. O tal estava podre, preto, e seu estrago já chegava aos outros molares. O hálito, inacreditável, fazia parecer lavanda o perfume de qualquer intestino estourado por pólvora.

Com cuidado foi introduzindo aquele objeto comprido e pontiagudo. O soldado foi ficando apavorado. Suas mãos fortes e vermelhas apertavam um lenço. Se quieto, doía como nada no mundo, e agora? Só ele saberia. O doutor então tocou o inferno. Ouviu-se um berro tão alto que oficiais que passavam do lado de fora se sentiram obrigados a tomar conhecimento do fato. O doutor, concentrado no trabalho, suava que encharcava as botas. Fez mais uma tentativa. Chorava o soldado. A ponta tocava o dente, o dente irradiava insuportável dor para a cabeça, depois para todo resto. Dor que misturava à ferida na perna. O homem de dois metros gritava, chorava. Precisou ter o pescoço amarrado. O hospital experimentava pela primeira vez desde o início da guerra, um silêncio total que ia dos fundos até a porta de entrada. Todos compartilhando do sofrimento do bravo soldado.

Mais uma tentativa frustrada e o médico não teve dúvidas: aquilo precisava ser arrancado. Alcançaram-lhe o alicate. Pediu ajuda a outros saldados. Seguraram-no. Lentamente a abertura da ferramenta foi tomando a forma e tamanho do dente. As pinças encaixaram-se e, cerrando os olhos, o doutor puxou como se fosse um Hércules. Ecoaram, desta vez por toda base, os berros do coitado. Tremia, gemia. Não entendia que pecado cometera na vida. Gemia, tremia. Gritava e precisou ser informado, em um olhar decepcionado, que tamanha decomposição da estrutura dentária provocara um acidente ainda mais grave: esfacelou-se, o dente, com a puxada, e permanecera meia parte. Nervos, raiz e uma crosta feita de carne estragada da gengiva, bactérias e esmalte era o que se via. Quebrado, do canal agora exposto foi subindo uma maré de sangue. Com pensamento acelerado, o doutor tentou estancar com o próprio dedo, que no toque, agora, reconhecia algo mais mole. Gemia o coitado. Gritava. Tremia.

Decidiu outra vez então o médico: esqueçamos a urgência. Este homem precisa de um alívio. Rezemos para que a falta do anestésico tenha sido uma piada. Vou procurar eu mesmo a morfina. Ajudem! Tenham dó deste soldado!

O homem, deitado, fora então abandonado. Tremia. Gemia. Gritava. E já sentia o sangue transbordando a boca aberta. Não movia o pescoço. Culpa das amarras. Se respirasse pela boca, morreria afogado. Cuspia o que dava para o alto. Apertava os olhos. Lembrou do nada. Tateou os lados. Encontrou a arma. Deu dois tiros na própria cara.

Voltaram todos, às pressas. Havia sangue por toda parte. Não se reconhecia o rosto ali parado. Ele agora desfalecido. O doutor olhava. Mas para sua surpresa, percebeu que respirava. Bom no que fazia, o fuzileiro acertou mesmo o dente, sem querer o suicídio. Mas o estrago fora grande. Junto com aquele que estava podre, foi-se toda arcada dentária, língua e parte da face. Seu rosto vinha dos olhos até as bochechas quase intacto, mas, dali, só fibras musculares, pele queimada, alguma gordura amarela e ossos dilacerados. Aproxima-se da cena um alguém cansado. Trazia nas mãos a droga. O doutor, em seu estado congelado, abriu o envelope e polvilhou o conteúdo por sobre aquele pedaço desgraçado de gente. Olhava o sangue que escorria formando a poça no chão. Limpou a sola do sapato em um pano de chão. Não disse mais uma palavra. Entregou o caso aos enfermeiros, trocou as luvas e foi ver um sargento que trazia meia lâmina atravessada entre as costelas.

Leandro Gejfinbein (o Gejfin), 25 anos, é gaúcho de Porto Alegre. Formado em comunicação, ainda faz da literatura o pulo sobre a cerca, longe do ganha-pão. Mas 'beretear' é preciso. Mantém o Blog do Gejfin (www.verbeat.com.br/blogs/gejfin) para tentar não falar demais sozinho.



| comentários (4)

:: julho 16, 2004 05:25 PM



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